Trump rejeita proposta do Irã e cogita seguir guerra sem acordo
Donald Trump rejeita a proposta mais recente do Irã para encerrar a guerra e admite, nesta sexta-feira (2), que talvez seja melhor não haver acordo. O presidente dos Estados Unidos volta a falar em bombardear o país persa “até o fim” e mantém aberta a possibilidade de uma nova escalada militar no Oriente Médio.
Presidente fala em “bombardear até o fim” e descarta concessões
Trump dá as declarações pouco antes de embarcar para a Flórida, em entrevista à CNN e a repórteres na Casa Branca. Visivelmente impaciente com o ritmo das negociações, ele afirma que a nova proposta enviada por Teerã para encerrar o conflito está longe de atender às exigências de Washington.
“Francamente, talvez seja melhor não fazer acordo nenhum. Quer saber a verdade? Porque não podemos deixar isso continuar”, diz o presidente, ao comentar o impasse com o regime iraniano. “Já está durando tempo demais.”
Questionado sobre quais caminhos considera aceitáveis, Trump reduz a crise a duas possibilidades. “Ir lá e simplesmente bombardear eles até o fim e acabar com isso de vez? Ou queremos tentar fazer um acordo?”, resume, antes de sugerir que a segunda opção pode já não ser a preferida da Casa Branca.
A fala ocorre pouco mais de dois meses após o início da guerra, em 28 de fevereiro, quando um ataque coordenado de Estados Unidos e Israel mata o líder supremo Ali Khamenei em Teerã. O bombardeio também elimina diversas autoridades do alto escalão iraniano e atinge dezenas de navios, sistemas de defesa aérea, aviões e outros alvos militares do país, segundo o Pentágono.
Desde então, Washington tenta conciliar pressão militar com canais diplomáticos indiretos, mediados por aliados na região. O recado desta sexta-feira, porém, indica uma Casa Branca menos disposta a concessões e mais aberta à ideia de prolongar a campanha militar se não houver uma rendição clara de Teerã.
Guerra se espalha pela região e aumenta custo humano
O conflito desencadeado pelo ataque de fevereiro redesenha o mapa de segurança do Oriente Médio em poucas semanas. Em retaliação à morte de Khamenei, o regime dos aiatolás lança mísseis e drones contra alvos em Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã.
Teerã insiste que mira apenas bases, navios, instalações e empresas ligados a interesses dos Estados Unidos e de Israel nesses países. Os ataques, porém, atingem áreas urbanas densas e provocam pânico em centros comerciais e em zonas residenciais. Mais de 1.900 civis morrem no Irã desde o início da guerra, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, organização com sede nos EUA que monitora abusos no país.
Do lado americano, a Casa Branca reconhece pelo menos 13 mortes de soldados em ações diretamente relacionadas aos ataques iranianos. Israel não divulga balanço completo de baixas, mas admite “perdas significativas” em operações na fronteira norte e em bombardeios de longo alcance.
A guerra também chega ao Líbano. O Hezbollah, grupo armado apoiado por Teerã, dispara foguetes e mísseis contra o território israelense em resposta à morte de Khamenei. Israel reage com ofensivas aéreas diárias contra o que chama de infraestrutura militar do Hezbollah. Mais de 2.500 pessoas morrem em território libanês desde o início das operações, segundo autoridades locais e agências humanitárias.
No Irã, a morte de praticamente toda a cúpula do regime leva à formação de um conselho de emergência, que escolhe Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, como novo líder supremo. A decisão é anunciada poucas semanas após o ataque, em meio a protestos dispersos e forte aparato de segurança nas principais cidades do país.
Analistas ouvidos por governos ocidentais avaliam que Mojtaba simboliza continuidade. Ele herda a estrutura que o pai construiu ao longo de mais de três décadas e não sinaliza reformas internas profundas. A mudança de nome, na prática, não altera a postura externa do regime, que segue apostando em ataques assimétricos e no apoio a milícias aliadas na região.
Trump reage mal à escolha. Em declarações anteriores, o presidente classifica a sucessão como um “grande erro” e diz que Mojtaba é “inaceitável” para a liderança do Irã. O republicano chega a afirmar que precisaria “estar envolvido” no processo de escolha, em uma demonstração de que vê a composição do topo do regime como parte direta da negociação.
Pressão interna, risco de escalada e incerteza nas negociações
A recusa pública à proposta iraniana complica o trabalho de diplomatas americanos e europeus que tentam conter a escalada desde março. Cada declaração de Trump reduz a margem de manobra para concessões discretas, num momento em que o número de mortos aumenta e aliados cobram uma saída negociada.
Dentro dos Estados Unidos, o presidente enfrenta pressões divergentes. Setores do Congresso pedem resposta mais dura e falam em “destruir a capacidade militar iraniana” nos próximos meses. Outros alertam para o risco de arrastar o país para uma guerra longa em ano eleitoral, com impacto direto sobre o preço do petróleo, os mercados e a presença militar americana no Golfo.
Países árabes que abrigam bases e empresas americanas calculam custos políticos crescentes. Governos como os de Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita tentam equilibrar cooperação estratégica com Washington e descontentamento interno com a proximidade da guerra. Cada novo ataque iraniano em seus territórios pressiona por mais defesas e, ao mesmo tempo, aumenta o temor de se tornarem alvos permanentes.
No campo humanitário, agências da ONU e organizações independentes alertam para o risco de colapso em partes do Irã e do Líbano se os ataques a infraestrutura crítica continuarem pelas próximas semanas. Hospitais relatam falta de leitos e insumos básicos, enquanto deslocamentos internos já passam de centenas de milhares de pessoas, segundo estimativas preliminares.
Trump insiste que não pretende “deixar o problema reaparecer” ao encerrar a operação antes de enfraquecer de forma duradoura o regime iraniano. A frase, repetida em encontros com doadores e em comícios, indica que a Casa Branca mede cada proposta não apenas pelo cessar-fogo imediato, mas pela capacidade de impedir nova onda de ataques contra interesses americanos e israelenses.
As próximas semanas devem testar esse limite. Se Teerã insistir em manter condições que Washington considera inaceitáveis, a tendência é de prolongamento da guerra e de novas ofensivas aéreas. Caso o custo político e econômico cresça demais, aumenta a pressão por um acordo que salve a face de ambos os lados, mas a fala desta sexta-feira deixa claro que o presidente americano ainda não enxerga essa saída no horizonte.
