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Trump diz que Irã prepara oferta para atender a exigências dos EUA

Donald Trump afirma que o Irã prepara uma oferta para atender às exigências de Washington e destravar negociações de paz, em meio a sinais cautelosos de avanço diplomático. O presidente americano evita detalhar a proposta e mantém sob sigilo os principais interlocutores em Teerã.

Oferta em preparação e diplomacia em movimento

Trump volta a colocar o dossiê iraniano no centro da agenda internacional ao admitir, em entrevista recente por telefone à Reuters, que Teerã elabora uma proposta para responder às demandas dos Estados Unidos. Sem dar números nem condições específicas, ele resume o momento a uma aposta no desconhecido. “Eles estão fazendo uma oferta e teremos que ver o que acontece”, afirma, reconhecendo que ainda não sabe os termos colocados pelo outro lado.

A movimentação ocorre em um cenário de tensão permanente no Oriente Médio e de preocupação com o programa nuclear iraniano, monitorado há mais de duas décadas por potências ocidentais. Nas últimas semanas, autoridades americanas falam em “algum progresso” por parte do Irã, enquanto Israel endurece o discurso e promete atacar “qualquer ameaça” que enxergue a partir do Líbano. Os sinais se cruzam em um momento em que qualquer gesto de aproximação entre Washington e Teerã tem potencial para alterar cálculos militares, econômicos e políticos na região.

Enviados de Trump se preparam para encontro em Islamabad

Para tentar transformar declarações em avanços concretos, Trump escala dois aliados próximos para a linha de frente das conversas. Steve Witkoff e Jared Kushner, enviados especiais da Casa Branca, têm embarque marcado para a manhã deste sábado, dia 25, rumo a Islamabad, capital do Paquistão. A missão, confirmada nesta sexta-feira pela secretária de Imprensa Karoline Leavitt, prevê reuniões com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, e outros negociadores iranianos.

Araquchi é figura conhecida nas mesas de negociação. Veterano das conversas nucleares de 2013 a 2015, ele integra o núcleo duro da diplomacia iraniana e transita entre diferentes correntes de poder em Teerã. A Reuters já havia antecipado sua presença em Islamabad, também nesta sexta, para discutir propostas para a retomada das conversas com os Estados Unidos. A escolha de um terreno neutro, fora do Golfo Pérsico e distante de Washington, reduz o peso simbólico do encontro e facilita a participação de interlocutores que evitam exposição interna.

Liderança incerta em Teerã complica o tabuleiro

Trump admite que a maior barreira, neste momento, não é apenas o conteúdo da oferta, mas a clareza sobre quem decide em Teerã. Questionado sobre com quem os Estados Unidos negociam, ele recusa nomes. “Não quero dizer isso, mas estamos lidando com as pessoas que estão no comando agora”, afirma. Um dia antes, no Salão Oval, o presidente expõe abertamente a dúvida que paira sobre a capital iraniana. “Eles estão atrasando porque eles — nós não sabemos com quem negociar”, diz. “Eles sabem quem é o líder neste país. Nós não sabemos quem é o líder no Irã.”

O comentário joga luz sobre uma ambiguidade que há anos intriga diplomatas. A estrutura de poder iraniana combina presidente, Parlamento, corpo diplomático e, acima de todos, o líder supremo, além de forças militares e religiosas com autonomia própria. Para Washington, identificar o núcleo que realmente pode selar um acordo é condição básica para qualquer avanço. Sem isso, concessões correm o risco de travar em disputas internas, como já ocorreu em rodadas anteriores, entre 2018 e 2020, quando sanções americanas voltam a atingir o petróleo iraniano e reduzir exportações em dezenas de bilhões de dólares por ano.

O que está em jogo para a segurança global

A perspectiva de uma nova oferta iraniana é recebida com cautela, mas também com expectativa por chancelerias europeias e governos do Oriente Médio. Um entendimento mínimo entre Washington e Teerã pode reduzir o risco de conflito aberto em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Qualquer descompressão nessa área tende a aliviar pressões sobre preços de energia, inflação global e cadeias de abastecimento que ainda se reequilibram após choques recentes.

Nos bastidores, diplomatas avaliam que uma retomada das conversas sobre o programa nuclear em um prazo de meses, e não anos, seria vista como vitória para governos europeus e para o próprio Paquistão, que se oferece como mediador discreto. Para o Irã, um acordo que alivie sanções poderia destravar bilhões de dólares em receitas de exportação e aliviar a pressão sobre uma economia que convive com inflação alta e moeda fraca. Para Trump, um avanço nas conversas reforça a imagem de negociador duro, mas capaz de produzir resultados em um dos dossiês mais sensíveis da política externa americana.

Resistências internas e cálculo político

O caminho até qualquer texto assinado continua cheio de obstáculos. Em Teerã, setores mais conservadores veem com desconfiança concessões ao Ocidente e usam o desgaste do acordo nuclear de 2015 como argumento para resistir a novos compromissos. Em Washington, parlamentares e aliados próximos de Israel pressionam por linhas vermelhas rígidas, que incluam limites verificáveis ao enriquecimento de urânio, inspeções frequentes e prazos claros para responder a eventuais violações.

Analistas lembram que todo gesto na mesa de negociação se articula com o calendário político em Washington e em Teerã. Uma oferta considerada fraca pode ser descartada em semanas. Uma proposta robusta, que aborde tanto o tema nuclear quanto o apoio iraniano a grupos armados na região, exigirá meses de trabalho técnico, revisões jurídicas e negociações paralelas com aliados. Cada concessão terá custo doméstico mensurável, seja em votos no Congresso americano, seja em apoio no Parlamento iraniano.

Próximos passos e incertezas

Os encontros previstos em Islamabad funcionam como primeiro teste da disposição real de cada lado em sair do impasse. Se os enviados de Trump e Araqchi conseguirem ao menos estabelecer um roteiro de discussões, com prazos e temas definidos, a diplomacia ganha um norte mais claro. A partir daí, países europeus e organismos internacionais podem voltar à mesa, oferecendo garantias adicionais e mecanismos de verificação.

Trump insiste em manter o controle da narrativa e evita antecipar detalhes. A estratégia aumenta a pressão sobre o Irã, mas também amplia o campo de incertezas para aliados e mercados. Até que a oferta chegue oficialmente a Washington, uma pergunta segue em aberto: o que Teerã está realmente disposto a ceder para, pela primeira vez em anos, reduzir a temperatura de um dos conflitos mais persistentes da política internacional?

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