Brasil supera EUA e sobe à 52ª posição em ranking de imprensa
O Brasil sobe à 52ª posição no ranking mundial de liberdade de imprensa e supera os Estados Unidos pela primeira vez, segundo relatório divulgado nesta quinta-feira (30) pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A lista avalia 180 países e mostra uma melhora relativa do ambiente para jornalistas no país, em contraste com o pior cenário global para a imprensa em 25 anos.
País avança enquanto cenário global piora
A nova edição do ranking, que considera 180 nações e territórios, aponta um movimento desigual. O mundo registra o nível mais baixo de liberdade de imprensa em um quarto de século, mas o Brasil rompe uma sequência de anos de instabilidade e avança dezenas de posições desde o auge das agressões a jornalistas e ataques às instituições democráticas. O relatório destaca a redução de episódios de intimidação direta por autoridades, um ambiente regulatório menos hostil e sinais de maior respeito institucional ao trabalho da imprensa.
O estudo leva em conta cinco dimensões: contexto político, quadro legal, ambiente de trabalho e segurança, fatores econômicos e socioculturais. Em cada eixo, especialistas nacionais e internacionais avaliam a situação por meio de questionários e dados quantitativos, o que gera uma nota consolidada para cada país. Esse indicador define a colocação no ranking anual, publicado tradicionalmente próximo ao 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.
Da pressão extrema à recuperação lenta
O avanço brasileiro reflete uma década marcada por choques sucessivos entre poder político e jornalismo profissional. Nos anos recentes, o país convive com campanhas de descredibilização da imprensa, assédio virtual coordenado contra repórteres e tentativas de interferência em veículos públicos. Em alguns momentos, redações registram aumento de ameaças, processos judiciais intimidatórios e restrições de acesso a informações de interesse público.
Desde 2023, organizações de defesa da liberdade de imprensa notam certa mudança de ambiente. Episódios de hostilidade ainda existem, sobretudo em coberturas de segurança pública, conflitos agrários e política local, mas perdem intensidade no nível federal. A RSF aponta como fatores positivos o fortalecimento de mecanismos de proteção a comunicadores em risco, a retomada do diálogo entre governo e entidades de mídia e o esforço, ainda desigual, de órgãos públicos para cumprir a Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012.
Especialistas ouvidos pela entidade avaliam que o país abandona a zona de alerta vermelho e passa a ocupar uma posição intermediária, que ainda exige vigilância. “O Brasil deixa para trás a fase mais agressiva de ataques sistemáticos à imprensa, mas continua distante do grupo de países modelos em liberdade de informação”, afirma o relatório. A superação dos Estados Unidos, que recuam em meio a pressões políticas, polarização e agressões recorrentes a repórteres, simboliza essa reacomodação no cenário internacional.
A comparação direta com os EUA chama atenção. Lá, jornalistas relatam aumento de hostilidade em manifestações políticas, obstáculos crescentes ao acesso a autoridades e tentativas de criminalizar fontes e vazamentos. O país, tradicionalmente visto como referência em liberdade de expressão, perde posições sucessivas, o que abre espaço para o avanço relativo de democracias em consolidação, como o Brasil.
Democracia em teste e efeitos práticos
A melhora brasileira não significa um cenário confortável. Organizações locais mapeiam casos de violência física em cidades médias e pequenas, processos por dano moral que visam calar repórteres e forte concentração econômica do setor de comunicação. Jornalistas que cobrem crime organizado, milícias e corrupção em nível municipal seguem sob risco. A RSF ressalta que o país ainda convive com impunidade em casos de assassinatos de comunicadores ocorridos em anos anteriores.
Na prática, a nova posição no ranking reforça a imagem do Brasil em fóruns internacionais de direitos humanos e pode influenciar decisões de investidores em mídia, fundações e agências multilaterais que financiam projetos de jornalismo independente. A percepção de um ambiente menos hostil facilita a instalação de correspondentes estrangeiros, a realização de investigações transnacionais e a criação de redes de colaboração entre redações latino-americanas.
Entidades brasileiras veem no resultado uma janela de oportunidade. “O avanço é um sinal de que políticas de proteção a jornalistas e respeito institucional à imprensa produzem efeitos mensuráveis”, avalia o relatório da RSF. A organização, porém, alerta para o risco de retrocessos em ciclos eleitorais tensos, em que líderes locais recorrem a ataques à mídia como estratégia de mobilização. Em 2024, o país realiza eleições municipais, e o comportamento de autoridades e candidatos será observado de perto.
O ranking também alimenta o debate interno sobre regulação de plataformas digitais, desinformação e responsabilidade de grandes empresas de tecnologia no ambiente informativo brasileiro. Grupos de pesquisa lembram que ataques coordenados à imprensa se organizam em redes sociais, o que exige respostas combinadas de Estado, Judiciário, sociedade civil e dos próprios veículos de comunicação. A posição de número 52, nesse contexto, funciona menos como ponto de chegada e mais como lembrete de que a liberdade de imprensa depende de vigilância permanente.
Desafios para consolidar o avanço
O desempenho deste ano tende a pressionar governos, Congresso e Judiciário a detalhar políticas mais consistentes de proteção a jornalistas em risco, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. Organizações da sociedade civil cobram protocolos claros de segurança em coberturas de protestos, operações policiais e conflitos no campo, além de estrutura para abrigar repórteres ameaçados. A expectativa é que o Ministério dos Direitos Humanos e a Secretaria de Comunicação avaliem, ainda em 2026, a ampliação de programas já existentes.
Nos bastidores, executivos de mídia discutem como aproveitar o momento para fortalecer padrões éticos, transparência editorial e iniciativas de checagem de fatos. A aposta é que uma imprensa mais robusta, com regras claras de correção de erros e separação nítida entre opinião e notícia, aumenta a confiança do público e torna mais difícil a volta de campanhas de desinformação contra jornalistas. “O lugar do Brasil no ranking só se sustenta se houver compromisso contínuo com a qualidade e a independência do jornalismo”, resume o relatório, em tom de alerta.
O movimento do Brasil em direção ao centro da tabela coincide com um mundo em que a liberdade de imprensa encolhe em democracias consolidadas e em regimes autoritários. A trajetória futura do país depende de decisões que serão tomadas nos próximos anos: da legislação sobre mídia digital à capacidade de punir quem ataca repórteres. A pergunta que fica, diante da 52ª posição, é se o país vai transformar o avanço em política de Estado duradoura ou se o resultado deste ano será apenas um ponto fora da curva em um cenário ainda volátil.
