Xi e Putin fecham frente contra EUA e ampliam aliança estratégica
Xi Jinping e Vladimir Putin usam uma reunião de Estado em Pequim, nesta quarta-feira (20), para formalizar uma frente política contra os Estados Unidos. Os líderes atacam o plano antimísseis norte-americano, prometem aprofundar a cooperação militar, energética e tecnológica e defendem um mundo “multipolar” como resposta ao que chamam de hegemonia de Washington.
Pequim e Moscou selam alinhamento em público
O encontro ocorre no Grande Salão do Povo, no coração político de Pequim, e marca a 25ª visita oficial de Putin à China em cerca de 25 anos de poder. Em pouco menos de 24 horas, os dois presidentes desfilam lado a lado em cerimônia com salva de tiros, crianças acenando bandeiras e tapete vermelho, antes de passar às negociações fechadas e à assinatura de uma nova declaração conjunta.
Xi descreve a parceria com Moscou como um fator de “calma em meio ao caos” num cenário internacional que, segundo ele, vive “turbulências e transformações interligadas”. O líder chinês volta a criticar o que chama de “correntes hegemônicas unilaterais”, expressão usada pela diplomacia de Pequim para apontar excesso de poder dos EUA em conflitos e instituições globais.
Putin responde na mesma chave. Afirma que a relação com a China atinge um “nível sem precedentes” e a coloca entre os “principais fatores de estabilização no cenário internacional”. Ele faz questão de sublinhar a proximidade pessoal com Xi, lembrando que já se encontraram mais de 40 vezes, e recorre até a um provérbio chinês — “Um dia separados parece três outonos” — para reforçar a imagem de confiança mútua.
O clima público de camaradagem contrasta com a posição real de força na mesa. A Rússia entra enfraquecida, pressionada por sanções ocidentais e por perdas de território na guerra da Ucrânia em 2024 e 2025. A economia russa depende cada vez mais de exportações de energia para a China, que hoje funciona como principal fonte de receitas para o Kremlin em meio ao bloqueio financeiro imposto por EUA e Europa.
Críticas diretas aos EUA e recado para o Oriente Médio
A declaração conjunta, divulgada por meios estatais de ambos os países, concentra o ataque mais direto à política externa norte-americana. Xi e Putin miram o projeto “Cúpula de Ouro”, programa de defesa antimísseis de dezenas de bilhões de dólares impulsionado por Washington. “Representa uma ameaça clara à estabilidade estratégica”, afirmam, ao dizer que o plano quebra o equilíbrio entre armas ofensivas e sistemas defensivos e estimula uma nova corrida armamentista.
Os dois líderes ampliam o raio das críticas para o Oriente Médio. Condenam a guerra conduzida por EUA e Israel contra o Irã e atribuem aos ataques a responsabilidade por “minar a estabilidade no Oriente Médio”. Na leitura dos governos chinês e russo, a escalada militar aumenta o risco de ruptura no fornecimento de energia, nas cadeias globais de abastecimento e no comércio internacional.
Xi cobra um “fim precoce” do conflito e afirma que “a cessação total da guerra não admite demoras”, defendendo negociações contínuas para evitar novas ondas de violência. O texto comum vai além e acusa Washington e Tel Aviv de “lançarem descaradamente ataques militares contra outros países”, de “usarem as negociações como pretexto para preparar a ação” e de “assassinarem líderes de Estados soberanos” — referência indireta ao ataque que matou o ex-líder supremo iraniano aiatolá Ali Khamenei.
A ofensiva verbal não se limita ao Oriente Médio. Na mesma declaração, Xi e Putin condenam o que chamam de interferência dos EUA na América Latina e no Caribe. Criticam o “rapto à força e julgamento de um chefe de Estado”, em alusão ao ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado por forças norte-americanas e levado a julgamento nos EUA, e dizem apoiar o “estatuto da América Latina e do Caribe como zona de paz”.
Energia, tecnologia e a aposta num mundo multipolar
Por trás da retórica, a reunião se ancora em interesses muito concretos. China e Rússia assinam cerca de 20 acordos cobrindo energia, indústria, agricultura, transporte e alta tecnologia, embora os governos evitem detalhar valores e metas. A expectativa, em Moscou, é ampliar ainda mais o fluxo de petróleo, gás e carvão para o mercado chinês, num momento em que sanções limitam o acesso russo à Europa.
Putin apresenta a Rússia como “fornecedora confiável de recursos” e oferece estabilidade de longo prazo diante da crise no Oriente Médio, que encarece e encurta o acesso de Pequim ao petróleo bruto. Xi, por sua vez, usa a posição dominante da China na mesa para buscar condições mais vantajosas em contratos de energia e novos projetos de infraestrutura, em especial gasodutos e linhas férreas que cruzam a Eurásia.
Os dois também concordam em estender até o fim de 2027 o regime de viagens sem visto para cidadãos de ambos os países, numa tentativa de reforçar laços turísticos e acadêmicos. No campo tecnológico, prometem aprofundar a cooperação em inteligência artificial, área vista pelos dois governos como central na disputa estratégica com os EUA, tanto em aplicações militares quanto civis, como monitoramento, reconhecimento de imagens e automação industrial.
A visita ocorre no 25º aniversário do “Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável”, assinado em 2001, que pôs fim a disputas fronteiriças e abriu um novo ciclo de aproximação. Desde então, comércio bilateral, exercícios militares conjuntos e alinhamento diplomático avançam de forma constante, acelerados a partir de 2022, com a ampliação da guerra na Ucrânia e o aprofundamento da rivalidade entre China e EUA.
Recalibragem do tabuleiro global e dúvidas adiante
A foto de Xi entre Trump e Putin, recebidos em Pequim com poucos dias de diferença, funciona como peça central da narrativa que a China tenta construir. O governo chinês se apresenta como mediador indispensável num mundo em disputa, capaz de conversar tanto com Washington quanto com Moscou e de influenciar resultados em guerras que vão da Ucrânia ao Oriente Médio.
Na prática, a aproximação com a Rússia reforça um eixo alternativo de poder que desafia a hegemonia norte-americana em regiões estratégicas como Eurásia, Oriente Médio e América Latina. Países que buscam margem de manobra frente aos EUA acompanham de perto os gestos de Pequim e Moscou, avaliando possíveis ganhos em comércio, energia e tecnologia, mas também os custos de se afastar de Washington.
O aprofundamento da parceria Sino-Russa tende a acelerar a formação de blocos mais definidos nas relações internacionais, com impacto direto sobre negociações comerciais, cadeias de produção e investimentos em setores sensíveis, como semicondutores e defesa. Ao mesmo tempo, a dependência crescente da Rússia em relação à China pode limitar a autonomia do Kremlin e alimentar tensões internas em Moscou.
A declaração de Pequim, porém, não resolve a principal incerteza sobre o novo arranjo global: até que ponto Xi está disposto a pagar o preço econômico e diplomático de sustentar Putin em confronto prolongado com o Ocidente. A resposta, que passa por contratos de energia, cooperação tecnológica e próximos movimentos militares na Ucrânia e no Irã, vai ajudar a definir o desenho real do mundo multipolar que Pequim e Moscou anunciam hoje.
