Sob pressão eleitoral, senadores recuam de apoio a PEC da jornada 6×1
Às vésperas da eleição de 2026, os senadores Zequinha Marinho (Podemos-PA), Cleitinho (Republicanos-MG) e Romário (PL-RJ) retiram o apoio à PEC da oposição que flexibiliza a jornada 6×1. O recuo ocorre após forte pressão nas redes sociais e ataques de centrais sindicais, que acusam a proposta de enfraquecer direitos trabalhistas.
Pressão digital, rua mobilizada e um recuo simbólico
O movimento dos três senadores se consolida nesta quinta-feira, 4 de junho de 2026, no Senado Federal, em Brasília. O gesto não derruba a proposta, mas expõe o desgaste político da PEC alternativa, encampada pela oposição bolsonarista como resposta ao texto aprovado pela Câmara dos Deputados sobre o fim da escala 6×1.
A proposta em discussão no Senado, de autoria de Rogério Marinho (PL-RN), permite que patrão e empregado fechem acordos individuais de jornada, com pagamento exclusivamente por hora trabalhada. Na prática, abre espaço para rotinas mais longas em determinados dias, sem a intermediação dos sindicatos, vistos historicamente como o principal contrapeso na negociação com empresas.
O contraste com o texto da Câmara é nítido. Os deputados aprovam uma jornada de 40 horas semanais, sem redução salarial, com transição prevista de 14 meses para adaptação de empresas e trabalhadores. A PEC alternativa, por sua vez, é criticada por sindicatos e parlamentares de esquerda como a porta de entrada para uma jornada 7×0, sem descanso semanal garantido, o que dá origem ao apelido “PEC do Trabalho Escravo”.
As críticas ganham corpo em vídeos, cards e campanhas coordenadas nas redes sociais, impulsionadas por centrais sindicais e bancadas de esquerda. A ofensiva mira diretamente a base bolsonarista e transforma a tramitação da PEC em teste de fidelidade com o eleitorado de baixa renda, que vê na redução da jornada uma promessa concreta de melhoria de vida.
Redes sociais, cálculo eleitoral e disputa pela narrativa
Zequinha Marinho é o primeiro a tentar se descolar da proposta. No Instagram, escreve que a PEC alternativa “retira a presença do sindicato das negociações e isso a gente não pode admitir”. O senador, que busca a reeleição, faz questão de marcar posição pública, em sintonia com a ofensiva sindical que cobra a retirada de assinaturas uma a uma.
Romário segue caminho semelhante. Em nota, afirma ter entendido “que muita gente viu o texto como algo prejudicial ao trabalhador brasileiro. E, se o povo entende assim, não faz sentido continuar nela”. O ex-jogador, acostumado à comunicação direta com seus apoiadores, percebe o desgaste diante de um tema que mexe com o cotidiano de milhões de famílias.
Cleitinho leva o recuo ao plenário. Em discurso nesta quarta-feira, 3, o senador por Minas Gerais diz ter assinado a PEC de Rogério Marinho por “gentileza”, em retribuição ao apoio da direita à sua própria proposta de jornada 5×2. Agora, se declara “magoado” com a reação de seguidores e com a enxurrada de cobranças nas redes. O mineiro é cotado para disputar o governo do Estado e tenta evitar que a pauta trabalhista contamine sua imagem em um colégio eleitoral decisivo.
O cálculo é feito à luz de pesquisas recentes. Levantamento do instituto Vox Populi mostra que oito em cada dez trabalhadores apoiam a redução da jornada. O dado é usado à exaustão por sindicatos e parlamentares de esquerda, que apresentam a PEC alternativa como um retrocesso direto à vontade da maioria e uma ameaça ao descanso semanal remunerado, garantido na Constituição desde 1988.
O recuo, porém, é classificado como “simbólico” por técnicos do Senado. Mesmo sem as assinaturas de Zequinha, Cleitinho e Romário, a proposta de Rogério Marinho mantém as condições regimentais para seguir tramitando em conjunto com o texto da Câmara. A derrota, por ora, é mais de imagem do que de votos, mas expõe a dificuldade da oposição em sustentar uma agenda trabalhista liberal em clima de pré-campanha.
Disputa sobre direitos trabalhistas e o papel dos sindicatos
O embate em torno da escala 6×1 recoloca no centro do debate o papel dos sindicatos. Centrais como CUT, Força Sindical e UGT defendem que qualquer mudança profunda na jornada passe por negociação coletiva, com acordos setoriais, e não por contratos individuais, mais frágeis diante do poder de barganha das empresas.
Parlamentares de esquerda destacam que o Brasil mantém, em setores como comércio, serviços e indústria, jornadas extenuantes em regime 6×1, com descanso muitas vezes irregular. A proposta da Câmara, que fixa 40 horas semanais, é apresentada como tentativa de limitar abusos, reduzir adoecimento e ampliar tempo livre, sem cortar salários. Nesse cenário, a PEC alternativa é lida como uma tentativa de esvaziar a conquista antes mesmo de ela se consolidar.
A discussão não é isolada. Desde a reforma trabalhista de 2017, aprovada no governo Michel Temer, sindicatos perdem receita e força de mobilização, enquanto o discurso da “flexibilização” ganha espaço entre empresários e parte do Parlamento. A reação atual indica uma inflexão: diante de uma proposta vista como radical, o campo progressista busca reconstruir a legitimidade de entidades sindicais como defensoras do descanso semanal e da previsibilidade da jornada.
Para trabalhadores submetidos à escala 6×1, qualquer mudança concreta na lei tem efeito direto na renda e na rotina. A adoção de uma jornada de 40 horas, com salário preservado, pode significar um dia a mais com a família, tempo para estudo ou descanso. A hipótese de jornada 7×0, ainda que rejeitada pelos autores da PEC alternativa, mobiliza medos antigos em categorias marcadas por baixos salários, alta rotatividade e poucos canais formais de negociação.
Próximos passos no Senado e na campanha
A retirada das assinaturas de Zequinha, Cleitinho e Romário cria um constrangimento interno, mas não trava a tramitação. A Mesa do Senado confirma que a PEC de Rogério Marinho seguirá anexada ao texto aprovado pela Câmara, numa espécie de disputa em paralelo, em que relator e líderes terão de escolher qual caminho privilegiar.
Nos bastidores, governistas defendem acelerar a análise da proposta da Câmara, vendida como “redução da jornada sem perda salarial” em discursos pelo país. A oposição, pressionada pela repercussão negativa da PEC alternativa, avalia ajustes de redação para tentar afastar o rótulo de “PEC do Trabalho Escravo” e reduzir o desgaste eleitoral.
O tema tende a ocupar o centro da campanha, sobretudo entre partidos de esquerda, que veem na defesa da jornada menor uma bandeira capaz de mobilizar a base trabalhadora e sindical. Com 80% dos trabalhadores apoiando a redução, segundo o Vox Populi, a pauta pode se tornar um divisor de águas entre candidatos que prometem ampliar direitos e aqueles que defendem mais flexibilização.
A sessão que marcará a escolha do relatório e o formato final da votação ainda não tem data definida, mas líderes admitem que a decisão dificilmente ficará fora do calendário eleitoral. A pergunta que permanece é se o recuo simbólico de três senadores será suficiente para conter a rejeição à PEC alternativa ou se a pressão das ruas e das redes levará o Senado a enterrar de vez a proposta bolsonarista.
