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Itália suspende acordo de defesa com Israel após ataques no Líbano

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, suspende nesta segunda-feira (13) a renovação automática do acordo de cooperação de defesa com Israel. A decisão, tomada em Verona, interrompe treinamentos militares conjuntos e responde a ataques israelenses ao Líbano que colocam em risco tropas italianas sob mandato da ONU.

Governo aliado impõe limite a Israel

O anúncio marca uma virada na política externa de um governo que, desde 2022, se alinha de forma consistente a Israel em fóruns europeus e internacionais. Nas últimas semanas, porém, Roma endurece o tom diante da escalada militar israelense no território libanês, onde cerca de mil militares italianos integram a força de paz da ONU, a Unifil, ao lado de outras dezenas de países.

Em declarações em Verona, no norte da Itália, Meloni afirma que a mudança decorre do risco direto às tropas destacadas na fronteira sul do Líbano. “À luz da situação atual, o governo decidiu suspender a renovação automática do acordo de defesa com Israel”, diz a premiê, segundo agências italianas. O recado atinge um dos pilares da cooperação entre os dois países, em vigor há anos sem necessidade de renovação política a cada ciclo.

A medida nasce de uma reunião de alto nível realizada nesta segunda-feira, com a presença dos ministros das Relações Exteriores e da Defesa, Antonio Tajani e Guido Crosetto, e do vice-primeiro-ministro Matteo Salvini. Segundo uma fonte da Defesa, que fala sob condição de anonimato, o encontro se concentra na segurança das tropas na Unifil após disparos israelenses em direção a posições da ONU, episódios que levam Roma a convocar o embaixador de Israel na semana anterior.

Treinamentos interrompidos e pressão diplomática

Uma das consequências imediatas é o fim da cooperação em treinamentos militares entre Itália e Israel. “A Itália não irá mais cooperar com Israel no treinamento militar”, afirma a mesma fonte do Ministério da Defesa. A mudança atinge exercícios conjuntos que envolvem tropas de infantaria, unidades aéreas e intercâmbio de doutrina em operações urbanas e de contraterrorismo, planejados com meses de antecedência.

Os programas de cooperação costumam incluir dezenas de oficiais italianos e israelenses por ano, além de simulações em bases na Europa e no Oriente Médio. Ao suspender a renovação automática, Roma cria uma espécie de freio de emergência jurídico e político: qualquer retomada exigirá decisão explícita do governo e reavaliação do cenário de segurança na fronteira entre Israel e Líbano.

O gesto reforça o descontentamento italiano com ataques que atingem a proximidade de posições da Unifil, responsável por monitorar o cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah desde 2006. Em janeiro, o governo já havia elevado o nível de alerta para suas tropas, depois de uma série de bombardeios que deixam mortos em áreas civis e pressionam a frágil estabilidade do sul do Líbano, uma das regiões mais militarizadas do mundo.

A decisão, no entanto, não rompe o relacionamento bilateral. O governo Meloni mantém cooperação em inteligência, comércio e tecnologia de defesa, que movimenta dezenas de milhões de euros por ano em contratos privados. A suspensão recai especificamente sobre o acordo de cooperação militar que se renova de forma automática, referência para exercícios conjuntos e programas de formação.

Europa observa, ONU em alerta

A movimentação italiana repercute em capitais europeias que, desde o início da ofensiva israelense, enfrentam pressões internas por limites mais claros ao apoio militar a Tel Aviv. Em Bruxelas, diplomatas avaliam que a medida de Roma pode abrir espaço para que outros governos, especialmente na Europa mediterrânea, revisem acordos semelhantes se a escalada no Líbano continuar.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel não responde de imediato ao pedido de comentário feito pela agência Reuters. A ausência de reação oficial amplia o clima de incerteza sobre o futuro da cooperação com um dos principais países da Otan na região. Para Israel, a Itália funciona como ponte importante para a União Europeia e para o comando aliado em Nápoles, responsável por operações no Mediterrâneo.

A ONU acompanha com atenção o impacto da decisão na segurança das missões de paz. Tropas italianas atuam no Líbano há mais de 15 anos, com rotações regulares a cada seis meses. Entre 2020 e 2025, Roma mantém um contingente estável na casa dos quatro dígitos, contribuindo com veículos blindados, helicópteros e equipes de engenharia para patrulhamento e desminagem.

Analistas em Roma apontam que a decisão também responde ao debate interno. Setores da coalizão de direita tentam equilibrar a defesa de Israel, bandeira central de parte do eleitorado, com a necessidade de mostrar que o governo protege seus próprios militares. A suspensão do acordo oferece um gesto concreto a famílias de soldados e a diplomatas que alertam para o risco de incidentes graves com a bandeira italiana em zona de guerra.

Próximos passos e cenário em aberto

O governo italiano não fixa prazo para reavaliar o acordo, mas auxiliares de Meloni admitem, em reservado, que qualquer retomada dependerá de uma redução “sustentada e verificável” da tensão entre Israel e Hezbollah. Em conversas em Bruxelas e Nova York, diplomatas de Roma defendem maior envolvimento do Conselho de Segurança da ONU na proteção das missões de paz, hoje expostas a novos tipos de armamento e a um conflito mais fragmentado.

A suspensão da cooperação de defesa não encerra o diálogo. Itália e Israel continuam a se encontrar em fóruns multilaterais, na Otan e na União para o Mediterrâneo, mas o tom das conversas muda. A partir de agora, a presença de soldados italianos no sul do Líbano se torna parâmetro central para qualquer gesto político em direção a Tel Aviv.

Enquanto Roma endurece sua posição, outras capitais europeias medem o custo de seguir o mesmo caminho e de enfrentar pressões internas por uma linha mais crítica à ofensiva israelense. A forma como Israel responderá, seja por canais diplomáticos discretos, seja por declarações públicas, deve indicar se a suspensão italiana inaugura uma fase de distanciamento duradouro ou se funciona apenas como alerta num tabuleiro regional cada vez mais instável.

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