Lula chama guerra dos EUA contra o Irã de inconsequente e critica Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma nesta terça-feira (14) que a guerra dos Estados Unidos contra o Irã é “inconsequente” e ameaça a democracia global. Em entrevistas a veículos independentes, ele critica diretamente Donald Trump, manifesta solidariedade ao papa Leão XIV e defende que ninguém deve governar o mundo pela força.
Lula mira Trump, defende papa e cobra respeito à democracia
Lula fala a Brasil247, Revista Fórum e DCM em meio à escalada de tensão entre Washington e Teerã. A operação militar, iniciada sob liderança de Donald Trump, provoca alta imediata no preço do petróleo e reacende temores de recessão global. O presidente brasileiro enxerga nessa ofensiva mais cálculo político doméstico do que estratégia responsável de segurança internacional.
Para ele, Trump usa a guerra e a retórica agressiva como instrumento eleitoral. “Trump faz jogo de narrativas na tentativa de agradar à população e tentar passar a ideia de os Estados Unidos serem país onipotente, daquele povo superior”, afirma. Lula diz que admira os EUA como maior economia do planeta, mas associa essa posição à “capacidade de trabalho do povo norte-americano”, não ao “autoritarismo do presidente”.
As declarações vêm após uma troca pública de ataques entre Trump e o papa Leão XIV. No domingo (12), o republicano reage às críticas do pontífice às ações dos EUA no Irã e na Venezuela e afirma que o papa é “terrível em política externa” e cede à “esquerda radical”. O líder da Igreja Católica responde dizendo que não tem medo do presidente e reafirma sua mensagem de paz.
Lula toma partido. “Estive com ele [papa Leão XIV] e saí muito bem-impressionado. Quero ser solidário a ele, porque está correta a crítica que ele fez ao presidente Trump. Ninguém precisa ter medo de ninguém”, declara. O presidente enxerga o confronto público como sintoma de uma disputa maior sobre o papel das potências militares e das instituições multilaterais num cenário em que normas democráticas sofrem ataques sucessivos.
O petista insiste que Trump não precisa “ficar ameaçando o mundo” para manter a relevância dos Estados Unidos. “Isso não é pelo autoritarismo do presidente. Isso é pela conjuntura econômica, pela importância do país, pelo grau de universidade que eles têm”, diz. Na avaliação do Planalto, discursos que naturalizam ameaças nucleares e intervenções armadas corroem parâmetros básicos de convivência democrática entre nações.
Guerra pesa no bolso e testa relação Brasil-EUA
Lula usa o exemplo da guerra no Irã para ilustrar o efeito direto de decisões tomadas em Washington sobre a vida cotidiana no Brasil. As primeiras semanas do conflito já pressionam o barril de petróleo no mercado internacional e encarecem combustíveis no varejo brasileiro. Em economias dependentes de transporte rodoviário e diesel, aumentos superiores a 10% na bomba rapidamente se espalham por alimentos, fretes e passagens.
O presidente classifica a ofensiva como “inconsequente” justamente por esse impacto global. Ele diz que a guerra não resolve impasses diplomáticos históricos, amplia a insegurança em rotas estratégicas de energia no Golfo Pérsico e alimenta a especulação financeira. Ao mesmo tempo, ressalta que o Brasil mantém canais de cooperação com os EUA em áreas sensíveis, como o combate ao tráfico internacional de armas e drogas.
Nessa fronteira, Lula cita a prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), detido em Orlando, na Flórida, pelo serviço de imigração e alfândega dos Estados Unidos, o ICE. “O Ramagem acho que vai vir para cá”, diz o presidente, ao comentar o caso. “A direita aqui no Brasil está dizendo que ele foi preso por uma multazinha de trânsito, mas não. Ele foi preso, ele já estava condenado a 16 anos nesse país, ele foi um golpista que está condenado. Ele tem que voltar para o Brasil para cumprir a sua pena.”
Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, foge do Brasil em setembro do ano passado após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão. A Corte o considera culpado por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e abolição do Estado Democrático de Direito. Mesmo proibido de deixar o país, ele cruza a fronteira com a Guiana e segue para os Estados Unidos usando passaporte diplomático, que não estava apreendido.
A Polícia Federal informa que a prisão decorre de “cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades policiais dos EUA”. O nome de Ramagem aparece na lista de foragidos da Interpol, o que facilita sua localização e detenção. O caso mostra, na prática, que a retórica dura de Lula contra a política externa de Trump não impede ações coordenadas entre instituições brasileiras e norte-americanas em temas de segurança.
Diplomacia sob teste e disputa por narrativa global
As declarações do presidente criam um novo teste para a diplomacia brasileira. Ao chamar de “inconsequente” a guerra iniciada pelos EUA e questionar as ameaças de Trump, Lula se alinha a vozes que pedem cessar-fogo imediato e retomada de negociações multilaterais. A posição reforça o discurso histórico do Itamaraty em defesa da solução pacífica de conflitos, mas aumenta o atrito com setores de Washington que enxergam o uso da força como instrumento legítimo de pressão geopolítica.
No curto prazo, o governo brasileiro tenta separar a crítica ao governo Trump da relação estrutural com os Estados Unidos, maior parceiro comercial individual do país desde o início dos anos 2000. A cooperação em segurança, inteligência e comércio continua, enquanto o Planalto busca protagonismo em fóruns globais ao defender respeito à soberania, às instituições democráticas e ao direito internacional.
O apoio explícito de Lula ao papa Leão XIV amplia o alcance político da fala. Ao lado de uma liderança religiosa com projeção sobre 1,3 bilhão de católicos, o presidente brasileiro tenta se posicionar no campo que associa fé, direitos humanos e paz. O embate com Trump, por sua vez, ajuda a consolidar uma disputa de narrativa sobre que tipo de liderança deve prevalecer após mais um ciclo de guerra no Oriente Médio.
Os próximos meses indicam se a pressão diplomática de países como o Brasil terá efeito prático na redução da ofensiva contra o Irã ou se a lógica de confrontação seguirá comandando os movimentos da Casa Branca. No plano interno, o governo monitora o impacto da alta dos combustíveis sobre inflação, crescimento e popularidade. A combinação de guerra, disputa religiosa e caça a foragidos de tentativa de golpe mantém o tabuleiro internacional em ebulição e deixa em aberto até quando democracias emergentes conseguirão influenciar os rumos dessa crise.
