Trump reage a afastamento de Meloni após guerra contra o Irã
Donald Trump rompe o silêncio e critica publicamente, nesta semana, o afastamento político da premiê italiana Giorgia Meloni após o início da guerra contra o Irã em 2026. O ex-presidente americano diz estar “chocado” com a mudança de postura da antiga aliada. A reação expõe uma fissura inédita no eixo que aproximou parte da direita europeia do trumpismo nos últimos anos.
Da aliança estratégica ao choque público
Trump escolhe um comício na Costa Leste dos Estados Unidos e uma série de entrevistas a canais conservadores para tornar pública a irritação. Em discursos transmitidos ao vivo para milhões de espectadores, ele acusa Meloni de ceder à “pressão da burocracia europeia” desde que Washington lidera a ofensiva militar contra o Irã, iniciada em janeiro de 2026, após semanas de escalada no Golfo Pérsico.
“Giorgia era uma líder forte, uma verdadeira amiga. Agora parece mais interessada em agradar Bruxelas do que em defender a verdadeira liberdade”, afirma Trump, em uma das falas que repercutem imediatamente em Roma e em Bruxelas. A crítica contrasta com o tom caloroso de encontros anteriores, como a reunião de 2024, em Washington, quando ambos exibem alinhamento em temas como imigração e soberania nacional.
O distanciamento começa a se tornar visível poucos dias após os primeiros bombardeios americanos a instalações militares iranianas. Enquanto Trump defende a operação como “resposta necessária a anos de provocações de Teerã”, Meloni adota discurso mais cauteloso em Roma e em Bruxelas, pedindo “proporcionalidade” e “plano político claro” para o pós-guerra. A Itália é um dos países europeus mais expostos às consequências econômicas e migratórias de conflitos no Oriente Médio, o que pressiona o governo a calibrar cada palavra.
Diplomatas italianos relatam, sob reserva, que a virada de Meloni não se dá em um único gesto, mas em uma série de decisões. Em fevereiro de 2026, Roma reduz a presença simbólica em exercícios militares conjuntos no Mediterrâneo. Em março, o governo passa a defender, nas reuniões do Conselho da União Europeia, um cessar-fogo “com prazo definido” se as operações americanas não apresentarem resultados concretos. O movimento desagrada a parte da base mais alinhada a Trump, mas ajuda a blindar a Itália da crescente pressão de parceiros europeus contrários à ampliação do conflito.
Reconfiguração de alianças na Europa e impacto global
O rompimento pessoal entre Trump e Meloni ocorre em meio a uma Europa dividida sobre a guerra. Países como Polônia e Hungria mantêm apoio quase automático às posições de Washington. França e Alemanha endurecem o tom desde o início de 2026, depois de verem o preço do barril de petróleo superar US$ 110, alta de cerca de 40% em relação à média de 2024. A Itália, terceira maior economia da zona do euro, ocupa posição intermediária e tenta limitar o custo político interno.
Meloni passa a argumentar, em reuniões fechadas com aliados, que a prioridade é “proteger famílias e empresas italianas” de uma nova onda de inflação e de choques na cadeia de energia. Em 2022, a alta do gás ligada à guerra na Ucrânia já havia empurrado a inflação italiana para perto de 12% ao ano. A memória recente pesa. O gabinete econômico calcula que cada aumento de US$ 10 no barril de petróleo pode significar alta de até 0,4 ponto percentual na inflação anual italiana, o que ameaça qualquer plano de crescimento até 2027.
Trump enxerga essa mudança como traição política e a usa para reforçar sua narrativa de que aliados europeus “se beneficiam da proteção americana” enquanto criticam as ações militares dos Estados Unidos. Em suas declarações, ele acusa Meloni e outros líderes de “fraqueza” e diz que “a Europa só entende força”. A retórica agrava o mal-estar em capitais europeias que tentam manter canais abertos com Washington sem se comprometer integralmente com a estratégia de guerra.
Analistas em Roma e em Bruxelas veem na ruptura um marco simbólico. O eixo Trump-Meloni tinha peso na consolidação de uma direita nacionalista transatlântica, que se apresentava como alternativa às forças tradicionais da social-democracia e do conservadorismo moderado. O afastamento italiano, estimam diplomatas, abre espaço para que outras lideranças conservadoras europeias tentem se reposicionar e disputar a referência desse campo político.
Quem ganha, quem perde e o que vem a seguir
No curto prazo, o desgaste entre Trump e Meloni pode redesenhar mesas de negociação em temas sensíveis. Discussões sobre novas sanções ao Irã, acordos de defesa no Mediterrâneo e rotas de gás que cortam o sul da Europa passam a ser tratadas com mais cautela por Roma. A Itália busca equilibrar, de um lado, a parceria histórica com os Estados Unidos na Otan, e de outro, a pressão interna por distanciamento de um conflito visto como distante dos interesses diretos do país.
Setores italianos mais integrados ao mercado europeu, como indústria automotiva e turismo, tendem a ganhar maior voz nas decisões do governo, ao defender previsibilidade e estabilidade. Grupos ligados à indústria bélica e a segmentos mais ideológicos da direita, por sua vez, perdem acesso direto à agenda externa do Palácio Chigi. Em Washington, assessores de Trump avaliam que a crítica aberta a Meloni pode servir de recado a outros aliados considerados vacilantes, principalmente em capitais do Leste Europeu.
O episódio também influencia o cálculo de governos da União Europeia que ainda evitam se posicionar com clareza sobre a guerra contra o Irã. A percepção de que um alinhamento automático a Trump cobra preço alto em termos de autonomia política pode estimular movimentos de distanciamento gradual. Nesse cenário, cresce o espaço para iniciativas diplomáticas alternativas, inclusive sob liderança de países médios europeus, interessados em negociar cessar-fogos parciais ou corredores humanitários nos próximos meses.
A diplomacia italiana trabalha com um horizonte de 12 a 18 meses para avaliar o desfecho mais provável do conflito, levando em conta a capacidade militar iraniana, o humor do Congresso americano e o apetite europeu por sanções prolongadas. Até lá, Meloni tenta manter o equilíbrio entre a necessidade de responder às pressões internas e a intenção de preservar canais estratégicos com Washington, mesmo com o desgaste pessoal com Trump.
O choque público entre os dois líderes deixa uma pergunta central em aberto: até que ponto governos europeus estarão dispostos a arcar com o custo político de se afastar de Washington em meio a uma guerra no Oriente Médio? A resposta, construída nos próximos meses, tende a redefinir não apenas a relação entre Estados Unidos e Europa, mas também o próprio mapa das alianças internacionais até o fim desta década.
