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Drone atinge usina nuclear de Zaporizhzhia e acende alerta global

Um drone atinge um prédio de turbinas a cerca de 10 metros da sala de um reator na usina nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia, neste domingo (31). A Agência Internacional de Energia Atômica confirma o ataque e relata danos estruturais localizados, mas afirma que os níveis de radiação permanecem normais.

Alvo em zona sensível e disputa de versões

O ataque ocorre em uma das áreas mais sensíveis da maior usina nuclear da Europa, ocupada por tropas russas desde os primeiros dias da invasão em 2022. O impacto atinge a parte externa de um edifício de turbinas adjacente a vários reatores, em uma zona que concentra sistemas vitais para geração de energia e segurança da planta.

A equipe da AIEA que permanece instalada no complexo relata ter observado danos compatíveis com o impacto de um drone. Os inspetores precisam se abrigar na véspera, após ouvir o som de drones e disparos nas proximidades. Mesmo sob tensão, o monitoramento registra que não há alteração nos índices de radiação, dado considerado crucial para afastar, por ora, o risco de contaminação imediata.

O Ministério da Defesa russo declara que o ponto atingido fica “a dez metros da sala do reator”, uma distância que, se confirmada, reforça a percepção de um ataque deliberado a uma área estratégica. A estatal nuclear russa Rosatom sustenta que o aparelho é controlado por um cabo de fibra óptica, tecnologia que, segundo a empresa, “exclui a possibilidade de impacto acidental”.

O governo ucraniano rejeita de forma veemente a acusação de ter atacado a própria usina. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores afirma que a narrativa russa carece de “lógica” e lembra que a unidade está em território ucraniano, que Kiev tenta reconquistar. “Não está claro por que a Ucrânia atacaria sua própria usina nuclear situada em seu próprio território, que ela mesma busca recuperar sob seu controle soberano”, diz a nota.

O diretor-geral da AIEA, o argentino Rafael Grossi, evita apontar responsáveis, mas eleva o tom de alerta. Em mensagem publicada na rede X, ele afirma que atacar instalações nucleares “é como brincar com fogo” e insiste que “não deve haver nenhum tipo de ataque a partir da usina nem contra ela”. A declaração expõe a tensão crescente em torno de Zaporizhzhia, localizada próxima à linha de frente no sul do país.

Risco nuclear em zona de guerra

Zaporizhzhia opera, em tempos de normalidade, seis reatores nucleares e é peça central para o abastecimento elétrico da Ucrânia. Desde que passou ao controle russo, em 2022, o complexo se transforma em símbolo da interseção entre guerra convencional e risco nuclear, algo que a AIEA classifica como “sem precedentes” desde Chernobyl, em 1986, e Fukushima, em 2011.

Os ataques no entorno da planta se tornam frequentes ao longo de 2023 e 2024, com Moscou e Kiev trocando acusações de bombardeios de artilharia e uso de drones. Cada incidente reacende o temor de que um erro de cálculo ou uma falha técnica provoque um vazamento radioativo com impacto muito além das fronteiras do conflito. Nesta semana, o chefe da Rosatom, Alexey Likhachev, declara à imprensa russa que “demos mais um passo rumo a um incidente que, com grande probabilidade, afetará até mesmo aqueles que vivem muito longe das fronteiras da Rússia e da Ucrânia”.

Especialistas em segurança nuclear ouvidos por organismos internacionais apontam que a proximidade de armas explosivas de estruturas críticas aumenta o risco, mesmo quando não há dano direto ao reator. Sistemas de refrigeração, linhas de transmissão e fontes de energia de emergência podem ser comprometidos por impactos aparentemente periféricos. Em crises anteriores, como em Fukushima, a perda de energia elétrica contínua, mais do que o dano inicial, foi determinante para o colapso do sistema.

A possibilidade de um drone ter sido guiado por fibra óptica, como alega a Rosatom, sugere uma operação planejada para evitar interferência eletrônica. Essa versão reforça o discurso russo de que se trata de um ataque de precisão conduzido pela Ucrânia ou por aliados. Kiev responde que Moscou tenta construir um caso para responsabilizar a Ucrânia por qualquer incidente futuro na usina e obter vantagem política e diplomática em fóruns como o Conselho de Segurança da ONU.

Autoridades da usina, sob controle russo, informam ainda um novo ataque contra a oficina de transporte do complexo, espaço que, segundo elas, já é atingido diversas vezes nos últimos meses. O acúmulo de episódios transforma o entorno de Zaporizhzhia em um tabuleiro em que cada movimento militar carrega potencial de escalada superior ao de outros pontos da frente de batalha.

Tensão internacional e próximos passos

O episódio deste 31 de maio pressiona a comunidade internacional a reforçar a vigilância sobre instalações nucleares em zonas de conflito. Países europeus, diretamente expostos a qualquer nuvem radioativa em caso de acidente grave, acompanham com atenção cada comunicado da AIEA. Mercados de energia também reagem a sinais de instabilidade, diante da lembrança de que uma crise prolongada em Zaporizhzhia pode atingir redes elétricas já sob estresse pela guerra e por sanções.

As acusações cruzadas entre Rússia e Ucrânia complicam ainda mais qualquer negociação de paz ou de cessar-fogo localizado em torno da usina. Sem um acordo mínimo sobre a desmilitarização da área, o risco permanece. A AIEA tenta, desde 2022, estabelecer princípios básicos de proteção, como a proibição de armas pesadas no perímetro da planta e garantias de acesso contínuo para inspetores, mas enfrenta resistências e violações recorrentes.

Para Kiev, manter a narrativa de que não ataca sua própria infraestrutura nuclear é vital para preservar apoio ocidental e afastar suspeitas de irresponsabilidade. Para Moscou, enfatizar a proximidade dos impactos com o reator alimenta o argumento de que a Rússia age como guardiã da segurança nuclear ao controlar a usina. Entre essas duas versões, a AIEA tenta preservar credibilidade técnica ao limitar-se a descrever danos, registrar dados de radiação e cobrar que os ataques cessem.

Os próximos dias devem mostrar se o ataque deste fim de semana será tratado como ponto de inflexão ou como mais um episódio em uma rotina perigosa. Novas inspeções na área danificada podem esclarecer a trajetória do drone e o tipo de carga utilizada, embora dificilmente encerrem a disputa de narrativas. Enquanto a guerra continua perto dos reatores, a pergunta que se impõe é até quando a sorte e os protocolos de segurança serão suficientes para conter o risco de uma catástrofe nuclear de alcance global.

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