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Suspeito de feminicídio em Rio Acima é achado morto em sítio

O comerciante Roberto Cesar Rodrigues, 46, suspeito de matar a companheira e balear o enteado, é encontrado morto na tarde de terça-feira (28/4) em um sítio na zona rural de Rio Acima, na Grande BH. A morte ocorre dois dias após o feminicídio de Gislene Ferreira da Rocha, 43, e mantém em aberto as circunstâncias do desfecho do caso, que ainda são investigadas pela Polícia Civil.

Da fuga ao corpo no quarto do sítio

Roberto passa a terça-feira em um pequeno sítio conhecido como Água Limpa, na região da Estrada do Tangará, área rural de Rio Acima, a cerca de 30 quilômetros de Belo Horizonte. Segundo relato à Polícia Militar, ele chega ao local por volta das 10h e pede ao proprietário para usar a internet.

O dono do sítio conta que conhece Roberto desde a infância e não desconfia de que ele é procurado por feminicídio. No imóvel simples, cercado por mata e estradas de terra, o homem de 46 anos faz uma chamada de vídeo com um advogado e diz que pretende se entregar às autoridades. A conversa, segundo o boletim de ocorrência, é o último contato conhecido de Roberto com alguém de fora da propriedade.

O proprietário sai do sítio durante a tarde para resolver pendências na cidade. Retorna por volta das 15h. Ao entrar no quarto, encontra o conhecido caído sobre a cama, sem reação. Ao lado do corpo, no chão, vê um revólver calibre .38. Ele chama a polícia.

Equipes da Polícia Militar isolam a área até a chegada da perícia da Polícia Civil. O corpo de Roberto é encaminhado para o Instituto Médico-Legal (IML) da região metropolitana. O laudo vai apontar a causa oficial da morte e indicar se houve suicídio ou outra forma de violência. A arma encontrada ao lado do corpo é apreendida para exames.

Feminicídio, ciúmes e um filho entre a vida e a morte

A morte do suspeito encerra uma caçada policial iniciada na noite de domingo (26/4), quando Gislene Ferreira da Rocha é baleada dentro de casa, no bairro Jatobá, em Rio Acima. Ela tem 43 anos, é irmã do vereador Ivanildo Rocha (PP) e morre pouco depois de chegar ao hospital municipal.

Quando militares entram no imóvel, encontram Gislene desacordada, com perfurações nas costas, nas pernas e na região do quadril. Ainda apresenta sinais vitais e é levada às pressas para atendimento, mas não resiste. O filho dela, de 21 anos, é atingido no abdômen ao tentar impedir os disparos. Recebe os primeiros socorros na cidade e é transferido para o Hospital Nossa Senhora de Lourdes, em Nova Lima, também na Grande BH. O estado de saúde não é divulgado pela unidade.

Familiares relatam que Roberto passa o domingo ingerindo bebida alcoólica. No início da noite, ele conversa com Gislene no quarto do casal. Poucos minutos depois, o silêncio da casa é quebrado pelos gritos da mulher chamando pelo filho. Ao correr para o cômodo, o jovem tenta contê-lo e é baleado.

Testemunhas dizem que, em seguida, Roberto volta-se para a companheira e dispara várias vezes, principalmente nas costas e nas pernas. Depois de atirar, procura a cunhada e faz uma confissão direta: “Matei sua irmã”, relata a família à polícia. Em seguida, foge em direção à zona rural.

Registrado como CAC, sigla para colecionador, atirador e caçador, Roberto mantém armas e munições em um cofre em casa. Durante buscas no endereço, a Polícia Militar apreende parte desse arsenal, que também entra na investigação. O histórico como atirador desportivo levanta questionamentos sobre o acesso a armamento em casos de violência doméstica.

Nas horas seguintes ao crime, o suspeito ainda publica mensagens em redes sociais. Em uma delas, escreve: “Nunca pensei que meu grande amor teria coragem de me trair. Peço a todos perdão, mas infelizmente não pude conter a raiva, pois eu amava muito.” O texto, citado por familiares, indica motivação por ciúmes e reforça a linha de investigação de feminicídio.

Medo na vizinhança e debate sobre violência doméstica

O caso abala uma cidade de pouco mais de 11 mil habitantes e expõe, mais uma vez, a rotina de violência dentro de casa. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra, em média, um feminicídio a cada 7 horas. Em Minas Gerais, a Polícia Civil contabiliza centenas de ocorrências por ano, com picos em fins de semana e feriados.

Em Rio Acima, vizinhos relatam medo e sensação de vulnerabilidade desde domingo. O fato de o suspeito estar armado, ter formação como atirador e permanecer foragido por quase dois dias provoca apreensão em bairros urbanos e áreas rurais. Moradores evitam sair à noite e acompanham, pelas redes sociais, cada atualização sobre buscas e diligências.

A morte de Roberto dentro de um quarto de sítio, em circunstâncias ainda não esclarecidas, não encerra a inquietação. Pelo contrário. A cidade tenta entender como uma discussão de casal termina em uma sequência de tiros, na tentativa de homicídio de um jovem de 21 anos e na morte da própria vítima e do agressor em menos de 48 horas.

A Câmara Municipal divulga nota de pesar pela morte de Gislene e presta solidariedade ao vereador Ivanildo Rocha e à família. Organizações locais de defesa dos direitos das mulheres usam o caso para reforçar a importância de denúncias precoces de agressões e ameaças, principalmente quando há acesso a armas de fogo.

Especialistas em segurança ouvidos por autoridades estaduais apontam que a combinação de ciúmes, consumo de álcool e armamento disponível aumenta de forma expressiva o risco de letalidade em conflitos domésticos. A Lei do Feminicídio, em vigor desde 2015, prevê pena mais alta para crimes cometidos em contexto de violência contra a mulher, especialmente quando há histórico de agressões anteriores.

Investigação, laudos e um luto que se prolonga

A Polícia Civil abre inquérito para esclarecer tanto o feminicídio de domingo quanto a morte de Roberto no sítio. Peritos colhem impressões digitais, vestígios de disparo e posicionamento do corpo e da arma no quarto. O laudo cadavérico, que costuma ficar pronto em até 30 dias, deve indicar a trajetória do projétil, a distância do tiro e o horário aproximado da morte.

Investigadores também analisam o conteúdo das mensagens publicadas nas redes de Roberto e o histórico de chamadas no celular apreendido. A conversa em vídeo com o advogado, feita poucas horas antes de ele ser encontrado morto, entra no centro da apuração. A polícia busca entender se houve mudança de decisão entre a intenção de se entregar e o desfecho no sítio.

Na área da saúde, a prioridade é a recuperação do enteado de 21 anos, que segue internado em Nova Lima. O depoimento do jovem será fundamental para reconstituir a dinâmica dos disparos dentro da casa no bairro Jatobá, assim que houver autorização médica.

A família de Gislene se divide entre o luto e a cobrança por respostas. Mesmo com o principal suspeito morto, o inquérito de feminicídio segue em andamento, porque o Estado tem o dever de esclarecer o que ocorreu, qual arma foi usada e se havia sinais anteriores de risco que poderiam ter sido interrompidos.

O caso de Rio Acima tende a alimentar novas discussões sobre o controle de armas de fogo em residências, as falhas na proteção a mulheres em situação de violência e a necessidade de respostas mais rápidas a sinais de ameaça. Enquanto laudos e depoimentos não chegam às mãos da polícia e do Ministério Público, permanece a pergunta que ecoa entre parentes, vizinhos e autoridades: em que momento a vida de uma família é capturada por uma espiral de ciúme, arma e morte sem volta?

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