Moraes diz que ataques ao STF viram estratégia de campanha em 2026
O ministro Alexandre de Moraes afirma, em abril de 2026, que candidatos transformam ataques e ofensas ao Judiciário em estratégia central de campanha. Em vez de propostas, dominam as críticas ao STF.
Clima eleitoral e insatisfação com as instituições
O alerta de Moraes ocorre em um momento em que o país entra na reta de definição das chapas para as eleições municipais e começa a mirar 2026. Pesquisas recentes de opinião mostram, em diferentes institutos, um desgaste crescente da confiança nas instituições, com o Judiciário aparecendo em posição intermediária, atrás de Forças Armadas e imprensa em alguns levantamentos. Esse cenário alimenta candidatos que enxergam na insatisfação popular um atalho para ganhar visibilidade rápida.
O ministro descreve uma estratégia que se repete em palanques, entrevistas e redes sociais: reduzir o debate público a ataques ao Supremo, muitas vezes personalizados, em vez de discutir saúde, educação, emprego e segurança. “Virou método eleitoral ofender o Judiciário, xingar ministros e prometer vingança institucional, sem dizer uma linha sobre como vai governar”, afirma, segundo relato de interlocutores. A crítica mira não apenas figuras da extrema direita, que desde 2018 tensionam a relação com o STF, mas também candidatos de centro e direita que flertam com o discurso anti-institucional para não perder espaço.
Da contestação política ao ataque sistemático
Nos últimos oito anos, decisões do Supremo em temas como combate à desinformação, defesa do sistema eletrônico de votação e investigações sobre atos antidemocráticos colocam a Corte no centro da disputa política. Em 2022, a ofensiva contra o STF ganha forma em manifestações de rua, campanhas digitais e discursos que questionam a lisura das urnas eletrônicas, usadas há mais de 25 anos. Moraes, que preside o Tribunal Superior Eleitoral naquele período, se torna alvo preferencial de lideranças que falam para milhões de seguidores.
Esse embate não desaparece após o fim do ciclo eleitoral. Entra em 2024 e 2025 reconfigurado, agora como plataforma permanente para pré-candidatos que desejam se consolidar como “anti-Sistema”. A cada decisão sobre investigações, redes sociais ou punições por ataques à democracia, o Supremo volta ao noticiário e oferece novo combustível para narrativas de perseguição. “Quando alguém escolhe transformar o STF no inimigo número um, está dizendo ao eleitor: não preciso explicar plano de governo, basta prometer destruir quem me fiscaliza”, afirma um ministro próximo a Moraes.
A fala de abril de 2026 ecoa essa preocupação. Moraes destaca que a crítica a decisões judiciais é legítima em qualquer democracia, mas distingue o debate jurídico do ataque sistemático às instituições. A diferença, segundo ele, está no objetivo: contestar um entendimento específico ou desacreditar todo o sistema de Justiça. Na prática, o ministro enxerga uma escalada que mistura desinformação, teorias conspiratórias e promessas impossíveis, como “fechar o STF” ou “anular todas as decisões” da Corte.
Impacto na confiança pública e no jogo eleitoral
O efeito imediato dessa escalada é a corrosão da confiança da população nas regras do jogo democrático. Quando candidatos passam meses repetindo que o Supremo é um “obstáculo à vontade do povo”, ampliam o terreno para que derrotas eleitorais sejam contestadas sem provas, como se viu na contestação de resultados em 2022 e em episódios de janeiro de 2023. A insistência nesse discurso cria um eleitorado disposto a duvidar de qualquer decisão que frustre expectativas políticas.
Pesquisadores de ciência política apontam que esse tipo de estratégia funciona como um investimento de médio prazo. Ao longo de um ciclo de quatro anos, o candidato constrói identidade com uma base fiel, que vê o ataque às instituições como sinal de autenticidade. Essa base, muitas vezes concentrada em nichos de redes sociais, ajuda a impulsionar campanhas com poucos recursos financeiros. Ao mirar o STF, o político encontra um alvo visível, com decisões públicas e nomes conhecidos, capaz de condensar frustrações diversas, da economia à segurança pública.
O custo institucional, porém, é alto. O Judiciário depende de credibilidade para arbitrar conflitos, mediar crises entre Executivo e Legislativo e proteger direitos de minorias. Quando a confiança nesse papel cai abaixo de 50%, mostram levantamentos recentes, cresce o espaço para soluções de força, para propostas de ruptura constitucional e para a relativização de regras básicas, como o respeito ao resultado das urnas. Moraes adverte que “a normalização do ataque ao Judiciário abre caminho para a normalização do ataque à própria democracia”.
Reação política e disputa de narrativas
A manifestação pública do ministro pressiona partidos a se posicionar. Lideranças de legendas de centro tentam equilibrar críticas pontuais a decisões do STF com a defesa do regime democrático. Em conversas reservadas, dirigentes admitem que há medo de perder votos para candidaturas mais radicalizadas caso adotem discurso abertamente pró-Corte. Esse cálculo aparece em discursos que evitam citar Moraes nominalmente, mas reforçam a ideia de que “quem manda é o povo, não os tribunais”.
Parlamentares aliados de figuras que já foram alvo de inquéritos no Supremo reagem com dureza ao discurso de Moraes. Nas redes, acusam o ministro de interferir no debate eleitoral e tentam transformar a crítica em prova de “politização” da Corte. A disputa se espalha por comissões da Câmara e do Senado, onde projetos sobre liberdade de expressão, regulação de plataformas digitais e limites da Justiça Eleitoral ganham prioridade. Em discussões preliminares, alguns textos defendem restrições mais rígidas a decisões monocráticas e prazos máximos para julgamentos envolvendo agentes políticos.
O que pode mudar nas próximas eleições
O efeito concreto da intervenção de Moraes será testado nos próximos meses, à medida que campanhas se intensificam e a Justiça Eleitoral define regras detalhadas de propaganda. Juristas ouvidos reservadamente avaliam que o TSE pode adotar resoluções mais claras para enquadrar discursos que estimulem desobediência coletiva a decisões judiciais ou incentivem atos contra a integridade das eleições. O desafio é traçar uma linha nítida entre crítica dura, protegida pela liberdade de expressão, e campanha sistemática para sabotar a confiança na Justiça.
Nos bastidores, cresce a expectativa de audiências públicas no Congresso para discutir o tom das campanhas e a responsabilização de candidatos que mentirem sobre o funcionamento do STF e das urnas eletrônicas. A discussão deve atravessar 2026 e influenciar não apenas a disputa presidencial, mas também a relação futura entre os Poderes. A fala de Moraes deixa uma pergunta aberta: o eleitor vai premiar quem oferece propostas concretas para os próximos quatro anos ou quem insiste em transformar o Judiciário no principal adversário político do país?
