Trump critica negociações com Irã e amplia impasse sobre guerra e lei nos EUA
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta sexta-feira (1º) que está insatisfeito com o rumo das negociações com o Irã, em meio a um frágil cessar-fogo e a uma disputa jurídica em Washington sobre os limites legais para o uso das Forças Armadas.
Cessar-fogo sob pressão e governo iraniano enfraquecido
Trump fala no gramado da Casa Branca após novas conversas indiretas com Teerã, mediadas por intermediários no Paquistão. Ele diz que recebeu uma proposta iraniana, mas evita detalhar o conteúdo e, sobretudo, sinaliza ceticismo. “Acabamos de ter uma conversa com o Irã. Vamos ver o que acontece. Mas eu diria que não estou feliz”, afirma.
O presidente se queixa da dificuldade em fechar um acordo de longo prazo e atribui parte do impasse à atual fragilidade do regime iraniano. Segundo ele, o governo de Teerã está “muito confuso” desde a morte de vários dos principais oficiais militares na guerra iniciada em fevereiro, o que desorganiza a cadeia de comando e dificulta decisões estratégicas.
A agência estatal iraniana IRNA informa que o país encaminha uma proposta de novas negociações a emissários no Paquistão. Os iranianos não divulgam detalhes, e não está claro se o documento chega formalmente a Washington. O gesto, porém, é suficiente para mexer imediatamente no mercado de energia.
Os preços do petróleo, em alta desde que o Irã fecha o Estreito de Ormuz, caem após a notícia da mais recente oferta de Teerã. O principal canal de navegação de petróleo do mundo segue praticamente bloqueado, e a redução de preços reflete mais a expectativa de descompressão do que uma mudança concreta na rota dos navios. A interrupção no estreito já provoca alta de custos logísticos, pressiona inflação em vários países e alimenta temores de desaceleração global.
Em paralelo às mensagens públicas, Trump conta que recebe na quinta-feira um cardápio amplo de opções militares do Comando Central dos EUA. Segundo ele, as propostas vão de “bombardeá-los intensamente e acabar com eles para sempre” a “fechar um acordo”. A frase explicita o arco de pressão com que a Casa Branca tenta conduzir o Irã à mesa de negociações, mantendo aberta, ao mesmo tempo, a possibilidade de escalada.
Disputa sobre poderes de guerra e custo político interno
Os sinais contraditórios de Washington ocorrem no limite de um relógio jurídico sensível. Em 2 de março, há 60 dias, Trump notifica formalmente o Congresso sobre os ataques ao Irã. A Resolução dos Poderes de Guerra, aprovada em 1973 para conter a atuação de Richard Nixon no Vietnã, determina que o presidente encerre qualquer uso das Forças Armadas em combate em até 60 dias, salvo se o Legislativo autorizar a guerra ou aprovar uma prorrogação de até 30 dias apenas para retirar tropas.
O governo Trump sustenta que o prazo está suspenso porque, na avaliação do Executivo, as hostilidades já terminaram. Um funcionário de alto escalão afirma que, para fins da lei, o conflito que começa em 28 de fevereiro chega ao fim. Ele destaca um cessar-fogo inicial de duas semanas, depois prorrogado, e diz que não há troca de tiros entre EUA e Irã desde 7 de abril.
O argumento enfrenta resistência no Congresso e entre especialistas em direito de guerra. A professora Heather Brandon-Smith, da Faculdade de Direito da Universidade Georgetown, considera insustentável a versão da Casa Branca. “A afirmação do secretário de que as hostilidades terminaram não corresponde às evidências”, diz. “Os EUA instituíram um bloqueio aos portos iranianos. Isso é um ato de guerra. Isso é hostilidade.”
Ela lembra que a própria Resolução dos Poderes de Guerra não define o termo “hostilidades” de forma estreita justamente para abarcar uma gama ampla de ações militares. Pela leitura de Brandon-Smith, o bloqueio dos portos iranianos “é claramente um ato de hostilidade”, suficiente para manter o relógio de 60 dias correndo. Mesmo a existência de um cessar-fogo formal, avalia, não interrompe o prazo, porque “um cessar-fogo não é um fim permanente do conflito”.
A análise é reforçada por Elisa Ewers, especialista em segurança nacional e política externa no Council on Foreign Relations. Para ela, o fato de militares dos EUA seguirem mobilizados e expostos no Golfo Pérsico basta para caracterizar a continuidade das hostilidades. “A implementação do bloqueio dos EUA não está isenta de riscos e, por si só, constitui hostilidades”, afirma. “Dada a fragilidade do cessar-fogo e as próprias mensagens do presidente Trump sobre retomar ataques contra o Irã, há o risco de que precisem usar força, e eles estiveram e continuam em hostilidades.”
No Capitólio, o embate ganha contornos partidários. Em audiência no Senado na quinta-feira, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, insiste que a interrupção dos combates congela o prazo legal. “Estamos em um cessar-fogo neste momento, o que, em nosso entendimento, significa que o prazo de 60 dias é pausado ou interrompido”, diz. O senador democrata Tim Kaine reage de imediato. “Não acredito que a lei sustente isso. Acho que os 60 dias se encerram talvez amanhã, e isso vai colocar uma questão legal realmente importante para o governo.”
Trump adota tom de confronto com a legislação. Ele afirma que a Resolução dos Poderes de Guerra “nunca foi cumprida” e diz que “todos os outros presidentes a consideraram totalmente inconstitucional”. O presidente ressalta que “muitos” antecessores ultrapassam o limite de 60 dias, em uma tentativa de normalizar a própria postura. A Casa Branca, segundo a rede CBS News, já conversa com aliados no Congresso em busca de uma autorização formal para a guerra, que blindaria juridicamente a campanha militar.
O custo da operação reforça o debate interno. Em audiência na Câmara, um assessor de Hegseth revela que as ações no Irã já somam cerca de US$ 25 bilhões em gastos. Republicanos no comitê defendem o Pentágono. O deputado Carlos Gimenez, da Flórida, classifica o Irã como “ameaça existencial” aos EUA. “Quando alguém me diz por 47 anos que quer nos matar, acho que vou levar isso ao pé da letra”, afirma. “Apoio nossos esforços para garantir que o Irã nunca tenha uma arma nuclear.”
Impacto regional, preço do petróleo e próximos passos
O conflito atual nasce de ataques de grande escala lançados por EUA e Israel contra o Irã, que matam o líder supremo do país e destroem parte da infraestrutura militar iraniana. Teerã responde com mísseis contra Israel e Estados aliados dos EUA no Golfo Pérsico, ampliando o risco de uma guerra regional aberta em uma área que concentra parte decisiva da produção mundial de petróleo.
O Estreito de Ormuz, por onde costumam passar milhões de barris por dia, permanece praticamente fechado, o que pressiona cadeias de suprimentos da Ásia à Europa e alimenta volatilidade nas bolsas. A queda recente das cotações do petróleo, após o anúncio da proposta iraniana via Paquistão, mostra a sensibilidade imediata do mercado a qualquer sinal de trégua. Empresas aéreas, transportadoras e indústrias intensivas em energia acompanham cada movimento de Washington e Teerã para recalcular custos e investimentos.
Estados do Golfo veem o impasse com preocupação dupla. De um lado, se beneficiam de preços mais altos no curto prazo. De outro, temem que um erro de cálculo militar atinja diretamente sua infraestrutura, como ocorreu em conflitos anteriores na região. Israel, que há anos lidera, ao lado dos EUA, a oposição ao programa nuclear iraniano, mantém alerta máximo e reforça a pressão por garantias de que Teerã não chegará à bomba atômica, algo que o próprio Irã nega reiteradamente.
Dentro dos EUA, democratas no Congresso tentam aprovar resoluções para limitar a atuação de Trump, sem sucesso até agora. A maioria republicana barra as iniciativas, embora alguns parlamentares sinalizem que podem rever a posição caso o prazo dos 60 dias seja, de fato, ultrapassado sem cobertura legal clara. A disputa abre espaço para uma questão central: quem decide, na prática, quando uma guerra começa e quando termina?
O impasse jurídico sobre a definição de “hostilidades” tende a se aprofundar se o cessar-fogo atual se romper ou se o bloqueio naval prosseguir por tempo indeterminado. Mesmo que a Casa Branca obtenha autorização formal do Congresso, o custo político de uma guerra prolongada, somado ao impacto econômico global do fechamento de Ormuz, deve pesar sobre qualquer decisão de ampliar os combates.
A insatisfação de Trump com as negociações, somada à pressão interna para definir os limites de seu poder de guerra, coloca Washington em uma encruzilhada. A próxima rodada de movimentos no Golfo — seja uma reabertura parcial do estreito, seja um novo ataque — deve indicar se prevalece a lógica do acordo ou a da confrontação. Enquanto isso, mercados, governos e populações da região observam se as conversas mediadas a distância serão suficientes para transformar um cessar-fogo frágil em algum tipo de paz duradoura.
