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Trump avalia proposta iraniana para reabrir Estreito de Ormuz

O presidente dos EUA, Donald Trump, discute nesta segunda-feira, em Washington, uma nova proposta do Irã para reabrir o Estreito de Ormuz e encerrar a guerra no Oriente Médio. O plano, apresentado por Teerã após o fracasso da última rodada de negociações, adia para mais tarde qualquer acordo sobre o programa nuclear iraniano.

Casa Branca testa limites da proposta iraniana

A reunião ocorre na sede da equipa de segurança nacional, em Washington, e reúne os principais conselheiros de Trump para assuntos militares e diplomáticos. O encontro é descrito por assessores como uma discussão estratégica, não como o início formal de uma negociação.

A secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirma que o plano iraniano está na mesa, mas evita qualquer sinal de aproximação. “Não diria que a estão a considerar. Diria apenas que houve uma discussão esta manhã à qual não me quero antecipar”, afirma. Segundo ela, o próprio presidente deve falar “diretamente” sobre o assunto.

A proposta, revelada por veículos como a ABC News e o site Axios, parte de um gesto concreto de Teerã: reabrir o estreito de Ormuz, hoje sob bloqueio e cenário de 29 ataques a navios desde o início do conflito, segundo a Organização Marítima Internacional (OMI). Em troca, o Irã pede o fim da guerra e aceita discutir seu programa nuclear em uma fase posterior.

Para a Casa Branca, o ponto sensível continua sendo o dossiê nuclear. Fontes ouvidas pela ABC afirmam que os termos iranianos ficam “muito aquém” das linhas vermelhas traçadas pela administração Trump, que exige a suspensão do enriquecimento de urânio por uma década e a retirada do material enriquecido do país.

Trump, por sua vez, mantém o discurso de pressão máxima. Apesar do cessar-fogo em vigor, o presidente ordena a continuidade do bloqueio naval no golfo Pérsico. O Comando Central dos EUA informa ter forçado 38 embarcações a recuar ou voltar ao porto desde 13 de abril, em uma operação que atinge 90% do comércio marítimo iraniano.

Estreito de Ormuz trava comércio global e pressiona preços

O estreito de Ormuz é uma faixa de água de pouco mais de 50 quilômetros em seu ponto mais estreito, por onde, antes da guerra, passava cerca de 20% de todo o petróleo e gás transportado por mar no planeta. Com o bloqueio e as minas relatadas na região, o corredor marítimo se converte em gargalo da economia global.

A OMI calcula que 20 mil tripulantes de 1.600 navios permanecem retidos no golfo Pérsico e nas proximidades de Ormuz, sem garantia de rota segura. “Não poderemos implementar qualquer plano de evacuação enquanto não for seguro fazê-lo”, afirma o secretário-geral da entidade, Arsenio Dominguez, em Londres. Ele exige um desagravamento duradouro das hostilidades e a limpeza completa de minas para liberar os canais de navegação.

Dominguez também rejeita a ideia de “portagens” ou taxas que o Irã quer cobrar pela passagem. “A liberdade de navegação não é negociável para a OMI, e nenhum país tem o direito de obstruir o tráfego num estreito destinado à navegação internacional”, diz, citando convenções como a SOLAS, que rege a segurança da vida humana no mar.

O impacto chega com rapidez ao mercado de petróleo. O barril de Brent para entrega em junho sobe 2,66% por volta das 10h30 em Lisboa, para cerca de US$ 108, após ter encostado em US$ 108,47 mais cedo. O avanço se soma à alta de quase US$ 10 registrada na semana anterior, em reação à falta de progresso nas conversas entre Washington e Teerã.

O choque de preços se espalha pela economia real. No Alentejo, sul de Portugal, produtores rurais veem os custos dispararem com a escalada do petróleo e dos fertilizantes, diretamente atrelados ao conflito. “Desde o princípio de março, o gasóleo agrícola já subiu 60 cêntimos e os fertilizantes, em média, mais 30%”, relata Rui Garrido, presidente da ACOS – Associação de Agricultores do Sul. Ele calcula que alguns insumos já custam mais de 50% acima do patamar anterior à guerra.

Na China, maior importadora de energia do mundo, a pressão também se faz sentir. Cerca de 45% das importações chinesas de petróleo e gás passam por Ormuz. Mesmo assim, Pequim tenta demonstrar controle. O governo destaca a “resiliência” do setor energético, ao citar produção anual acima de 200 milhões de toneladas de petróleo e uma malha de mais de 200 mil quilômetros de oleodutos e gasodutos, além de terminais capazes de receber mais de 120 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano.

Rússia reforça Teerã e Ocidente procura saída política

Enquanto Washington avalia o plano iraniano, Moscou se move para consolidar sua aliança com Teerã. Em São Petersburgo, o presidente russo, Vladimir Putin, recebe o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, que percorre a região em busca de apoio político e militar.

Putin elogia o que chama de luta “heroica” do Irã por soberania e promete atuar para encurtar a guerra. “Faremos tudo o que sirva os vossos interesses, os interesses de todos os povos da região, para que a paz possa ser alcançada o mais rapidamente possível”, afirma, segundo a imprensa russa. Araghchi responde que a parceria estratégica com Moscou é “caminho” irreversível.

O chanceler iraniano volta a acusar os EUA de terem sabatado a segunda rodada de negociação, que ocorreria no fim de semana, no Paquistão. O primeiro encontro entre delegações de alto nível de Washington e Teerã em 47 anos, realizado em 11 de abril, dura mais de 20 horas, mas termina sem acordo. “As abordagens norte-americanas fizeram com que o ciclo anterior de negociações, apesar dos progressos, não atingisse os objetivos devido a exigências excessivas”, diz Araghchi.

Na Europa, os efeitos da guerra chegam às mesas de decisão econômica. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, convoca para terça-feira uma reunião do comitê de emergência Cobra para avaliar os impactos financeiros do conflito. O Banco da Inglaterra participa. “As consequências económicas ainda podem afetar-nos por algum tempo. Podem ver isso em todos os postos de abastecimento do país”, afirma Starmer, segundo o Guardian.

O conflito também alimenta tensões em outras frentes. No Líbano, o líder do Hezbollah, Naim Qassem, rejeita qualquer negociação direta com Israel, mesmo após o prolongamento do cessar-fogo. Ele classifica a ideia como “pecado grave” e promete manter a “resistência defensiva”, enquanto ataques israelenses deixam 14 mortos e 37 feridos no país, incluindo crianças.

Estreito continua travado enquanto Washington decide próximos passos

A nova proposta iraniana tenta separar a reabertura imediata de Ormuz da questão nuclear, hoje o ponto mais explosivo da agenda bilateral. O plano prevê prolongar o cessar-fogo ou declarar o fim formal da guerra, em troca da suspensão do bloqueio e do retorno gradual do fluxo de petróleo. A discussão sobre centrífugas, níveis de enriquecimento e estoques de urânio ficaria para uma etapa posterior.

Diplomatas envolvidos nas conversas afirmam que falta consenso dentro da própria liderança iraniana sobre até onde ceder nas exigências americanas. Em Washington, a dúvida é se aceitar qualquer forma de alívio sem garantias nucleares enfraquece a campanha de “pressão máxima” que Trump exibe como trunfo político. O presidente insiste em público que “não tem pressa” por um novo acordo e repete que a economia iraniana está “asfixiada”.

As próximas horas em Washington indicam o rumo possível. Se Trump der sinal verde para explorar o plano iraniano, mesmo de forma limitada, companhias de navegação e produtores de energia podem enxergar uma trégua no horizonte. Uma redução parcial do bloqueio seria suficiente para aliviar prêmios de risco nos fretes e moderar a escalada do petróleo.

Se a Casa Branca optar por endurecer e descartar a proposta como insuficiente, o cenário aponta para prolongamento da crise em Ormuz, aprofundamento das alianças entre Irã e Rússia e maior fragmentação diplomática. Países dependentes de energia importada, como Brasil, Índia e boa parte da Europa, devem enfrentar combustível mais caro, pressão inflacionária e margens menores na agricultura.

Entre a promessa de uma rota livre em Ormuz e o temor de um impasse prolongado, o que sai hoje da sala de reuniões em Washington ajuda a definir não apenas o destino da guerra, mas também o preço da energia que move a economia mundial.

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