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EUA e Irã encerram rodada mais tensa em décadas sem acordo em Islamabad

Autoridades dos Estados Unidos e do Irã encerram, na madrugada de domingo (12), em Islamabad, a rodada mais alta de negociações diretas em mais de uma década. Após mais de 20 horas de conversas, não há acordo, mas os dois lados mantêm o canal aberto e prometem seguir falando para evitar uma nova escalada militar.

Maratona em hotel de luxo sob cerco geopolítico

No Serena Hotel, endereço mais exclusivo da capital paquistanesa, as delegações ocupam alas separadas, com uma terceira área reservada a encontros trilaterais. Entre idas e vindas em corredores monitorados, mediadores do Paquistão tentam, durante toda a noite, reduzir a distância entre Washington e Teerã.

De um lado está o vice-presidente dos EUA, JD Vance, enviado direto da Casa Branca com a missão de transformar um cessar-fogo de seis semanas em algo mais duradouro. Do outro, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, e o chanceler Abbas Araqchi chegam com uma lista fechada de exigências e a memória recente de ataques conjuntos dos EUA e de Israel em território iraniano.

As conversas começam dias depois do anúncio de cessar-fogo feito na terça-feira (7), marco temporário de uma guerra que já deixa milhares de mortos no Oriente Médio e atinge em cheio o mercado de energia. O estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo, segue na prática bloqueado por Teerã. Washington promete reabrir a passagem e pressiona por garantias de que o Irã não buscará uma bomba nuclear.

Onze fontes envolvidas nas tratativas, ouvidas sob condição de anonimato, descrevem uma atmosfera que oscila entre esperança e hostilidade. Telefones são proibidos na sala principal, e negociadores precisam sair para corredores silenciosos sempre que querem falar com suas capitais. “Havia uma grande esperança no meio das negociações de que haveria um avanço”, relata um integrante do governo paquistanês. “No entanto, as coisas mudaram em pouco tempo.”

Núcleo do impasse: bomba nuclear, sanções e Ormuz

O ponto central da disputa é antigo e conhecido: países ocidentais e Israel acreditam que Teerã busca uma arma nuclear; o Irã nega e insiste no direito ao enriquecimento de urânio para fins civis. A Casa Branca leva para Islamabad um pacote que exige o fim de todo enriquecimento, o desmonte das principais instalações, a entrega do urânio altamente enriquecido e inspeções amplas. Em troca, oferece alívio parcial de sanções e a promessa de uma estrutura de segurança regional que inclua aliados dos EUA.

Teerã responde com a própria lista. Quer um cessar-fogo permanente, garantias de que não será alvo de novos ataques, suspensão das sanções primárias e secundárias e o descongelamento integral de seus ativos bloqueados no exterior. Exige ainda o reconhecimento formal de seu direito ao enriquecimento de urânio e a manutenção do controle efetivo sobre o estreito de Ormuz, inclusive sobre taxas e regras de trânsito.

Negociadores dos dois lados dizem que, em alguns momentos, um acordo-quadro parece ao alcance. Uma fonte direta das tratativas afirma que as delegações estão “80% lá” antes de esbarrarem em temas que ninguém se sente autorizado a ceder na hora. A discussão sobre garantias de não agressão e de alívio de sanções acende o clima na sala. Segundo duas fontes iranianas, o tom normalmente contido de Araqchi muda quando ele lembra a rodada anterior de Genebra. “Como podemos confiar em vocês quando, na última reunião em Genebra, vocês disseram que os EUA não atacariam enquanto a diplomacia estivesse em andamento?”, questiona.

O histórico pesa. Em 2015, o acordo nuclear conhecido pela sigla em inglês JCPOA limita o programa atômico iraniano em troca de redução de sanções, mas é abandonado em 2018 pelo governo Donald Trump, que retoma e amplia restrições econômicas. Desde então, Teerã acelera o enriquecimento de urânio, e o dossiê nuclear volta ao centro da tensão, agora acoplado ao bloqueio de Ormuz e a uma campanha de ataques e retaliações na região.

No encontro de Islamabad, Washington tenta manter o dossiê nuclear e o estreito como foco principal. O Irã insiste em um pacote mais amplo, que inclua o fim do que considera guerra por procuração dos EUA e de aliados contra seus parceiros regionais. A divergência sobre o tamanho do acordo se soma às diferenças sobre o ritmo de descongelamento de ativos e o grau de abertura de Ormuz ao tráfego internacional.

Mercado de energia, política interna e o peso do relógio

O bloqueio do estreito de Ormuz já provoca alta nas cotações de petróleo e gás, pressiona a inflação global e atinge diretamente importadores da Ásia e da Europa. Para a Casa Branca, que encara eleições de meio de mandato em poucos meses, o estrangulamento do fornecimento de energia é combustível político indesejado. Ataques recentes ao Irã também enfrentam resistência dentro dos Estados Unidos, onde cresce o cansaço com conflitos prolongados que consomem recursos e não derrubam o regime em Teerã.

Do lado iraniano, as sanções derrubam a receita do petróleo, depreciam a moeda e aprofundam uma crise social que já havia explodido em protestos reprimidos com violência há poucas semanas. Autoridades em Teerã veem o dano econômico como ameaça direta à estabilidade do próprio sistema, sustentado por uma teocracia em permanente disputa com setores da sociedade urbana.

Na madrugada de domingo, mediadores paquistaneses ainda acreditam em uma extensão de 24 horas das conversas. O chefe do Exército, Asim Munir, e o chanceler Ishaq Dar circulam entre as salas, pedem pausas para chá quando o volume das vozes aumenta, tentam conter a exaustão que domina as equipes. A maratona passa das 20 horas, com funcionários do hotel dormindo em sofás, trabalhando em turnos improvisados depois de passarem por checagens de segurança.

Quando a rodada termina, Vance vai à imprensa com um recado calculado. Ele afirma que os EUA deixam Islamabad com uma “proposta muito simples, um método de entendimento” e a apresenta como “melhor e final oferta” de Washington. A frase busca mostrar firmeza a aliados e ao Congresso, mas preserva uma porta entreaberta ao adiantar que cabe agora a Teerã responder.

Em Washington, Donald Trump declara que o Irã “ligou esta manhã” e “gostaria de fechar um acordo”, afirmação que não é imediatamente confirmada por outras autoridades. A porta-voz da Casa Branca, Olivia Wales, reforça publicamente a linha vermelha americana. “O Irã nunca poderá ter uma arma nuclear, e a equipe de negociação do presidente Trump manteve essa linha vermelha e muitas outras. O engajamento continua em direção a um acordo”, diz.

Canal aberto, incerteza alta

Ainda em Islamabad, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, garante que a mediação continua. “Quero dizer a vocês que ainda há um esforço total para resolver as questões”, afirma. Diplomatas na região confirmam que, mesmo após a partida de Vance, emissários paquistaneses seguem levando recados entre Teerã e Washington.

Para o mercado de energia e para governos preocupados com a inflação, cada sinal de prolongamento do diálogo funciona como freio parcial ao pânico. Uma eventual reabertura plena de Ormuz reduziria prêmios de risco embutidos no preço do barril, hoje inflado pelo medo de interrupção duradoura das exportações do Golfo. Um entendimento sobre o programa nuclear também afastaria, ao menos no curto prazo, o risco de um ataque preventivo em grande escala contra instalações iranianas, cenário que poderia disparar o petróleo para patamares acima de US$ 120.

Para Teerã, um acordo que alivie sanções e descongele ativos pode significar fôlego imediato para uma economia pressionada, com efeito direto sobre emprego, inflação interna e capacidade de importar insumos básicos. Para Washington, a chance de reduzir o risco de guerra aberta no Oriente Médio e de estabilizar preços de combustíveis às vésperas de um calendário eleitoral carregado pesa tanto quanto o discurso de contenção nuclear.

A negociação em Islamabad devolve o Paquistão ao centro da diplomacia regional. Ao conduzir um cessar-fogo em seis semanas de guerra e em seguida hospedar a rodada mais alta entre EUA e Irã desde 1979, o país tenta consolidar a imagem de mediador confiável entre potências rivais do mundo muçulmano e do Ocidente. O sucesso ou fracasso desse esforço pode definir seu peso político em futuras crises, do Golfo Pérsico ao sul da Ásia.

O calendário segue implacável. Sem uma solução para Ormuz e para o programa nuclear, a pressão da inflação global e da política interna em Washington e em Teerã tende a aumentar. As próximas semanas dirão se a noite em claro no Serena Hotel marca o começo de uma saída diplomática ou apenas mais um capítulo em um impasse que já atravessa gerações.

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