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Trump ataca Meloni após guinada na guerra contra o Irã

Donald Trump critica publicamente Giorgia Meloni nesta terça-feira (14), após a premiê italiana rever sua posição sobre a guerra contra o Irã e se distanciar dele. O ex-presidente dos Estados Unidos diz estar “chocado” com a guinada da aliada europeia e expõe uma fissura inédita na relação política entre os dois.

Rompimento à vista entre antigos aliados

A declaração de Trump circula em Washington e Roma desde o início da manhã e reforça a percepção de afastamento entre o republicano e a líder italiana. Nas últimas semanas, Meloni abandona o alinhamento automático ao discurso trumpista e passa a criticar a escalada militar contra o Irã, que já dura mais de três meses e envolve dezenas de ataques aéreos diários.

Trump reage em tom de desabafo. Em conversa com aliados, tornada pública por assessores, afirma que Meloni “cedeu à pressão da velha Europa” e “traiu os eleitores que acreditaram numa agenda forte de segurança”. A avaliação ressurge em entrevistas e em redes sociais, onde o ex-presidente tenta manter influência sobre partidos conservadores europeus.

Meloni, que em 2024 visita Trump na Flórida e o trata como “referência” na defesa de fronteiras e valores tradicionais, hoje procura se reposicionar no tabuleiro internacional. O gabinete em Roma passa a defender um cessar-fogo gradual e negociações diretas com Teerã, posição que a aproxima da França e da Alemanha e a afasta do núcleo trumpista nos Estados Unidos.

Diplomatas em Brasília e Bruxelas apontam que a mudança não ocorre de um dia para o outro. Desde o primeiro mês de confrontos, quando mísseis iranianos atingem instalações militares no Golfo Pérsico e provocam mais de 200 mortes, assessores italianos alertam para o risco de arrastar a Otan para uma campanha prolongada na região. O custo estimado para a União Europeia supera € 20 bilhões em pacotes emergenciais de energia e defesa desde janeiro.

Pressões internas e risco para a coesão ocidental

O recuo de Meloni também responde a pressões domésticas. Pesquisas divulgadas em 10 de abril, por institutos próximos ao governo, indicam que 61% dos italianos rejeitam o envio de tropas de combate ao Oriente Médio. A economia cresce abaixo de 1% ao ano e o país enfrenta inflação acumulada próxima de 7% em 12 meses, alimentada pela alta do petróleo desde os primeiros bombardeios sobre instalações iranianas.

Nesse ambiente, o apoio irrestrito à estratégia mais agressiva defendida por Trump se torna politicamente tóxico. Integrantes do próprio partido de Meloni, Irmãos da Itália, defendem uma abordagem “mais pragmática” com Teerã, para evitar novos choques no fornecimento de gás e petróleo à Europa. A premiê, segundo interlocutores em Roma, lê esses sinais e se afasta, passo a passo, do ex-presidente americano.

A resposta de Trump, porém, amplia as tensões. Ao acusar Meloni de “fraqueza” e de “abandonar a luta contra regimes inimigos do Ocidente”, ele coloca em xeque a imagem da Itália como parceira confiável de governos conservadores. A crítica atinge não só a líder italiana, mas o próprio eixo de cooperação entre Washington e Roma num momento em que os dois países tentam coordenar posições na Otan e no G7.

Analistas em think tanks europeus alertam que essa disputa pessoal tem efeito além das redes sociais. Um pesquisador ouvido por diplomatas resume o risco: “Quando dois símbolos da direita transatlântica rompem em público, abre-se espaço para divisões maiores dentro da aliança ocidental”. A avaliação ganha peso às vésperas de reuniões cruciais da Otan em Bruxelas, previstas para o fim de abril, e de encontros do G7 programados para maio, na Itália.

O episódio também alimenta dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de liderar um bloco coeso contra Teerã. Enquanto o atual governo em Washington tenta construir uma frente ampla com europeus, o protagonismo público de Trump cria ruído e oferece aos iranianos a imagem de um Ocidente dividido sobre estratégia, prazos e objetivos da guerra.

Impacto na guerra e nas futuras alianças

A mudança de rota de Meloni afeta diretamente cálculos militares e diplomáticos. A Itália abriga bases estratégicas usadas por aeronaves da Otan e dos EUA para operações no Mediterrâneo, como Sigonella e Aviano, que nas últimas décadas funcionam como ponto de apoio em conflitos no Iraque, na Líbia e na Síria. Qualquer restrição ao uso dessas estruturas, ainda que parcial, força aliados a redesenhar planos logísticos em questão de semanas.

Até o início de abril, Roma autorizava voos de reconhecimento e apoio, mas evitava falar em envolvimento direto em ataques contra território iraniano. Com a nova linha defendida por Meloni, a tendência é reforçar esse limite, reduzindo o papel italiano a missões de monitoramento e defesa, e resistindo a qualquer escalada que envolva tropas no terreno. Essa posição contrasta com o discurso de Trump, que pressiona por uma campanha “rápida e esmagadora” para enfraquecer o regime iraniano.

Empresários italianos dos setores de energia, construção e exportação acompanham o movimento com atenção. Antes das sanções mais duras, o comércio entre Itália e Irã supera € 1,7 bilhão anuais. Mesmo em queda desde 2018, grupos industriais veem na eventual descompressão do conflito uma chance de recuperar mercados. O distanciamento em relação a Trump é lido, em parte, como aposta numa futura negociação política que permita retomar relações econômicas em médio prazo.

No campo político, partidos conservadores na Europa se dividem. Siglas próximas a Trump, na Hungria e na Polônia, defendem linha dura e acusam Meloni de “ceder ao globalismo”. Outros grupos da direita moderada veem na guinada italiana um sinal de que o custo eleitoral da guerra se torna alto demais. O resultado é um mapa partidário mais fragmentado, às vésperas das eleições europeias previstas para meados de 2026.

Para os Estados Unidos, o imbróglio tem repercussões imediatas. Mesmo fora da Casa Branca, Trump segue como figura central no Partido Republicano e influencia pré-candidatos nas primárias do próximo ano. Sua crítica à premiê italiana pressiona senadores e deputados que, até aqui, tratavam Meloni como aliada natural em temas como migração e segurança fronteiriça.

O que vem a seguir na relação entre Roma e Washington

Diplomatas americanos e italianos tentam, nos bastidores, isolar o estrago. Em conversas reservadas, negociadores reforçam que a aliança militar entre os dois países, firmada há mais de 70 anos, não depende de afinidade pessoal entre líderes. O esforço é separar o ruído político da engrenagem institucional, que envolve dezenas de acordos de defesa, cooperação em inteligência e participação conjunta em missões internacionais.

Reuniões agendadas para as próximas duas semanas em Washington e Roma, com chanceleres e ministros da Defesa, devem testar essa capacidade de contenção. Um ponto sensível será a definição do grau de envolvimento italiano em novas operações ligadas ao conflito com o Irã e a eventual participação em missões de estabilização, caso um cessar-fogo seja negociado ainda em 2026.

No plano doméstico, Meloni precisa equilibrar a pressão externa de antigos aliados, como Trump, com a cobrança interna por prudência militar e foco na economia. O cálculo é simples e arriscado: quanto mais longa se torna a guerra contra o Irã, maior o custo de se associar a uma estratégia vista como aventureira pelos eleitores europeus.

Trump, por sua vez, transforma o rompimento em munição política. Ao dramatizar a mudança de postura da premiê italiana, ele reforça sua narrativa de que apenas uma liderança sem concessões consegue manter aliados “na linha”. O embate entre os dois, porém, abre uma questão que permanece sem resposta: diante de um conflito prolongado e caro, quantos parceiros ainda estarão dispostos a seguir o caminho traçado por Trump?

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