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Trump afirma que Irã está em colapso e pressiona por acordo nuclear

Donald Trump afirma que o Irã está em “estado de colapso” e pressiona Teerã a incluir o programa nuclear nas negociações de paz, nesta terça-feira (28), na Arábia Saudita. A declaração acontece enquanto líderes do Golfo tentam definir uma resposta comum a milhares de ataques iranianos com mísseis e drones desde 28 de fevereiro.

Reuniões no Golfo sob pressão militar e diplomática

Trump chega ao encontro com líderes do Golfo em meio a um conflito que já dura dois meses, paralisa corredores estratégicos e assusta investidores. A avaliação do presidente dos Estados Unidos é de que Teerã atravessa uma crise interna de poder e tenta ganhar tempo ao separar o debate nuclear da busca por um cessar-fogo.

Em publicação no Truth Social nesta terça-feira, Trump escreve que “o Irã acaba de nos informar que está em ‘Estado de Colapso’” e que o país quer a reabertura do estreito de Ormuz “o mais rápido possível”. Segundo o republicano, a liderança iraniana tenta resolver sua própria sucessão política, algo que ele diz acreditar que o regime “vai conseguir fazer”. O presidente, porém, não esclarece como recebeu essa mensagem de Teerã nem apresenta provas públicas dessa comunicação.

No centro das discussões está o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo e boa parte do gás exportado pelo Golfo. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, ataques iranianos com mísseis e drones contra países do Conselho de Cooperação do Golfo, aliados de Washington, elevam o risco de interrupção das rotas de energia e pressionam o preço do barril. Capitais como Riad, Abu Dabi e Doha mantêm radares e defesas aéreas em alerta desde então.

Uma autoridade do Golfo envolvida nas conversas afirma que o objetivo da reunião na Arábia Saudita é montar uma resposta conjunta aos ataques, que já se contam em milhares desde o fim de fevereiro. Depois de um cessar-fogo em 8 de abril, o ritmo das ofensivas diminui, mas não desaparece. Para esses governos, qualquer vacilo pode reabrir a temporada de bombardeios sobre infraestrutura crítica, como portos, oleodutos e usinas de energia.

Impasse nuclear reacende fantasma do acordo de 2015

O novo plano apresentado por Teerã propõe deixar o dossiê nuclear para depois. Primeiro, o Irã quer encerrar a guerra e negociar garantias sobre o transporte marítimo no Golfo. Só então trataria de limites ao enriquecimento de urânio e inspeções internacionais. A Casa Branca rejeita essa sequência.

Uma autoridade americana que acompanha as reuniões em Washington relata que “Trump quer que as questões nucleares sejam tratadas desde o início”. O presidente sustenta que Teerã não pode usar o conflito atual como escudo para avançar silenciosamente em seu programa atômico. A pressão ocorre oito anos após a assinatura do acordo nuclear de 2015, que reduziu o estoque de urânio enriquecido do Irã e ampliou o monitoramento externo. Esse pacto se desfaz quando Trump, em seu primeiro mandato, decide retirar os Estados Unidos do entendimento, em rompimento unilateral com europeus, Rússia e China.

Desde então, inspetores internacionais registram sucessivas violações iranianas em relação aos limites previstos naquela negociação. Teerã insiste que o programa segue voltado apenas para fins civis e energéticos. A desconfiança dos Estados Unidos e de aliados regionais, porém, cresce a cada novo dado divulgado pela Agência Internacional de Energia Atômica.

O impasse atual ocorre em um tabuleiro ainda mais complexo. Enquanto Trump radicaliza o discurso, o chanceler iraniano, Abbas Araqchi, passa o fim de semana em uma maratona diplomática. Ele entra e sai de Islamabad, no Paquistão, duas vezes em poucos dias, em conversas com o mediador regional. Antes disso, visita Omã, tradicional canal de diálogo discreto entre Teerã e Washington. Na segunda-feira, 27 de abril, voa a Moscou, onde se encontra com o presidente Vladimir Putin e recebe nova demonstração de apoio do aliado russo.

A contraofensiva diplomática não impede um revés importante. No fim de semana anterior, Trump cancela a viagem do enviado especial Steve Witkoff e de seu genro, Jared Kushner, ao Paquistão. A visita tinha o objetivo de destravar as conversas indiretas com o Irã. O gesto é lido em capitais do Golfo como sinal de endurecimento da Casa Branca e reduz a expectativa de um acordo rápido.

Mercados em alerta e riscos para a segurança global

O prolongamento da guerra já provoca estragos mensuráveis. Governos da região estimam milhares de mortos em dois meses de ofensivas e retaliações, em um conflito que atinge alvos militares e civis. A instabilidade fecha parcialmente rotas tradicionais de comércio que ligam Ásia, Europa e África e altera a geografia do transporte marítimo. Navios preferem trechos mais longos e caros para evitar o Golfo em dias de maior tensão.

A volatilidade no preço do petróleo se traduz em combustíveis mais caros, inflação pressionada e incerteza sobre investimentos em energia. Países importadores, como Brasil, Índia e nações da zona do euro, acompanham os movimentos em Riad e Teerã com atenção redobrada. Cada míssil lançado perto de um terminal de exportação ou de um oleoduto estratégico pode significar centavos a mais no litro da gasolina em grandes cidades do outro lado do mundo.

No plano político, a reunião na Arábia Saudita testa a coesão dos países do Golfo diante da ofensiva iraniana. Eles precisam equilibrar a dependência da proteção militar americana com o temor de se tornarem alvos diretos caso a guerra escale. Ao mesmo tempo, o apoio de Moscou a Teerã sinaliza uma reaproximação entre Rússia e Irã em plena disputa com o Ocidente por influência no Oriente Médio e no mercado de energia.

O cenário abre espaço para novos alinhamentos geopolíticos. Se as negociações fracassam, cresce o risco de que potências externas ampliem o envolvimento, direta ou indiretamente, no conflito. A possibilidade de ataques a infraestruturas energéticas sensíveis, como terminais de gás e refinarias, entra no cálculo de segurança de grandes economias e das principais empresas petrolíferas do planeta.

Próximos movimentos e uma negociação em aberto

Os próximos dias devem revelar se a pressão de Trump força o Irã a recolocar o tema nuclear na mesa ou se Teerã mantém a estratégia de fatiar a negociação. Conselheiros do presidente americano defendem, em privado, que qualquer recuo agora seria interpretado como sinal de fraqueza e encorajaria novos avanços iranianos na região.

No campo diplomático, chanceleres do Golfo avaliam novas rodadas de conversas com intermediários como Omã e Paquistão, enquanto acompanham os movimentos de Araqchi em Moscou. O equilíbrio entre manter canais de diálogo abertos e responder militarmente a futuros ataques deve definir o rumo da crise. A pergunta, no fim da reunião na Arábia Saudita, permanece sem resposta: quem cede primeiro em uma disputa que mistura segurança nuclear, controle de rotas estratégicas e sobrevivência política de governos em Teerã, Washington e nas monarquias do Golfo?

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