Arquivo Público salva documentos históricos após descarte no antigo IML
O Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro retira, nesta quinta-feira (21), documentos históricos do antigo prédio do Instituto Médico Legal (IML) após denúncia de descarte irregular. A remoção emergencial acontece dias depois de um vídeo viral expor papéis abandonados em meio a entulho, e tenta conter uma perda considerada irreparável por especialistas em memória e direitos humanos.
Pressão das redes transforma cena de abandono em operação de resgate
As imagens que circulam desde o início da semana mostram pilhas de prontuários, laudos e fichas espalhadas pelo chão, misturadas a restos de obra e lixo comum. Em poucas horas, o vídeo alcança milhares de compartilhamentos, sai das redes sociais e chega a gabinetes do governo estadual, que se veem pressionados a agir. No centro da discussão está o destino de um acervo que registra mortes violentas, desaparecimentos e perícias produzidas ao longo de décadas na cidade do Rio.
O antigo prédio do IML, na região central, está desativado e passa por obras de adaptação desde 2025. O material deveria ter sido catalogado e encaminhado para guarda adequada antes do início das intervenções. Na prática, porém, parte da documentação é deixada para trás, em salas sem ventilação, com infiltrações e acesso facilitado a curiosos. A exposição a umidade, poeira e variações de temperatura acelera o risco de decomposição do papel e de perda de tinta, processo que se torna visível em cerca de dois a três anos, segundo arquivistas.
O Arquivo Público assume a frente da operação e desloca servidores e técnicos para o imóvel. Caixas, pastas e maços soltos são recolhidos manualmente e transportados em veículos oficiais para o centro de conservação do órgão, em bairro da Zona Norte. A prioridade é retirar, em um primeiro momento, tudo o que ainda pode ser recuperado, mesmo que em estado frágil. “O que se perde aqui não volta mais. Estamos correndo contra o tempo para salvar o máximo possível”, afirma um técnico envolvido na ação.
Funcionários relatam que o acervo reúne documentos produzidos ao menos desde os anos 1960, com dados de vítimas, laudos de necropsia, registros fotográficos e relatórios internos. Parte desse material interessa não só à história da cidade, mas também a pesquisas acadêmicas, processos judiciais e investigações sobre crimes cometidos durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. A ausência de controle claro sobre quantos metros de documentos estavam ali, e quanto já foi danificado, é hoje um dos pontos mais sensíveis da crise.
Memória em risco acende alerta sobre gestão de arquivos públicos
A retirada emergencial escancara um problema antigo: a falta de política consistente para arquivos administrativos e históricos no Rio. A cada mudança de governo ou de prédio, caixas e dossiês se perdem em estoques improvisados, porões e salas sem destinação definida. A cena de papéis no lixo no antigo IML lembra situações vividas em delegacias, fóruns e hospitais públicos nas últimas duas décadas, em que documentos com menos de 50 anos, ainda sob guarda obrigatória, são tratados como sobra de mobiliário.
Historiadores apontam que o acervo do IML guarda informações únicas sobre violência urbana, atuação policial e condições de vida em diferentes bairros. São dados que permitem mapear padrões de homicídio, identificar rotas de desaparecimento e reconstruir histórias familiares interrompidas por mortes violentas. “Cada laudo traz um pedaço de uma história que muitas vezes a família nunca conseguiu acessar. Jogar isso fora é negar às pessoas o direito à memória e à verdade”, diz uma pesquisadora da área de direitos humanos.
A repercussão nacional do caso, desde que o vídeo viraliza, aumenta a pressão sobre o governo estadual. Organizações civis cobram responsabilização por eventual destruição indevida de documentos públicos, crime previsto em lei federal. Integrantes da Defensoria Pública e do Ministério Público acompanham o caso e avaliam a adoção de medidas para garantir que o restante do acervo seja identificado, organizado e disponibilizado a quem tem interesse legítimo, como familiares de vítimas e pesquisadores.
A forma como o episódio é conduzido tende a influenciar a formulação de novas normas de gestão documental. Técnicos defendem a criação de prazos claros para transferência de acervos sensíveis ao Arquivo Público sempre que unidades forem desativadas ou reformadas, além de investimentos em digitalização. A estimativa é que, para dar conta de acervos acumulados em órgãos de segurança, saúde e Justiça, o Estado precise de um plano de médio prazo, com metas anuais e orçamento garantido por pelo menos cinco anos.
Próximos passos podem redefinir política de preservação no Rio
O Governo do Estado discute, internamente, um protocolo para evitar repetições do episódio do IML. A proposta em estudo inclui a obrigação de inventário prévio de arquivos sempre que houver mudança de endereço ou reforma estrutural, com prazos máximos para transferência ao Arquivo Público ou a outra unidade de guarda. A Secretaria de Cultura, à qual o Arquivo Público é vinculado, também avalia firmar convênios com universidades para acelerar processos de catalogação e restauração.
A partir da repercussão, cresce a expectativa de que o caso se torne um marco na forma como o poder público trata a própria memória. Organizações de direitos humanos cobram transparência: querem saber quantos documentos foram resgatados, que parte já estava irrecuperável e que medidas serão tomadas para garantir acesso às informações preservadas. A resposta a essas perguntas deve definir se a operação de hoje ficará restrita a uma reação pontual a um vídeo viral ou se abrirá, de fato, uma nova fase na proteção do patrimônio documental do Rio de Janeiro.
