China reage a acusação dos EUA contra Raúl Castro e reforça apoio a Cuba
A China critica publicamente, em 21 de maio de 2026, as acusações criminais dos Estados Unidos contra Raúl Castro e reafirma apoio à resistência cubana às sanções americanas. O governo chinês acusa Washington de abusar do sistema judicial para pressionar politicamente Havana e promete defender a soberania da ilha.
Pequim entra em cena no embate Washington–Havana
O posicionamento parte de Pequim em meio a uma crise que mistura tribunais, sanções econômicas e a memória de um episódio de quase três décadas atrás. Na quarta-feira, 20 de maio, promotores americanos formalizam acusações contra o ex-presidente cubano, de 94 anos, por um ataque aéreo ocorrido em 1996. No dia seguinte, o Ministério das Relações Exteriores da China transforma o caso em tema de disputa geopolítica.
Durante a coletiva diária, o porta-voz Guo Jiakun afirma que a China se opõe de forma categórica ao que chama de “abuso de meios judiciais” pelos Estados Unidos contra Cuba. Ele diz que Washington recorre a processos criminais, sanções e ameaças de força para tentar forçar uma mudança de rumo político em Havana. O caso Castro, segundo Guo, se insere em uma estratégia mais ampla de pressão sobre governos que resistem à influência americana no Hemisfério Ocidental.
Acusações raras, memória de 1996 e um bloqueio renovado
Raúl Castro é acusado de conspirar para matar cidadãos americanos, destruir uma aeronave e cometer homicídio. As denúncias se referem ao abate de dois aviões civis da organização Irmãos ao Resgate, em fevereiro de 1996, quando jatos cubanos derrubam as aeronaves sobre o mar. Quatro homens morrem, entre eles três cidadãos dos Estados Unidos. À época, Castro ocupa o cargo de ministro da Defesa e, segundo a acusação, autoriza o ataque.
O governo cubano reage chamando a acusação de “desprezível” e politicamente motivada. Em Havana, autoridades veem o gesto como parte de uma campanha mais ampla de sufocamento econômico. Nas últimas semanas, Washington amplia um tipo de bloqueio energético, ameaçando com sanções países e empresas que fornecem combustível à ilha. O efeito aparece em apagões mais frequentes, na pior crise de energia em décadas, com impacto direto sobre hospitais, transporte público e produção de alimentos.
A ofensiva judicial é descrita por analistas como um movimento incomum. Acusações criminais contra líderes estrangeiros, atuais ou passados, continuam raras na prática diplomática americana. Para o governo dos Estados Unidos, esse é mais um capítulo de uma política que busca isolar o regime cubano e sinalizar firmeza para aliados na região. Para a China, porém, trata-se de um sinal de que Washington expande o alcance de suas leis para além das próprias fronteiras, algo que Pequim tenta conter em diferentes frentes, do Mar do Sul da China à América Latina.
China se alinha a Cuba e mira a disputa de influência nas Américas
Em sua declaração, Guo Jiakun diz que Pequim “apoia firmemente” Cuba na defesa da soberania e da dignidade nacionais e se opõe à interferência externa em assuntos internos da ilha. Ele pede que Washington cesse o uso de sanções, instrumentos legais e ameaças militares contra o governo cubano. A mensagem tem endereço certo: os Estados Unidos mantêm um pacote de restrições que limita acesso a crédito, comércio, tecnologia e, agora, até combustível.
Enquanto endurece no campo judicial e econômico, Washington tenta suavizar o tom diretamente com a população cubana. Em uma mensagem em vídeo, o secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, oferece até US$ 100 milhões em ajuda humanitária, condicionada à distribuição por meio da Igreja Católica e de organizações de caridade. Rubio, que fala em espanhol, culpa a cúpula cubana pela escassez de eletricidade, alimentos e combustível. O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez, responde chamando o americano de “porta-voz de interesses corruptos e vingativos”, mas admite que o governo não descarta totalmente o pacote de ajuda, ainda que o descreva como “cínico” diante do “estrangulamento energético” imposto por Washington.
Nesse ambiente, o gesto da China não é apenas retórico. Ao se colocar ao lado de Havana, Pequim reforça uma rede de parceiros que inclui Venezuela, Nicarágua e outros governos desconfiados da hegemonia americana. O apoio chinês tende a se traduzir em linhas de crédito, acordos energéticos e cooperação tecnológica, reduzindo o espaço de manobra de sanções unilaterais dos EUA. Para Cuba, que enfrenta há décadas um embargo econômico, cada novo aliado com peso financeiro ajuda a manter a economia mínima em funcionamento e sustentar a narrativa de resistência.
Risco de escalada diplomática e pressão em fóruns internacionais
A reação de Pequim adiciona uma camada à já tensa relação com Washington. Ao enquadrar as acusações contra Raúl Castro como instrumento político, a China abre caminho para questionar a legitimidade de outras iniciativas judiciais dos Estados Unidos, de sanções contra autoridades russas a processos envolvendo empresas chinesas. A disputa se desloca dos tribunais americanos para organismos multilaterais, onde temas como soberania nacional, bloqueios econômicos e direitos humanos costumam se chocar.
Diplomatas ouvidos em privado veem espaço para que o caso seja levado a debates na ONU, na OEA e em fóruns de países em desenvolvimento, como o Brics ampliado. Cuba pode usar a acusação contra um ex-chefe de Estado como exemplo de extraterritorialidade americana. A China, por sua vez, tende a explorar o episódio para agregar apoio de países que temem virar alvo de sanções semelhantes. Nos próximos meses, o processo criminal contra Raúl Castro deve avançar em cortes americanas, mesmo sem qualquer expectativa de extradição. A forma como Washington, Pequim e Havana administrarem esse impasse ajudará a definir se o episódio ficará restrito aos autos ou se se transformará em mais um foco de confronto em uma ordem internacional cada vez mais disputada.
