Trump impõe sanções a Díaz-Canel e família Castro por repressão em Cuba
O governo Donald Trump anuncia nesta quinta-feira (4), em Washington, novas sanções econômicas contra o presidente cubano Miguel Díaz-Canel e membros da família Castro. As medidas miram diretamente o núcleo do poder em Havana, em resposta à repressão violenta aos protestos de 2021 na ilha.
Casa Branca endurece linha contra Havana
O anúncio marca um novo capítulo na disputa histórica entre Estados Unidos e Cuba. Ao colocar Díaz-Canel e integrantes do clã Castro no centro do pacote, a Casa Branca sinaliza que pretende pressionar pessoalmente quem ocupa e quem moldou o poder na ilha nas últimas seis décadas.
As sanções entram em vigor imediatamente e restringem o acesso dos alvos ao sistema financeiro americano, além de proibir transações com empresas e indivíduos sob jurisdição dos EUA. Assessores falam em congelamento de bens, bloqueio de contas e restrições de vistos, embora não divulguem valores. Um funcionário do governo, sob condição de anonimato, resume o objetivo: “Estamos cortando as últimas válvulas por onde o regime ainda respira em dólar”.
O movimento ocorre quase cinco anos depois das maiores manifestações em décadas em Cuba, em julho de 2021, quando milhares foram às ruas em ao menos 40 cidades para protestar contra a falta de alimentos, cortes de energia e a condução da pandemia de Covid-19. Organizações de direitos humanos estimam centenas de presos políticos desde então e apontam relatos de julgamentos sumários, penas de até 25 anos de prisão e uso sistemático de violência policial.
Trump volta a usar o caso como vitrine de sua política externa. Em discurso preparado para o anúncio, assessores antecipam que ele deve acusar Havana de “trair o próprio povo” e prometer que “cada general e cada dirigente responsável pelos abusos vai pagar um preço”. A Casa Branca cita relatórios da ONU e de entidades como Human Rights Watch e Anistia Internacional para justificar o endurecimento.
Impacto econômico e isolamento diplomático
A ofensiva ocorre em um momento em que Cuba enfrenta uma das piores crises econômicas desde o colapso soviético, no início dos anos 1990. A inflação anual supera 40%, segundo estimativas independentes, e o país convive com apagões diários que chegam a 12 horas em algumas províncias. O turismo, que representava cerca de 10% do PIB antes da pandemia, ainda não se recupera totalmente.
Ao mirar a cúpula do regime, Washington tenta dificultar o acesso de Havana a linhas de crédito, bancos intermediários e investidores estrangeiros. Financiadores europeus e canadenses, que tradicionalmente atuam na ilha, tendem a rever contratos por medo de punições secundárias dos EUA. Um diplomata latino-americano em Washington afirma que “qualquer banco que precise do mercado americano pensa duas vezes antes de assinar um cheque para Havana”.
A medida também tem potencial para acentuar o isolamento internacional de Cuba. Governos críticos ao regime, como os da União Europeia e de alguns países latino-americanos, devem usar o gesto americano para reforçar cobranças por libertação de presos políticos e abertura a observadores internacionais. Ao mesmo tempo, aliados de Havana, como Venezuela, Nicarágua e Rússia, devem explorar o episódio para denunciar o que chamam de “guerra econômica” dos EUA.
Na prática, o peso imediato recai sobre setores ligados à elite governante, como conglomerados militares que controlam hotéis, portos e zonas de comércio exterior. Empresas estatais conectadas à família Castro operam boa parte das joint ventures com capital estrangeiro. Um pesquisador cubano, que vive no exílio, avalia que o efeito pode ser duplo: “O governo perde canais de financiamento, mas tende a repassar o custo para a população com mais cortes e racionamento”.
Reações em Havana e o que vem pela frente
O governo Díaz-Canel promete reagir politicamente. Em comunicados anteriores a medidas semelhantes, Havana chama sanções de “ilegais” e “ato de agressão”, acusa Washington de interferência interna e se diz vítima de um bloqueio de mais de 60 anos. Fontes próximas ao Itamaraty avaliam que Cuba deve buscar apoio em fóruns como a ONU e a Celac para aprovar resoluções contra o endurecimento americano.
A novidade agora está na personalização do alvo. A inclusão de Díaz-Canel e de membros da família Castro em listas de sanções amplia o risco para qualquer país ou empresa que mantenha relações diretas com o círculo mais próximo do poder em Havana. Especialistas lembram que, em 2014, quando Barack Obama iniciou o processo de reaproximação com Cuba, parte da estratégia passava justamente por estimular intercâmbios econômicos e flexibilizar viagens. Trump inverte esse caminho e aposta na pressão máxima.
No curto prazo, a decisão tende a alimentar o discurso interno de resistência ao “inimigo externo”, ao mesmo tempo em que amplia o mal-estar social causado pela crise. A repressão de 2021 deixa feridas abertas em bairros populares, e redes de oposição articuladas na diáspora acompanham de perto cada novo protesto, por menor que seja. A combinação de escassez, sanções e desconfiança nas instituições aumenta o risco de novos focos de mobilização.
Diplomatas em Washington e em capitais latino-americanas avaliam que o episódio pode reconfigurar debates regionais sobre democracia e direitos humanos. Países que tentam manter distância da disputa, como México e Brasil, serão pressionados a se posicionar diante da escalada. A pergunta que ecoa nos bastidores é se a nova rodada de sanções aproxima Cuba de uma abertura política ou apenas aprofunda um impasse de mais de meio século.
