Iván Mordisco desafia eleições na Colômbia com onda de ataques
Iván Mordisco, líder da principal dissidência das Farc, coordena uma escalada de ataques com drones explosivos e carros-bomba às vésperas das eleições colombianas de 31 de maio de 2026. O comandante rejeita o acordo de paz de 2016 e usa o terror para ampliar seu controle sobre rotas do narcotráfico e regiões pobres do interior.
Escalada às portas das urnas
O fim de semana anterior à votação expõe o novo patamar da violência. Uma ofensiva coordenada deixa 21 civis mortos, no que autoridades descrevem como o ataque mais letal em três décadas contra a população. A ação consolida Mordisco, nome de guerra de Néstor Gregorio, como principal ameaça à segurança nacional em um país que tenta consolidar a paz após mais de 60 anos de conflito armado.
Drones adaptados para carregar explosivos, carros-bomba detonados em áreas urbanas e ataques a estradas estratégicas marcam a nova fase da campanha armada. Os alvos se concentram em regiões de selva e corredores do narcotráfico, onde o Estado-Maior Central (EMC), facção comandada por Mordisco, disputa território com outras quadrilhas e grupos armados. O objetivo é claro: mostrar que o Estado não controla o interior do país e que qualquer eleição, nessas áreas, ocorre sob a sombra do medo.
O presidente Gustavo Petro, que desde o início do mandato tenta negociar com grupos armados, compara Mordisco a Pablo Escobar, morto em 1993. A associação é deliberada. O governo o apresenta não apenas como herdeiro político de uma guerrilha marxista, mas como um chefe do crime organizado que mistura discurso ideológico, culto às antigas Farc e métodos típicos do narcotráfico do século 21.
Do acordo de paz à dissidência armada
Mordisco entra para as Farc ainda adolescente e ganha reputação como franco-atirador e especialista em explosivos. No final do conflito, ocupa a posição de comandante intermediário, sem assento na cúpula histórica, mas com prestígio militar entre os combatentes de base. Quando a guerrilha decide depor as armas e virar partido político, em 2016, ele se recusa a seguir a direção.
Enquanto comandantes negociam em Havana com o então presidente Juan Manuel Santos, futuro Prêmio Nobel da Paz, Mordisco permanece na selva e organiza uma dissidência. Classifica o acordo como um pacto de “morte” e “espoliação” que favorece apenas a cúpula desmobilizada, deixando milhares de guerrilheiros sem garantias reais de segurança, renda e participação política. A narrativa encontra eco entre jovens pobres de regiões esquecidas, onde a presença do Estado é frágil.
Relatórios militares e estudos da Fundação Core apontam que, em vez de convencer Mordisco, a direção das Farc perde quadros importantes para ele. O emissário Iván Márquez envia Gentil Duarte à selva para tentar integrá-lo ao processo de paz. O resultado é o oposto: Duarte se soma à dissidência, e ambos rompem de vez com a direção que assina o acordo com o governo.
Desde então, o EMC cresce rapidamente. Estimativas das Forças Militares indicam que o grupo reúne cerca de 3,2 mil combatentes em 2026, espalhados por áreas de floresta e fronteiras porosas. O financiamento vem do tráfico de cocaína, da mineração ilegal de ouro e outros minerais, da extorsão de comerciantes e do controle violento sobre comunidades rurais isoladas. Jovens são recrutados à força ou atraídos por promessas de dinheiro, armas e prestígio, turbinadas por vídeos em redes como TikTok.
Entre a mesa de negociação e a guerra aberta
Em abril de 2023, Mordisco aparece pela primeira vez em público desde a ruptura com o acordo de paz. Surge em uma caminhonete blindada de luxo, em meio à selva, óculos escuros no rosto e um fuzil Tavor X95, de fabricação israelense, pendendo do ombro. Diante de câmeras, anuncia a abertura de um diálogo com o governo Petro. O gesto, para analistas, combina cálculo político e demonstração de força.
A trégua dura pouco. Em 2024, após meses de avanços limitados e ataques esporádicos, Mordisco rompe de novo os diálogos. Petro, que o chama de “traqueto” — jargão colombiano para narcotraficante — manda reforçar a ofensiva militar e oferece recompensas milionárias por informações que levem à sua captura. “Quero que capturem Iván Mordisco vivo, não o matem”, afirma o presidente, que aposta em um julgamento exemplar.
O líder rebelde responde com vídeos em que se declara “do lado dos pobres” e defensor do meio ambiente, enquanto multiplicam-se denúncias de assassinatos de militares, civis e líderes sociais em áreas sob influência do EMC. Grupos de direitos humanos documentam deslocamentos forçados, ameaças contra comunidades que tentam cooperar com programas estatais e execuções sumárias por suposta traição ou corrupção dentro da própria organização.
A biografia de Mordisco também se alimenta de boatos sobre sua morte. Em 2022, o governo de Iván Duque anuncia que ele teria sido abatido em uma operação militar. Meses depois, ele reaparece em vídeo, cercado de combatentes armados, e expõe as limitações da estratégia baseada apenas em bombardeios e caçadas seletivas em zonas de selva densa.
Impacto nacional e pressão internacional
A ofensiva de 2026 ocorre em um momento de forte tensão institucional. A Colômbia tenta consolidar o sistema de justiça transicional, que julga crimes cometidos durante o conflito, e garantir a presença de autoridades civis em áreas antes dominadas pelas Farc. Cada ataque de Mordisco expõe a distância entre os compromissos do acordo de 2016 e a realidade de comunidades que seguem sob a lei do fuzil.
Os atentados com drones explosivos e carros-bomba também ligam o alerta em capitais estrangeiras. Rotas de cocaína controladas pelo EMC atravessam fronteiras e alimentam mercados na América do Norte, Europa e África Ocidental. Organismos multilaterais pressionam por ações coordenadas, do reforço à inteligência contra o narcotráfico à proteção de civis em zonas de conflito. O país, por sua vez, enfrenta o dilema de intensificar a repressão armada sem repetir os abusos documentados em décadas passadas.
Comunidades rurais pagam o preço mais alto. Escolas fecham por medo de ataques, projetos de infraestrutura param por falta de segurança e lideranças locais que apoiam programas de substituição de cultivos ilegais vivem sob ameaça constante. O ciclo se retroalimenta: a ausência de serviços básicos e de oportunidades econômicas facilita o recrutamento de adolescentes pelo EMC, que se vende como alternativa de proteção e renda.
A escalada de 2026 reacende memórias dos anos 1980 e 1990, quando cartéis como o de Medellín, de Pablo Escobar, usavam carros-bomba para pressionar o Estado e influenciar decisões políticas. Ao comparar Mordisco a Escobar, Petro sublinha essa continuidade histórica e tenta mobilizar apoio interno e externo para uma ofensiva mais ampla contra a nova geração de chefes criminais.
Eleição sob ameaça e futuro incerto
As eleições de 31 de maio caminham para acontecer sob forte esquema de segurança. O governo reforça tropas em pontos sensíveis, redistribui efetivos da polícia e instala centros de comando regionais para reagir rapidamente a novos ataques. Em algumas localidades, autoridades admitem que pode ser impossível garantir votação plena, o que abre espaço para questionamentos sobre a legitimidade do processo.
A médio prazo, a escalada liderada por Mordisco tende a pesar sobre qualquer tentativa futura de negociação. Setores da sociedade já defendem o fim de diálogos com dissidências e cobram uma resposta militar mais dura, mesmo com o risco de ampliar o ciclo de violência. Outros alertam que sem presença estatal efetiva, políticas sociais robustas e alternativas econômicas à coca, cada avanço militar será temporário.
Para além da disputa imediata pelo território, o confronto em torno de Mordisco define que tipo de paz a Colômbia pode sustentar. O país testa, mais uma vez, a capacidade de realizar eleições livres em meio a ameaças armadas e de impedir que chefes do narcotráfico ditem as regras em regiões inteiras. Resta saber se o Estado conseguirá impor sua autoridade antes que uma nova geração cresça acreditando que o poder, ali, continua nas mãos de quem tem mais armas.
