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PF vê ordem de Vorcaro para ameaçar funcionária de Monique

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro manda ameaçar uma funcionária ligada à atriz Monique Alfradique em fevereiro de 2025. O pedido é feito a um integrante de um grupo acusado de monitorar e intimidar desafetos do empresário.

Relatório descreve ordem para “moer” funcionária

O caso vem à tona em relatório preliminar tornado público em 16 de junho de 2025 pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. O documento reúne trechos de conversas extraídas do celular de Vorcaro, investigado no chamado caso Master, que mira um suposto esquema de uso ilegal de informações sigilosas e intimidações contra terceiros.

Em uma troca de mensagens com Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, Vorcaro encaminha o nome e o telefone de uma funcionária de confiança de Monique Alfradique. Na sequência, escreve: “Empregada monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”. O diálogo, segundo a PF, ocorre em fevereiro de 2025, em meio ao avanço das investigações sobre o grupo ligado ao ex-banqueiro.

Mourão responde com um arquivo contendo dados pessoais e uma fotografia da mulher. O relatório não informa se, após esse envio, alguma ação concreta de ameaça ou violência acontece. Também não detalha qual seria a suposta ameaça feita pela funcionária contra Vorcaro, ponto que permanece em aberto na investigação.

A atriz, hoje com forte presença em novelas e produções de streaming, é citada apenas como referência profissional da funcionária. Até a noite de terça-feira, 17 de junho, Monique Alfradique não se manifesta publicamente sobre o conteúdo das mensagens. A Polícia Federal evita dar detalhes adicionais, sob argumento de sigilo das diligências em curso.

Rede de intimidação amplia alcance do caso Master

Os diálogos envolvendo a funcionária de Monique não aparecem isolados. O mesmo relatório da PF registra outros momentos em que Vorcaro aciona Mourão e cobra medidas de intimidação e até violência contra terceiros. Entre os alvos citados pelos investigadores estão um chef de cozinha e o capitão de uma embarcação ligada ao ex-banqueiro, o que indica que a prática se estende a diferentes círculos pessoais e profissionais.

Os investigadores afirmam que Mourão integra um grupo apelidado de “A Turma”, descrito como uma espécie de braço operativo de segurança e pressão extrajudicial. Esse núcleo seria responsável por obter ilegalmente dados protegidos por sigilo, monitorar rotinas e produzir dossiês sobre pessoas vistas como ameaça aos interesses de Vorcaro e de seus associados. Nas palavras do relatório, Mourão cuida da “obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”.

A atuação de “A Turma” se soma a outras frentes já apontadas no caso Master, que envolve suspeitas de crimes financeiros, corrupção privada e uso de estruturas de poder para blindar o patrimônio de Vorcaro. O conteúdo das conversas reforça, para a PF, a tese de que a organização não se limita a manobras contábeis ou societárias, mas também recorre a métodos de intimidação pessoais, com potencial de afetar a integridade física de desafetos.

A menção a uma funcionária ligada ao meio artístico aumenta a visibilidade pública do caso. A indústria do entretenimento, que já convive com episódios de perseguição em redes sociais, se vê agora diante da possibilidade de ações coordenadas fora do ambiente virtual, com uso de estruturas clandestinas para coleta de dados e vigilância. Advogados que acompanham a investigação avaliam, sob reserva, que o episódio pode inaugurar uma linha de apuração específica sobre tentativas de pressão em disputas contratuais e patrimoniais envolvendo figuras conhecidas.

Direitos em risco e próximos passos da investigação

O caso expõe brechas na proteção de dados pessoais e no sistema de responsabilização por ameaças. As mensagens mostram a facilidade com que integrantes de “A Turma” acessam, em poucas horas, fotografias e cadastros detalhados de alvos sem qualquer ordem judicial. A prática afronta a Lei Geral de Proteção de Dados, em vigor desde 2020, e levanta dúvidas sobre a participação de servidores públicos ou funcionários de empresas privadas na liberação irregular dessas informações.

Especialistas em segurança consultados pela reportagem veem risco de naturalização desse tipo de conduta em disputas empresariais e pessoais. Quando um empresário com acesso a grandes recursos trata uma pessoa como alguém que pode ser “moída”, o recado atinge não só aquela funcionária, mas qualquer um que se oponha aos interesses do grupo. Na prática, a intimidação tende a silenciar testemunhas, inibir denúncias e distorcer a própria noção de justiça.

A Polícia Federal promete ampliar o rastreio de mensagens, ligações e movimentações financeiras de integrantes de “A Turma” ao longo dos próximos meses. A expectativa de investigadores é identificar quem fornece os dados sigilosos e mapear outros possíveis alvos de ameaça, inclusive fora do círculo direto de Vorcaro. Dependendo do avanço das diligências, o Ministério Público Federal pode propor novas denúncias criminais, com base em crimes de ameaça, associação criminosa, violação de sigilo e eventual organização criminosa.

Até o fechamento desta reportagem, as defesas de Daniel Vorcaro e de Luiz Phillipi Mourão não respondem aos pedidos de posicionamento. A assessoria de Monique Alfradique também não retorna os contatos. As lacunas de informação mantêm em aberto uma pergunta central: quantas pessoas já foram monitoradas, ameaçadas ou constrangidas sem saber que apareciam nas conversas de um grupo dedicado a “neutralizar” quem atravessa o caminho de seus financiadores?

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