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Incêndio destrói salão que guardava chama eterna em templo no Japão

Um incêndio destrói, nesta quinta-feira (21), o Salão Reikado do templo Daishoin, na província de Hiroshima, e atinge o espaço que abriga uma chama acesa desde o ano 806. Bombeiros e monges retiram o fogo sagrado às pressas e o transferem para um local seguro, evitando vítimas e a perda total de um dos símbolos espirituais mais antigos do Japão.

Templo em chamas e uma corrida para salvar o símbolo de 1.200 anos

As imagens que circulam na TV japonesa e nas redes sociais mostram o salão de madeira completamente tomado pelo fogo. Em poucos minutos, o telhado desaba e a estrutura some sob uma espessa coluna de fumaça alaranjada, visível a distância na ilha de Miyajima, um dos cartões-postais de Hiroshima.

O incêndio começa no fim da manhã, horário local, e se espalha com rapidez pelo Salão Reikado, construído em madeira e repleto de elementos inflamáveis usados em rituais. Autoridades de combate a incêndios informam que não há feridos e confirmam que a chama sagrada é retirada antes do colapso do prédio. “A prioridade é salvar vidas e resguardar o fogo que carrega séculos de fé”, afirma um responsável pelo corpo de bombeiros à imprensa japonesa, segundo relatos locais.

O salão destruído é famoso por abrigar uma chama considerada “inextinguível”, acesa originalmente por um monge budista no ano 806, de acordo com a associação de turismo de Miyajima. Acredita-se que o fogo se mantenha aceso de forma contínua há mais de 1.200 anos. De lá, parte da chama é usada para alimentar a chama eterna do Parque Memorial da Paz de Hiroshima, que homenageia as vítimas do bombardeio atômico de 6 de agosto de 1945.

O monge responsável pelo cuidado diário do fogo acompanha a operação de resgate do símbolo religioso. Em entrevista a emissoras locais, ele descreve a cena com voz embargada. “O salão se perde para as chamas, mas o espírito permanece. Enquanto esta chama viver, nossa oração continua”, diz. A identidade do religioso não é divulgada oficialmente.

Suspeita recai sobre a própria chama sagrada e expõe fragilidade estrutural

As primeiras informações dos bombeiros apontam para uma possível ironia trágica: o incêndio pode ter começado justamente a partir da chama que o templo tenta proteger há séculos. Investigadores ouvidos pela mídia japonesa explicam que o fogo ritual, mantido em queimadores especiais, pode ter entrado em contato com materiais inflamáveis próximos, em um espaço antigo, sem sistemas modernos de detecção ou contenção.

O Salão Reikado integra o complexo do templo Daishoin, um dos mais antigos da região, com forte ligação histórica com o budismo e com a memória de Hiroshima pós-guerra. A estrutura mistura madeira centenária, tetos baixos e salas cheias de velas, incensos e oferendas. Especialistas em patrimônio alertam há anos para o risco de incêndios em templos tradicionais do Japão, especialmente aqueles que mantêm rituais com fogo contínuo.

O caso expõe um dilema sensível para autoridades culturais e religiosas: como proteger símbolos que dependem do fogo sem transformar templos vivos em museus esterilizados. “A chama do Reikado não é um objeto de exposição. É um ritual em andamento há mais de mil anos”, comenta um pesquisador de religião japonesa ouvido pela imprensa local. A preservação da chama, apesar da destruição do prédio, evita uma ruptura espiritual considerada irreparável por devotos.

A perda material é significativa. A reconstrução de um salão desse porte, com técnicas tradicionais de carpintaria japonesa, pode levar anos e custar milhões de ienes. No curto prazo, a chama permanece em local provisório e sob vigilância reforçada, em instalação que não é revelada por motivos de segurança.

Patrimônio em risco, pressão por segurança e futuro da chama eterna

O incêndio em Daishoin reacende o debate sobre a segurança de templos históricos no Japão, país que enfrenta, ao mesmo tempo, envelhecimento de estruturas, aumento do fluxo turístico e eventos climáticos extremos mais frequentes. Em 2019, o incêndio que destrói parte do castelo de Shuri, em Okinawa, já havia levado o governo a prometer planos mais rígidos de proteção contra fogo em patrimônios culturais.

Organizações ligadas ao patrimônio e à religião avaliam que milhares de templos e santuários ainda dependem de instalações elétricas antigas, pouca ventilação e vigilância limitada à presença física de monges e voluntários. A combinação de madeira seca, rituais com fogo e estruturas seculares cria um cenário de risco permanente. A tragédia em Hiroshima funciona como um alerta a outros complexos religiosos no país e no exterior, que também mantêm chamas votivas e velas acesas continuamente.

A chama do Reikado tem um papel que ultrapassa o templo. O fogo alimenta a chama eterna do Parque Memorial da Paz de Hiroshima, acesa em 1964 para lembrar as vítimas da bomba atômica. A preservação do fogo original, mesmo após o incêndio, garante a continuidade simbólica desse elo entre a espiritualidade budista e a memória da destruição nuclear. Autoridades locais reforçam que a chama do parque segue acesa e que o abastecimento, por enquanto, não é afetado.

O Daishoin se prepara para uma fase de decisões difíceis. Monges e autoridades da província precisam escolher se mantêm o fogo sagrado em uma estrutura temporária mais moderna ou se investem na reconstrução fiel do salão, com os mesmos materiais e desenho original, mas tecnologia de proteção reforçada. O processo deve envolver órgãos nacionais de preservação, arquitetos especializados e doações de fiéis, no Japão e no exterior.

As próximas semanas devem trazer laudos preliminares sobre a causa do incêndio e um cronograma de recuperação do templo. Enquanto a comunidade local tenta entender a perda e organiza rituais em homenagem ao salão destruído, a imagem da chama salva em meio às ruínas se torna um novo símbolo de resistência. A questão que permanece é se o Japão conseguirá proteger seus templos vivos sem apagar, por excesso de cautela, o fogo que dá sentido à sua tradição.

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