Ultimas

Reunião em Santa Marta discute saída prática dos combustíveis fósseis

Ministros de dezenas de países se reúnem nesta terça-feira (28), em Santa Marta, na Colômbia, para discutir caminhos concretos de eliminação gradual dos combustíveis fósseis. A negociação mira segurança econômica e energética diante da escalada da guerra no Irã e do petróleo 45% mais caro desde o início do conflito no Oriente Médio.

Do discurso às ferramentas para sair do petróleo e do gás

A conferência nasce com uma ambição diferente das cúpulas da ONU sobre clima. Em vez de novas metas, os governos querem trocar experiências sobre como, na prática, reduzir o uso de carvão, petróleo e gás. A pauta passa por instrumentos financeiros, incentivos regulatórios e planejamento para substituir o gás pela eletricidade em setores intensivos em energia.

“Não estamos negociando ambições, não estamos negociando compromissos. Trata-se realmente de compartilhar como fazer isso”, resume Stientje van Veldhoven, ministra do Clima da Holanda e coorganizadora do encontro com o governo colombiano. Na mesa, ministros detalham que tipos de fundos, garantias de crédito, linhas de financiamento e regras claras podem destravar investimentos em energia limpa ao longo dos próximos dez a quinze anos.

O debate ocorre em clima de frustração com o ritmo das conferências anuais da ONU, em que quase 200 países precisam chegar a consenso para qualquer avanço. Na COP28, em 2023, os governos concordam em promover a transição dos combustíveis fósseis. Desde então, reuniões seguintes empacam diante da resistência de grandes produtores, como a Arábia Saudita, que bloqueiam propostas específicas para limitar petróleo e gás.

O encontro em Santa Marta tenta contornar esse impasse juntando uma “coalizão de dispostos”, como definem os organizadores. São países que se dizem prontos para discutir desenho de tarifas, metas nacionais, revisão de subsídios e prazos para aposentadoria de usinas e gasodutos. A intenção é voltar para casa com modelos de políticas públicas copiáveis, e não com um documento diplomático cheio de adjetivos.

Crise energética expõe custo da dependência de combustíveis fósseis

O pano de fundo é a guerra no Irã e os choques sucessivos no mercado de energia. Desde o início do conflito, o barril de petróleo acumula alta de cerca de 45%, pressionando contas de luz, transporte e alimentos. Economias asiáticas lidam com falta de combustível. Países europeus registram alta de dois dígitos nas tarifas de energia em poucos meses, reacendendo o debate sobre racionamento e subsídios emergenciais.

“Essa guerra no Oriente Médio tem ramificações em todo o mundo devido à nossa dependência de combustíveis fósseis”, afirma Van Veldhoven. “Quanto menos você depender deles, menos vulnerável você será.” A fala ecoa em governos que veem a transição energética não só como agenda ambiental, mas como seguro contra choques geopolíticos e inflação importada.

As emissões de dióxido de carbono geradas pela queima de carvão, petróleo e gás seguem como principal motor das mudanças do clima. Ondas de calor mais longas, secas severas e enchentes recordes cobram contas bilionárias de infraestrutura e seguro. Entre 2020 e 2025, o número de eventos climáticos extremos com perdas acima de US$ 1 bilhão por ano cresce de forma consistente, segundo bases de dados internacionais citadas por negociadores.

Na prática, a discussão em Santa Marta mira duas frentes. Uma é a criação de condições de investimento para que indústrias troquem gás por eletricidade, apoiadas por redes mais robustas e armazenamento de energia. Outra é a reforma de subsídios aos combustíveis fósseis, que ainda somam centenas de bilhões de dólares por ano no mundo, distorcendo preços e desestimulando tecnologias de baixo carbono.

Os organizadores falam em prazos de cinco a dez anos para revisar incentivos que hoje barateiam o diesel e o gás natural, especialmente em transporte e geração de energia. O desafio é proteger famílias de baixa renda e pequenos negócios enquanto o sistema se reconstrói com energias renováveis, como solar e eólica, e com maior eficiência no consumo.

Ausências pesam, mas pressão por resultados aumenta

A coalizão reunida em Santa Marta não inclui os dois maiores emissores do planeta, China e Estados Unidos. Tampouco conta com Arábia Saudita e outros grandes produtores de petróleo e gás do Oriente Médio. As ausências expõem os limites de uma articulação que, por ora, tem mais peso simbólico e político do que volumetria de emissões.

Mesmo assim, o encontro cria um novo tipo de pressão. Se governos menores conseguem redesenhar subsídios, criar metas para substituir gás por eletricidade em indústrias e puxar investimentos em redes inteligentes, fica mais difícil para grandes economias alegarem falta de modelos concretos. O risco para os retardatários é perder competitividade e atratividade de capital num mercado que valoriza previsibilidade regulatória e projetos de baixo carbono.

Nos bastidores, negociadores relatam interesse crescente de bancos públicos e instituições multilaterais em apoiar planos nacionais de eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Linhas de crédito com juros mais baixos, garantias contra risco cambial e fundos de transição aparecem como ferramentas centrais para tornar viável a troca de matriz energética em países com alto endividamento.

Empresas de petróleo acompanham as discussões com cautela. Reduções de subsídios a combustíveis fósseis mexem em margens e podem antecipar o fechamento de ativos. Por outro lado, abrem espaço para investimentos em energia renovável, hidrogênio de baixa emissão e captura de carbono, áreas que ganham relevância nos planos estratégicos de grandes grupos desde a década passada.

No curto prazo, a reunião não muda o preço do barril nem resolve a escalada da guerra no Irã. A aposta dos organizadores é outra: criar massa crítica de experiências bem-sucedidas para que a transição energética deixe de depender exclusivamente de declarações na ONU. A pergunta, ao fim dos debates em Santa Marta, é quanto desse roteiro sobreviverá ao teste dos Parlamentos, dos orçamentos apertados e da disputa por influência entre produtores de energia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *