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Presidente do Vitória critica calote e teme fila dupla com Botafogo

O presidente do Vitória, Fábio Mota, lamenta nesta terça-feira (9) a recuperação judicial da SAF do Botafogo, que trava o pagamento de R$ 1 milhão ao clube baiano. O valor é referente à venda do zagueiro Lucas Halter ao Houston Dynamo, nos Estados Unidos.

Fila dupla de créditos e rombo bilionário

O processo de recuperação judicial da SAF alvinegra cria uma nova camada de incerteza para os credores. No caso do Vitória, o clube passa a disputar espaço em duas filas de pagamento: uma ligada à associação civil do Botafogo e outra à empresa que gere o futebol profissional. A mudança atinge diretamente a taxa de vitrine de Halter, acertada em R$ 1 milhão.

Na entrevista ao canal “Resenha do Leão”, gravada em 9 de junho de 2026, Mota expõe a frustração com a situação. “Nós perdemos mais R$ 1 milhão com o Botafogo agora, de novo. Halter foi vendido, o Botafogo tinha que pagar R$ 1 milhão ao Vitória pela taxa de vitrine, pediu recuperação judicial. Não é que perdemos, vamos entrar na fila do crédito de novo. A gente tem duas filas de crédito do Botafogo, uma da associação e agora uma da SAF”, afirma.

O dirigente lembra que o problema não é pontual. Segundo ele, o Vitória já sente o impacto de outra dívida, ligada à antiga recuperação judicial da associação do Botafogo, relacionada ao atacante Elkeson. “O Botafogo está vivo lá, deve R$ 2 bilhões, fez recuperação judicial da associação, deu um tombo na gente de Elkeson de 9 milhões de reais, fez agora recuperação judicial da SAF e deu um tombo de R$ 1 milhão”, relata.

Recuperação judicial é um mecanismo previsto em lei que permite a empresas em crise renegociarem suas dívidas sob supervisão do Judiciário. Na prática, os credores deixam de receber no curto prazo e entram em um plano de pagamentos alongado, muitas vezes com descontos relevantes. No futebol, essa ferramenta ganha força com a criação das SAFs e passa a ser usada por clubes que acumulam décadas de desequilíbrios financeiros.

Fair play financeiro expõe fragilidade dos clubes

A nova recuperação judicial do Botafogo ocorre em um ambiente de maior pressão por transparência e responsabilidade nas contas. Normas de fair play financeiro, pensadas para frear gastos acima da capacidade de arrecadação, preveem punições esportivas e administrativas para quem entra em regime de proteção judicial. Mota aponta que o desenho atual da legislação tenta corrigir um cenário que considera desorganizado.

“Infelizmente, é a questão do futebol brasileiro, que agora mudou. Agora, pela nova legislação, com o fair play, se você pede recuperação judicial, tem uma série de penalidades que podem acontecer, já se fez pensando nisso, porque era uma zona”, diz o presidente rubro-negro. O discurso expõe a contradição: a lei busca organizar o sistema, mas, até que isso ocorra, os clubes credores seguem expostos a atrasos e calotes.

O Vitória não é o único na fila. Com um passivo que, segundo Mota, alcança R$ 2 bilhões, o Botafogo carrega dezenas de credores, entre clubes, empresários, atletas e fornecedores. Cada novo pedido de recuperação judicial reorganiza prioridades e mexe na ordem de quem recebe primeiro. Para quem depende de receitas de transferências, como times de médio porte, qualquer atraso de milhões altera o planejamento de temporada, afeta folha salarial e limita investimentos em elenco.

A queixa de Mota também dialoga com a realidade do futebol nordestino. Ele cita rivais históricos para ilustrar o tamanho da crise estrutural. “Os clubes do Nordeste, à exceção do Vitória, vamos lá, Sport, Santa Cruz, Náutico, todos pediram recuperação judicial. E a gente fez um esforço muito grande para não pedir recuperação. Não estou criticando quem pediu não”, afirma. A fala indica uma tentativa de manter as contas em dia, mas revela o cerco financeiro em torno dos clubes da região.

Vitória sob pressão e tendência de novos pedidos

O presidente admite que o próprio Vitória pode ter de recorrer ao mesmo caminho no futuro. “Eu acho até que amanhã ou depois o Vitória também pode pedir recuperação judicial, que é quando, na verdade, você pega sua dívida e alonga para não sei quanto tempo”, admite. Na prática, a declaração funciona como alerta: mesmo quem hoje evita a judicialização das dívidas enxerga a ferramenta como saída possível, caso a pressão financeira aumente.

Mota lembra que gigantes nacionais já recorreram ao mecanismo. “O Cruzeiro pediu recuperação judicial, o Botafogo pediu recuperação judicial, o Vasco pediu recuperação judicial”, enumera. A sequência mostra que a crise financeira não se restringe a clubes médios ou a regiões específicas. A combinação de receitas imprevisíveis, gastos elevados com elenco e dívidas antigas empurra cada vez mais times para a proteção judicial.

No curto prazo, o Vitória tenta conviver com o prejuízo e recalcular o orçamento sem os R$ 1 milhão que esperava receber pela operação de Lucas Halter. A indefinição sobre prazos e condições de pagamento torna difícil projetar quando o dinheiro entra em caixa. Até que o plano de recuperação da SAF do Botafogo seja aprovado e comece a ser executado, o clube baiano segue na mesma fila que tantos outros credores, disputando espaço em um cronograma que pode se estender por anos.

O caso expõe uma questão central para o futebol brasileiro: como garantir que a reorganização financeira de um clube não seja feita às custas de outros, igualmente fragilizados. Entre o esforço para sobreviver e a necessidade de honrar compromissos, Botafogo, Vitória e tantos rivais caminham em um campo estreito, em que qualquer atraso de sete dígitos pode comprometer uma temporada inteira. A resposta virá nos tribunais e nos próximos balanços, à medida que os planos de recuperação deixarem o papel e forem testados na prática.

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