EUA retiram 5 mil soldados da Alemanha e pressionam Europa por defesa própria
O Pentágono anuncia nesta sexta-feira (1º) que os Estados Unidos vão retirar 5.000 soldados da Alemanha em até um ano, reduzindo a maior presença militar americana na Europa desde a Segunda Guerra. A decisão, apoiada pelo presidente Donald Trump, expõe o desgaste com Berlim e reabre o debate sobre a capacidade da Europa de garantir a própria segurança.
Retirada acelera ruptura e expõe fissuras na aliança
A medida atinge um pilar da arquitetura militar ocidental. Desde o fim da guerra, a Alemanha abriga o principal contingente americano no continente e funciona como plataforma para operações dos EUA no Oriente Médio, na África e no Leste Europeu. Em dezembro do ano passado, 36.436 militares ativos dos EUA estão estacionados no país, segundo o Centro de Dados de Recursos Humanos de Defesa americano.
O anúncio ocorre após semanas de atrito entre Washington e Berlim sobre a condução da guerra de dois meses no Irã e sobre tarifas comerciais. Trump decide avançar com a redução do contingente depois de um desentendimento público com o chanceler alemão, Friedrich Merz, que afirma na segunda-feira (27) que “os iranianos estão humilhando os EUA” nas negociações para encerrar o conflito.
O plano divulgado pelo Pentágono prevê uma retirada gradual, a ser concluída em um prazo de seis a doze meses. A nota não detalha quais bases serão afetadas nem esclarece se os soldados voltam para os EUA ou serão redistribuídos em outros países da Europa ou em regiões consideradas mais sensíveis, como o Indo-Pacífico.
O governo alemão reage com cautela e preocupação. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, admite que a medida reduz de forma relevante a atual presença de quase 40 mil militares americanos na Alemanha, mas tenta transformar o recado em impulso para uma agenda de rearmamento europeu. “Nós, europeus, devemos assumir mais responsabilidade pela nossa própria segurança”, afirma. “A Alemanha está no caminho certo”, diz, citando expansão das Forças Armadas, aceleração de aquisições militares e investimentos em infraestrutura.
No quartel-general da Otan, em Bruxelas, a decisão é tratada como mais um sinal de que Washington está disposto a usar o dispositivo militar para pressionar aliados. Um porta-voz afirma que a aliança “trabalha com os EUA para compreender os detalhes da decisão”, mas evita confrontar diretamente a Casa Branca, num momento em que a guerra entre Rússia e Ucrânia mantém o flanco leste em alerta máximo.
Capacidade da Otan fica sob teste e Europa corre contra o relógio
A retirada atinge em cheio a equação militar da Otan no coração da Europa. O Pentágono confirma que uma brigada completa deixará a Alemanha e que o batalhão de fogos de longo alcance, previsto para ser instalado ainda este ano, está cancelado. Para Berlim, a perda desse sistema é um golpe particular, porque ele reforçaria a capacidade de dissuasão contra a Rússia enquanto europeus desenvolvem seus próprios mísseis de longo alcance.
Na prática, a medida reduz a margem de manobra da aliança em um momento em que os arsenais europeus ainda não acompanham o discurso de autonomia estratégica. Os países da Otan prometem elevar gastos militares para 2% do PIB, mas enfrentam orçamentos pressionados e dependência tecnológica dos EUA. A Alemanha planeja ampliar o efetivo da Bundeswehr de 185 mil para 260 mil soldados, um salto que exigirá anos de recrutamento, treinamento e compras de equipamentos.
A inquietação se espalha sobretudo pelo Leste Europeu. O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, busca há meses garantias públicas de que o apoio americano continuará firme diante da ofensiva russa na Ucrânia. Ao comentar a decisão de Washington, ele escreve no X neste sábado que “a maior ameaça para a comunidade transatlântica não são os seus inimigos externos, mas a desintegração contínua da nossa aliança”. E completa: “Todos devemos fazer o que for necessário para reverter esta tendência desastrosa”.
A relação entre Washington e Berlim sofre outro abalo no mesmo fim de semana. Trump anuncia que pretende elevar para 25% as tarifas sobre carros importados da União Europeia, acusando o bloco de não cumprir um acordo comercial esperado pela Casa Branca. A medida atinge em cheio a indústria automotiva alemã, um dos pilares da economia do país, e pode custar bilhões de euros em exportações perdidas.
Dentro da coalizão de governo em Berlim, cresce a leitura de que a Casa Branca mistura segurança e comércio em uma mesma ferramenta de pressão. Peter Beyer, responsável por política externa do partido CDU, de Merz, afirma à agência Reuters que é preciso levar em conta a situação doméstica de Trump. “Neste contexto, tanto a retirada das tropas como a política comercial parecem menos a expressão de uma estratégia coerente e mais um reflexo político e uma reação nascida da frustração”, diz.
Pressão por autonomia europeia e futuro incerto da aliança
A presença militar americana na Alemanha começa como força de ocupação ao fim da Segunda Guerra Mundial e atinge o auge nos anos 1960, em plena Guerra Fria, quando centenas de milhares de soldados dos EUA estão posicionados no país para conter a União Soviética. Hoje, instalações como a base aérea de Ramstein e o hospital Landstuhl seguem centrais na logística de Washington, servindo de plataforma para operações no Irã e em conflitos anteriores no Iraque e no Afeganistão.
A redução de 5.000 militares não desmonta essa rede, mas altera o equilíbrio psicológico da aliança. Ao insistir que a Europa deve “pagar mais” e assumir o próprio destino, Trump transforma a presença americana em instrumento de barganha política. Governos europeus, pressionados por eleitores cansados de guerras longas e orçamentos apertados, tentam responder com promessas de aumento de gastos e novos programas de armamentos, mas esbarram em limites fiscais e em divergências internas.
No curto prazo, a Otan precisa reavaliar planos de contingência, rotas logísticas e responsabilidades entre seus membros, caso a retirada leve a uma redistribuição do contingente americano para outros países europeus mais próximos da fronteira russa. A Polônia e os Estados bálticos querem mais tropas e sistemas de longa distância em seu território, enquanto Berlim tenta evitar a imagem de um rebaixamento estratégico.
No médio e longo prazo, a decisão acelera a discussão sobre uma capacidade de defesa autônoma europeia, ainda mais diante da incerteza política em Washington e das eleições que se aproximam dos dois lados do Atlântico. A Alemanha promete ampliar efetivos e investimentos, a França insiste em um pilar europeu mais robusto dentro da Otan e países do Leste pedem garantias escritas de que os EUA não recuarão além dos 5.000 soldados anunciados.
A retirada programada para os próximos seis a doze meses abre uma janela de teste para a coesão da aliança. Se europeus não conseguirem transformar o choque em coordenação e investimentos concretos, a pergunta que paira sobre Berlim, Bruxelas e Washington continuará a mesma: quem, afinal, está disposto a pagar o preço da segurança europeia em uma ordem mundial cada vez mais instável?
