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Brasil expulsa adido dos EUA e crise expõe tensão na cooperação policial

O governo Lula expulsa do Brasil o adido civil americano Michael William Myers entre 20 e 24 de abril de 2026, em resposta à retirada do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho dos Estados Unidos. A crise força Itamaraty e Polícia Federal a calibrar a reação para evitar uma ruptura na cooperação de segurança entre os dois países.

Retaliação medida a medida

A expulsão de Myers, credenciado na embaixada americana desde setembro de 2024 em Brasília, marca o ponto mais agudo da resposta brasileira. O gesto vem na esteira da decisão do governo dos Estados Unidos de mandar Marcelo Ivo deixar Miami, onde atuava como oficial de ligação da PF junto ao órgão de imigração americano. Em Washington, a medida é apresentada como defesa do sistema migratório. Em Brasília, é lida como afronta política.

No comunicado divulgado em 20 de abril no X, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental acusa o delegado brasileiro de tentar “manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”. A mensagem é reproduzida pela embaixada americana e celebrações de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro nos EUA acendem o alerta no Planalto. Integrantes do governo interpretam o episódio como politização de uma cooperação que, até aqui, se mantém discreta.

Lula está em viagem à Europa quando toma conhecimento do tuíte. Em reuniões na Alemanha, o presidente discute o caso com o chanceler Mauro Vieira e com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Em entrevistas, os três deixam claro que a resposta virá sob o princípio da “reciprocidade”, palavra repetida em público e em conversas reservadas. O alvo passa a ser o adido civil Michael Myers, representante da área homóloga de segurança interna dos EUA em Brasília.

Na terça-feira, 21 de abril, o diretor do Departamento de América do Norte do Itamaraty, Cristiano Figueroa, convoca a ministra-conselheira da embaixada americana, Kimberly Kelly. Na reunião, ele cobra explicações, reclama do tratamento sumário dado a Marcelo Ivo e aponta desrespeito ao memorando de entendimento que regula a troca de oficiais de ligação. Na mesma conversa, comunica que o Brasil responderá “na mesma moeda”.

O Itamaraty decide, porém, impor um contraste. Ao contrário de Washington, prefere avisar primeiro em privado e só depois tornar pública a expulsão. A decisão de retirar Myers do posto é transmitida verbalmente à diplomata americana. Quase 24 horas depois, em 22 de abril, o Ministério das Relações Exteriores publica no X a “interrupção imediata do exercício de funções oficiais de representante norte-americano de área homóloga em território brasileiro”. Na linguagem diplomática, é a forma de registrar a expulsão sem citar nomes.

Crise revela limites da parceria

Antes mesmo do comunicado do Itamaraty, a PF já eleva a temperatura. Andrei Rodrigues decide suspender temporariamente as credenciais de acesso de um segundo agente americano, ligado à área de imigração, sem ter o nome revelado. “Eu cortei temporariamente o acesso de um funcionário dos EUA à PF, até o MRE definir qual medida adotaria”, afirma o diretor-geral em entrevista à GloboNews. A medida impede a entrada do agente na sede da PF e o uso de sistemas internos, o mesmo tipo de bloqueio sofrido por Marcelo Ivo em Miami.

Quando a decisão de expulsar Myers se consolida, o gesto adicional contra o segundo agente passa a ser visto como exagero dentro do próprio governo. No Itamaraty, diplomatas avaliam que dois alvos brasileiros e apenas um americano caracterizariam retaliação desproporcional, com potencial para travar por completo a cooperação policial. A ordem é recuar. A PF restaura as credenciais do agente e enquadra a suspensão como ato administrativo reversível, para evitar a imagem de escalada.

O episódio ocorre num momento em que a cooperação entre PF e agências americanas é peça central no combate a crimes que atravessam fronteiras. Investigações sobre tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando de armas e rotas de imigração irregular dependem de fluxo rápido de dados entre Brasília, Miami e Washington. Uma paralisação total, avaliam fontes do governo, teria impacto direto na segurança de ambos os países.

O caso de Alexandre Ramagem expõe o nó político por trás da disputa. Ex-diretor da Abin no governo Bolsonaro, deputado do PL do Rio e delegado da PF, ele é condenado a 16 anos por participação em trama golpista e foge para a Flórida com passaporte diplomático, depois cancelado. Marcelo Ivo compartilha informações com o órgão de imigração dos EUA, que prende Ramagem por problemas migratórios. O ex-diretor da Abin passa dois dias detido, alega ter entrado com visto válido e pede asilo político. Para aliados de Bolsonaro, o delegado brasileiro age por motivação política. Para o governo Lula, ele cumpre o dever de cooperar com parceiro estratégico.

A leitura de que parte do Departamento de Estado é hostil ao presidente brasileiro reforça a percepção de politização em Brasília. A forma como a expulsão é anunciada, em rede social e em tom público, fere a expectativa de tratamento negociado. Em resposta, o governo Lula busca um equilíbrio delicado: demonstra firmeza ao defender seu policial, mas tenta preservar espaço para recompor pontes com a Casa Branca e com as agências de segurança.

Cooperação em xeque e próximos movimentos

Passado o primeiro choque, não há definição clara sobre o alcance da crise e o futuro do acordo de cooperação policial firmado entre os dois países. As autoridades evitam falar em ruptura, mas admitem que a confiança fica abalada. Nos bastidores, técnicos revisam procedimentos para troca de oficiais de ligação e monitoram se outros agentes brasileiros no exterior podem sofrer restrições semelhantes. A avaliação é que qualquer novo atrito, mesmo localizado, pode alimentar discursos de desconfiança em Washington e em Brasília.

Lula e Andrei Rodrigues insistem publicamente que o objetivo é manter a cooperação. O recuo na suspensão das credenciais do segundo agente americano sinaliza essa disposição. O gesto preserva um canal mínimo de trabalho conjunto em áreas sensíveis como combate a facções criminosas, terrorismo e fraudes migratórias. Ao mesmo tempo, serve como recado de que o Brasil não aceitará que seus delegados sejam tratados como peças descartáveis em disputas políticas internas de outro país.

Itamaraty acompanha de perto as reações em Washington e aguarda sinais sobre a disposição do governo americano de baixar o tom. Qualquer revisão de protocolos, seja no memorando que regula a atuação de oficiais de ligação, seja em novos termos de cooperação, tende a passar por negociações demoradas, com impacto em operações em curso. A discussão envolve não só segurança, mas também comércio, vistos, circulação de pessoas e percepção internacional sobre a estabilidade institucional do Brasil.

Enquanto isso, a PF e o Palácio do Planalto medem cada declaração. A crise expõe a tensão entre a autonomia operacional da polícia e as amarras da diplomacia. Também recoloca no centro do debate a fronteira entre investigação criminal e disputa política transnacional. O desfecho deve indicar até onde Brasil e Estados Unidos estão dispostos a ir para defender seus quadros sem sacrificar uma parceria que, apesar dos choques, segue estratégica para ambos.

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