Torcida feminina em Itaquera muda o jogo para 2027 do futebol feminino
Em uma noite de 2026, em Itaquera, a voz que manda no futebol brasileiro vem das arquibancadas e tem maioria feminina. No amistoso entre Brasil e Estados Unidos, a torcida transforma um jogo comum em marco simbólico para a Copa do Mundo de 2027. A reação da técnica Emma Hayes traduz o tamanho da virada em curso.
Barulho de mulher, desconforto de gigante
O estádio do Corinthians registra pouco mais de 40 mil pessoas, em um sábado de agenda cheia para o futebol. À mesma hora, a seleção masculina enfrenta o Egito em outro amistoso, longe dali. Em São Paulo, porém, o ruído que incomoda as adversárias e empurra o Brasil vem, sobretudo, de mulheres.
Emma Hayes, uma das treinadoras mais respeitadas do mundo, percebe o impacto nos primeiros minutos. Aos 15 do primeiro tempo, ela reúne as jogadoras e tenta controlar a pressão externa. “O desconforto disso é nos primeiros 15 minutos. Eu comandei muitos jogos de futebol e nunca ouvi nada assim antes”, diz às atletas, em inglês, em fala que ecoa depois do jogo pelos corredores do estádio.
O som vem em ondas, atravessa o campo e encontra Bia Zaneratto na área. A atacante abre o placar, corre para a bandeirinha de escanteio e aponta para as arquibancadas. A imagem registra não só a comemoração, mas também um novo pacto: a seleção não joga mais sozinha.
O amistoso, que em outros anos seria apenas preparação de calendário, ganha peso simbólico raro. Nos bares ao redor da arena, torcedoras exibem camisas com nomes de jogadoras. Nas filas, famílias com meninas de 8, 10, 12 anos contam que preferem ver “as mulheres jogando bola” a acompanhar, pela TV, o time masculino.
Virada cultural e disputa por atenção
A escolha de público expõe uma mudança de rota em curso. Há cinco anos, em 2021, jogos da seleção feminina no Brasil costumam atrair públicos de 8 mil a 15 mil pessoas, com forte presença de famílias, mas sem atmosfera de clássico. Em 2026, Itaquera vibra com barulho de decisão, em pleno confronto com a seleção tetracampeã mundial.
Os números televisivos acompanham o movimento. Dados preliminares de audiência, colhidos por executivos de duas emissoras que disputam os direitos de transmissão de 2027, indicam crescimento em torno de 30% na faixa noturna dedicada ao amistoso. O jogo das mulheres, em São Paulo, aproxima-se da audiência do jogo dos homens contra o Egito, algo impensável no início da década.
Executivos de marketing esportivo relatam aumento de até 40% nas consultas de marcas interessadas em patrocinar times femininos desde 2024. A partida em Itaquera funciona como vitrine perfeita para reforçar essa tendência: estádio cheio, clima de festa e protagonismo visível de torcedoras na condução dos cânticos.
O contraste com o passado é evidente. Em 1971, na Copa do Mundo não oficial do México, a seleção feminina brasileira joga para mais de 100 mil pessoas no Estádio Azteca, mas volta ao país para o silêncio e a proibição. Entre 1941 e 1979, uma portaria federal impede mulheres de jogar futebol de maneira organizada. A cena de 2026, com mulheres tomando as arquibancadas e arrastando homens para o estádio, rompe com essa herança de apagamento.
A frase que circula entre dirigentes após o apito final resume o espírito do momento: “O tom de 2027 está dado”. A Copa do Mundo, que o Brasil recebe pela primeira vez, deixa de ser apenas um evento esportivo e passa a ser tratada como ponto de virada social.
Mais dinheiro, mais visibilidade e novas disputas
O efeito imediato do ambiente em Itaquera recai sobre o planejamento de clubes, federações e patrocinadores. Dirigentes de grandes clubes estimam aumento de pelo menos 20% no orçamento destinado ao futebol feminino entre 2026 e 2027, impulsionados pelo interesse de novas marcas e pelas exigências da Fifa para a Copa. Em alguns casos, o salto pode ser maior, na casa de 30% a 40%, sobretudo nos times que já disputam campeonatos nacionais com boa presença de público.
A CBF trabalha com a meta de ampliar o número de estádios de grande porte usados regularmente por times femininos nas Séries A1 e A2 do Brasileiro. Hoje, menos de um terço das partidas acontece em arenas principais. A expectativa para 2027 é dobrar esse índice, aproximando o futebol feminino do centro da experiência do torcedor.
O crescimento, porém, não beneficia todos de maneira uniforme. Clubes pequenos temem ficar para trás na disputa por patrocinadores. Jogadoras de equipes menores relatam que, enquanto a elite começa a falar em aumento salarial e contratos de três anos, muitas ainda recebem abaixo de R$ 3 mil por mês e renovam vínculo temporada a temporada.
A mudança cultural também atinge a cobertura jornalística. Redações que até 2020 destinavam, em média, um ou dois repórteres fixos para o futebol feminino agora redesenham escalas para cobrir treinos, bastidores e mercado. Em ao menos três grandes grupos de mídia, planos internos preveem dobrar o tempo de exposição da modalidade em TV aberta e plataformas digitais a partir de 2027.
As arquibancadas de Itaquera, com maioria feminina, aceleram debates sobre segurança, preço de ingresso e transporte em dias de jogo. Grupos de torcedoras cobram protocolos específicos contra assédio, câmeras de monitoramento e equipes treinadas para acolher denúncias, sob o argumento de que não basta abrir o estádio, é preciso garantir permanência segura.
2027 já começa nas arquibancadas
O amistoso contra os Estados Unidos funciona como espécie de ensaio geral emocional para 2027. A sensação nos bastidores é de que o país tem pouco mais de um ano para transformar ambiente em estrutura. Dirigentes falam em ampliar centros de treinamento específicos para mulheres, fortalecer categorias de base e acelerar o calendário de competições estaduais antes do Mundial.
A frase de um velho ditado português, repetida por torcedoras após o jogo, ajuda a definir o clima de urgência: “Os fados levam aqueles que estão prontos. Os que não estão, os fados arrastam”. A nova geração de fãs do futebol feminino parece decidida a não esperar convite formal. Entra no estádio, puxa o canto, ajusta o tom e avisa que 2027, pelo visto, já começou.
