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Vídeo de Ben-Gvir humilhando ativistas com brasileiros abre crise global

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, divulga nesta quarta-feira (20) vídeo em que dezenas de ativistas da Flotilha Global Sumud aparecem ajoelhados, algemados e vendados no porto de Ashdod. Entre eles, estão quatro brasileiros detidos após a interceptação da missão em águas internacionais na segunda (18). A gravação provoca reação em cascata de governos estrangeiros, da ONU e do próprio Itamaraty, que exige libertação imediata e classifica o tratamento como degradante.

Imagens de humilhação ampliam tensão diplomática

As imagens, filmadas durante visita de Ben-Gvir ao porto, mostram longas filas de detidos ajoelhados no chão, mãos presas por abraçadeiras plásticas, olhos cobertos por vendas brancas, enquanto o hino israelense ecoa em alto-falantes. Em um dos trechos, uma mulher se levanta e grita “Palestina livre” antes de ser empurrada ao chão por um agente mascarado. O ministro publica o vídeo em suas redes com a legenda: “É assim que recebemos apoiadores do terrorismo. Bem-vindos a Israel” e afirma, olhando para a câmera, que “somos os donos da casa”.

A exibição pública do conteúdo, raro até para os padrões de um conflito marcado por relatos constantes de abusos, funciona como gatilho para uma crise imediata. Itália, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Reino Unido e Irlanda convocam diplomatas israelenses para explicações formais. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chanceler Antonio Tajani classificam o vídeo como “inaceitável” e dizem que o tratamento “fere a dignidade da pessoa humana”. O chanceler espanhol, José Manuel Albares, fala em conduta “monstruosa, desumana e indigna” e cobra um pedido oficial de desculpas.

Em Paris, o ministro francês Jean-Noël Barrot considera o comportamento de Ben-Gvir “inadmissível” e chama o embaixador israelense. Mesmo em Washington, principal aliado de Israel, o embaixador Mike Huckabee reage e define os atos do ministro como “desprezíveis”. A pressão externa se soma à de organismos internacionais. A ONU e organizações de direitos humanos pedem investigação independente e responsabilização pelos abusos, citando possíveis violações da Convenção contra a Tortura, tratado que Israel ratifica em 1991.

O impacto alcança também o núcleo do governo israelense. O chanceler Gideon Sa’ar critica o colega em público e afirma que Ben-Gvir “causou intencionalmente danos ao Estado” com o que chama de “exibição vergonhosa”. Benjamin Netanyahu tenta conter o estrago e diz que o tratamento exibido “não está de acordo com os valores e normas de Israel”, mas defende a operação naval e acusa os organizadores da flotilha de agirem em favor do Hamas. A fratura revela disputa interna sobre limites da repressão e sobre a imagem do país no exterior.

Brasileiros detidos em operação considerada ilegal

No centro da crise estão os cerca de 430 ativistas da Flotilha Global Sumud, entre eles quatro brasileiros. O grupo é interceptado na segunda-feira (18) em águas internacionais, próximo a Chipre, enquanto navega em direção à Faixa de Gaza com o objetivo declarado de romper o bloqueio naval israelense e entregar ajuda humanitária. A missão reúne cerca de 50 embarcações e dezenas de nacionalidades. Todas são paradas antes de chegar à costa palestina.

O Itamaraty confirma que Ariadne Teles, advogada de direitos humanos e coordenadora da flotilha no Brasil, Beatriz Moreira, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens, Thainara Rogério, desenvolvedora de software e cidadã brasileira e espanhola, e o médico pediatra Cássio Pelegrini estão entre os detidos. As três mulheres são presas juntas; Pelegrini viaja em um dos últimos barcos interceptados, que se aproxima a menos de 100 milhas náuticas de Gaza, segundo a Agência Brasil.

Depois da abordagem, todos são levados ao porto de Ashdod e, mais tarde, ao centro de detenção de Ktzi’ot, no deserto de Negev. Familiares e colegas no Brasil relatam silêncio completo. As autoridades israelenses proíbem visitas consulares e contato com advogados desde a chegada. A Embaixada do Brasil em Tel Aviv afirma que só espera ter acesso aos presos a partir de quinta-feira (21), após pelo menos três dias de incomunicabilidade.

A posição oficial do governo brasileiro é dura. Em nota, o Itamaraty afirma “deplorar o tratamento degradante e humilhante dispensado por autoridades israelenses, em particular pelo Ministro da Segurança Interna de Israel, Itamar Ben Gvir, aos participantes da Flotilha Global Sumud” e reforça que a interceptação ocorre “em águas internacionais, em afronta ao direito internacional”. O texto cobra “pleno respeito” à dignidade dos detidos e menciona expressamente a Convenção contra a Tortura como parâmetro obrigatório.

Juristas e organizações como a ONG Adalah, que acompanha o caso em Israel, sustentam que a detenção é ilegal. A entidade argumenta que o país viola o direito internacional ao forçar os barcos a seguir para território israelense e manter os passageiros presos contra a vontade deles, sem comunicação com o exterior. Para o governo Netanyahu, as abordagens são “medidas de segurança” necessárias para impedir que materiais cheguem ao Hamas e ocorrem, segundo sua versão, em “águas sob jurisdição israelense”, conceito contestado pela maioria dos especialistas.

Bloqueio a Gaza volta ao centro do debate

A polêmica reacende o debate sobre o bloqueio imposto a Gaza e suas consequências. Desde 2007, Israel controla estradas, espaço aéreo e acesso marítimo ao território, com apoio intermitente do Egito. Organizações internacionais falam em punição coletiva à população civil. Dados da ONU citados pela Agência Brasil apontam mais de 4.400 civis palestinos mortos em Gaza, Rafah e Khan Yunis por ataques aéreos desde 2008 e mais de 165 mil feridos nesse período.

Os organizadores da flotilha dizem querer expor esse quadro de crise permanente. A GSF registra pelo menos 428 ativistas desaparecidos depois das interceptações, número que sobe a 430 em algumas listas oficiais, incluindo contagens israelenses. O caso dos brasileiros dá rosto concreto a estatísticas vistas com frequência à distância. Amigos de Teles, Moreira, Rogério e Pelegrini montam vigílias em cidades brasileiras e tentam pressionar o governo a adotar uma linha ainda mais dura com Israel.

Na prática, o vídeo de Ben-Gvir cria constrangimento adicional para aliados que, até aqui, defendem o direito de Israel à autodefesa, mas evitam endossar abusos explícitos contra civis e ativistas. Chancelarias europeias buscam equilíbrio delicado entre condenar as imagens e preservar canais de diálogo com Netanyahu. O desgaste é imediato também para as Forças Armadas israelenses, que tentam se distanciar da encenação promovida pelo ministro, mas têm sua atuação associada diretamente às cenas de humilhação.

Pressão por libertação e risco de isolamento

As próximas horas são decisivas para o desfecho da crise. Em Brasília, o Itamaraty insiste em acesso urgente aos quatro brasileiros e cobra de Israel prazo para a libertação. A nota oficial exige que “os cidadãos brasileiros sejam libertados imediatamente e possam regressar em segurança ao país”. No Congresso, parlamentares de diferentes partidos pedem que o governo leve o caso ao Conselho de Segurança da ONU e avalie medidas adicionais, como chamar de volta o embaixador em Tel Aviv.

Em Israel, organizações de direitos humanos planejam acionar tribunais locais e cortes internacionais. A ONG Adalah prepara pedidos de habeas corpus e denúncias por tortura e tratamento degradante. Especialistas em direito internacional lembram que a interceptação em alto-mar, sem autorização de um organismo multilateral, pode ser enquadrada como ato de pirataria de Estado. O governo Netanyahu rejeita essa leitura, mas se vê pressionado a explicar não só a operação, como a escolha de transformar a detenção em espetáculo político.

A libertação dos ativistas, incluindo os quatro brasileiros, tende a aliviar parte da tensão, mas não encerra a disputa maior sobre o bloqueio a Gaza. O episódio fortalece iniciativas de novas flotilhas e campanhas internacionais de boicote, que exploram o desgaste de imagem de Israel. A forma como Ben-Gvir decide agir a partir de agora, e até que ponto Netanyahu o conterá, indica se a crise atual será apenas mais um capítulo da guerra de narrativas ou o ponto de inflexão de um isolamento diplomático mais profundo.

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