Trump amplia sanções e isola ainda mais Cuba após queda de Maduro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina nesta sexta-feira (1º) ordens executivas que ampliam as sanções contra o governo de Cuba. As medidas endurecem restrições econômicas, autorizam punições a terceiros que negociem com os alvos e aprofundam o isolamento da ilha em meio à crise regional após a destituição de Nicolás Maduro na Venezuela.
Pressão máxima no Caribe em meio à guerra com o Irã
A Casa Branca confirma a mudança de rumo a dois meses da entrada em vigor das sanções mais duras já adotadas por Washington contra Havana desde o fim da Guerra Fria. Dois funcionários do governo dizem à agência Reuters que as novas ordens executivas autorizam sanções secundárias, um instrumento que mira bancos, empresas e indivíduos estrangeiros que mantenham relações comerciais com os alvos definidos pelos EUA.
O texto das ordens ainda não é divulgado por completo, e autoridades evitam detalhar quais empresas estatais cubanas ou figuras do regime entram na mira. O recado, porém, é explícito. Trump já descreve Cuba como um país “à beira do colapso” e vincula o endurecimento das punições ao apoio de Havana ao governo deposto de Nicolás Maduro, retirado do poder em 3 de janeiro, e ao alinhamento com o Irã e grupos militantes como o Hezbollah.
Assessores presidenciais repetem que a ilha “oferece um ambiente permissivo para operações hostis de inteligência estrangeira, militares e terroristas a menos de 160 quilômetros do território continental americano”. É a justificativa de segurança nacional que sustenta a guinada de Washington, hoje em guerra com o Irã desde 28 de fevereiro e engajada em operações militares na Venezuela, como os ataques a embarcações na costa e a invasão de Caracas para prender Maduro.
A escalada se insere na estratégia de pressão máxima de Trump contra governos socialistas aliados de Teerã. Nos bastidores, diplomatas admitem que a Casa Branca quer forçar Havana a rever alianças, abrir parte de sua economia estatal e negociar compensações pelas propriedades expropriadas desde a revolução liderada por Fidel Castro em 1959. O governo cubano, por sua vez, responde que não aceita qualquer mudança de regime e reafirma o compromisso com o modelo socialista.
Economia em aperto e apagões em série na ilha
O efeito imediato recai sobre uma economia já fragilizada. Em janeiro, os EUA suspendem as exportações de petróleo venezuelano à ilha, fonte vital de combustível subsidiado desde o início dos anos 2000. A ruptura desse fluxo se torna o primeiro grande choque após a queda de Maduro e prepara o terreno para o passo desta sexta-feira.
Sem o petróleo venezuelano e com mais dificuldade de encontrar fornecedores dispostos a enfrentar a pressão americana, Cuba enfrenta três apagões de escala nacional no primeiro trimestre do ano. Bairros inteiros de Havana passam horas no escuro, hospitais recorrem a geradores e lojas lidam com prateleiras esvaziadas. Companhias aéreas estrangeiras suspendem voos diante da incerteza sobre abastecimento e sobre o impacto das sanções em seguros e operações financeiras.
As novas ordens executivas ampliam esse cerco ao autorizarem sanções secundárias a quem “realizar ou facilitar transações” com os alvos definidos por Washington, segundo autoridades americanas. Na prática, bancos internacionais, tradings de energia e companhias marítimas passam a avaliar se vale a pena manter negócios com Cuba diante do risco de perder acesso ao sistema financeiro dos EUA, o maior do mundo.
O isolamento financeiro tende a encarecer ainda mais a compra de combustível e alimentos, produtos que já sofrem com alta de preços e falta recorrente nas cidades cubanas. Economistas consultados por agências internacionais calculam que, desde o início da suspensão do petróleo venezuelano, a ilha perde centenas de milhões de dólares em subsídios indiretos por ano, valor que o governo não consegue repor em um mercado fechado por sanções.
Trump também ameaça impor tarifas a países que enviem petróleo para Cuba, numa tentativa de dissuadir qualquer ponte alternativa. Em reuniões fechadas, diplomatas latino-americanos relatam dúvidas sobre como equilibrar interesses comerciais com pressões de Washington. Poucos governos da região se dispõem a enfrentar abertamente a política americana em um momento em que o conflito com o Irã aumenta o peso geopolítico da Casa Branca.
Apostas para os próximos meses e impasse político
As sanções ampliadas surgem como aviso e teste. Ao autorizar punições contra terceiros, Washington mede até que ponto parceiros europeus, asiáticos e latino-americanos aceitam rever laços com Havana para preservar acesso ao mercado americano. Empresas com operações globais começam a revisar contratos, rotas marítimas e linhas de crédito ligadas à ilha.
Em Havana, o governo precisa administrar simultaneamente a escassez de energia, o impacto social dos apagões e a expectativa criada por anos de relativa abertura ao turismo e a investimentos estrangeiros. Setores dependentes de visitantes, como hotelaria e restaurantes privados, já sentem a retração provocada pela combinação de menos voos, dificuldade logística e incerteza política.
No plano diplomático, a medida reduz ainda mais a margem para diálogo direto entre Cuba e Estados Unidos, restaurado de forma tímida após o degelo iniciado em 2014, no governo Barack Obama. Com Trump repetindo em discursos que “Cuba é o próximo alvo”, sem detalhar o que isso significa em termos militares ou políticos, a sensação de impasse se aprofunda nas chancelarias da região.
Aliados de Havana na América Latina observam com cautela. Alguns buscam manter apoio político sem se expor a sanções financeiras, outros avaliam se o custo de romper com a ilha compensa a aproximação com Washington em meio à guerra com o Irã. A disputa projeta uma sombra sobre fóruns regionais e dificulta qualquer tentativa de formulação de uma resposta conjunta.
Os próximos meses devem revelar o alcance real das novas sanções: se serão mais uma rodada de pressão sobre um governo acostumado a resistir desde o embargo de 1962 ou se marcarão um ponto de inflexão na crise econômica cubana. Em um cenário de guerra aberta dos EUA com o Irã e de reordenamento de alianças na América Latina, permanece em aberto até que ponto a população da ilha suportará o custo de um confronto que se decide longe de Havana.
