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Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira surgem em nova delação do caso Master

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apresenta em junho de 2026 uma nova proposta de delação premiada que cita Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira. O documento descreve supostos pedidos de dinheiro e repasses milionários ligados ao filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, e a esquemas financeiros investigados pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Delação reacende caso Master e pressiona classe política

A nova investida de Vorcaro ocorre menos de duas semanas depois de a PF rejeitar sua primeira proposta de colaboração. Investigadores apontam que, na tentativa anterior, o banqueiro omite informações e protege aliados estratégicos. Agora, ele volta à mesa com novos nomes, novos documentos e a promessa de detalhar a engrenagem financeira em torno do Banco Master.

Entre os citados estão o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República em 2026, e o também senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil. A presença de dois atores centrais do bolsonarismo e do centrão eleva a temperatura política em ano eleitoral e obriga o Palácio do Planalto, o Congresso e os órgãos de controle a acompanhar cada passo do caso.

A defesa de Vorcaro entrega à PGR, na terça-feira, um pacote de documentos e informações para sustentar o novo acordo. O material chega à PF e à cúpula do Ministério Público na mesma data. Desde quarta, procuradores e delegados analisam o conteúdo para decidir se, desta vez, há lastro suficiente para homologar a colaboração e usar as informações em futuras ações penais.

Vorcaro cumpre prisão na Superintendência da PF em Brasília. Ele é peça central da Operação Compliance Zero, que mira fraudes bilionárias com recursos do Banco de Brasília (BRB) e do próprio Master. A delação, se aceita, pode redesenhar o mapa do caso, ampliar o número de investigados e conectar a teia financeira à disputa pelo poder em Brasília.

Filme “Dark Horse”, dinheiro privado e suspeita de caixa político

O ponto mais sensível da nova proposta é a narrativa sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Vorcaro relata repasses robustos do Banco Master para a produção do longa e afirma que parte do dinheiro atende a pedidos diretos de Flávio Bolsonaro. Segundo o empresário, o senador busca recursos para viabilizar o projeto e garantir o lançamento do filme em meio ao calendário eleitoral.

Mensagens obtidas e divulgadas pelo site The Intercept Brasil mostram que Flávio negocia com Vorcaro um pacote de R$ 124 milhões para o filme. Pelo menos R$ 60 milhões, de acordo com o que já está sob escrutínio dos investigadores, saem de fato das contas ligadas ao banqueiro. A PF suspeita que uma fração relevante desses valores não chega às telas, mas alimenta atividades políticas, inclusive o sustento do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Os investigadores trabalham com a hipótese de que o financiamento do filme funciona como fachada para lavagem de dinheiro. Em vez de bancar apenas equipe técnica, equipamentos, locações, gravações e edição, parte dos recursos teria servido para mascarar a origem de valores desviados de operações fraudulentas do Master e de prejuízos ao BRB. O rastro financeiro, se confirmado, pode revelar uma engrenagem de caixa político não declarado em escala milionária.

Flávio Bolsonaro reage em nota e nega qualquer irregularidade. “Não pedi dinheiro para ninguém. Era um dinheiro privado para um filme privado”, afirma o senador. Ele sustenta que todo o montante recebido se destina ao custeio da produção, do roteiro às diárias de filmagem. A defesa promete apresentar contratos, notas fiscais e planilhas para tentar comprovar que não há desvio de finalidade nem repasse clandestino para campanhas ou manutenção de aliados no exterior.

O caso ganha ainda mais peso porque Flávio assume, neste ano, o papel de principal pré-candidato da direita bolsonarista ao Planalto. Um escândalo envolvendo recursos de origem suspeita, um filme sobre o pai e possíveis conexões com estruturas de Estado ameaça contaminar a narrativa de campanha, que tenta se apoiar em disciplina fiscal e combate à corrupção.

O papel de Ciro Nogueira e o alcance institucional das suspeitas

O nome de Ciro Nogueira reaparece na delação como ponte entre o Banco Master e o Congresso Nacional. As investigações da Operação Compliance Zero já apontam que o senador teria atuado em favor do banco em troca de pagamento de propina. A PF mira, em especial, a chamada “emenda Master”, proposta por Ciro para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege correntistas e investidores em caso de quebra de instituições financeiras.

Na quinta fase da operação, deflagrada no mês passado, agentes cumprem mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao senador no Distrito Federal e no Piauí. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autoriza as medidas e acompanha os desdobramentos. Procuradores avaliam se a emenda representa um benefício direto ao Master e se há compromisso prévio de repasses ao senador e ao partido.

Ciro nega, de forma reiterada, qualquer prática ilegal. Ele afirma que jamais apresenta emenda para favorecer o Master e sustenta que sua atuação legislativa segue critérios técnicos e de interesse público. O senador se diz alvo de perseguição e lembra que o texto sobre o FGC passa por discussões amplas no Congresso antes de qualquer votação.

A citação a dois senadores em atividade, um deles pré-candidato ao Planalto e outro presidente de partido de peso, projeta o caso Master para o centro da arena política. A cada novo vazamento, cresce a pressão para que o STF, a PGR e a PF demonstrem rapidez e transparência. Aliados de Flávio e Ciro acusam o uso político das investigações, enquanto adversários veem na delação a chance de enfraquecer o bloco bolsonarista e o centrão em plena corrida eleitoral.

Investigações, negociações e o que pode vir a seguir

A nova proposta de delação nasce em uma reunião na sede da PGR, na segunda-feira. Os documentos só são protocolados na terça, o que leva a PF a cancelar um encontro previsto com os advogados de Vorcaro na quarta. Investigadores pedem mais tempo para cruzar dados, checar extratos bancários, analisar mensagens e comparar a versão atual com a que foi rejeitada semanas antes.

A primeira tentativa de colaboração de Vorcaro cai por terra justamente pela falta de completude. Delegados concluem que o banqueiro omite episódios relevantes, inclusive a tratativa de um contrato de R$ 50 milhões com o escritório da advogada Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, para serviços que não chegam a ser formalizados. Essa frente, revelada por O Globo e confirmada pelo Correio, não aparece na nova proposta, o que levanta dúvidas entre integrantes da cúpula judicial sobre o alcance real da delação.

Se o acordo for aceito desta vez, a PF pode abrir novos inquéritos, aprofundar a análise de operações do Banco Master e rastrear a circulação de cada real ligado ao filme “Dark Horse”. O Ministério Público terá de decidir se pede medidas cautelares adicionais contra políticos, como quebra de sigilos e novas buscas, e se antecipa denúncias ao STF antes mesmo da eleição de outubro.

O impacto político também é imediato. A campanha presidencial de 2026 entra em modo defensivo, com partidos redesenhando estratégias de alianças e comunicação. A oposição aposta na narrativa de que o caso revela uma cultura de uso privado de estruturas financeiras para fins eleitorais. O campo bolsonarista reage com o discurso de perseguição, mas monitora, em silêncio, o risco de o caso Master se transformar no fio que puxa um novelo maior de suspeitas sobre o financiamento do projeto de poder da família.

As próximas semanas dirão se a delação de Daniel Vorcaro inaugura uma nova fase da Operação Compliance Zero ou se morre como mais uma tentativa frustrada de acordo. Enquanto PF e PGR pesam riscos e benefícios, o sistema político observa, em alerta, se o roteiro de “Dark Horse” permanece apenas nos cinemas ou passa a ser reescrito nos autos da Justiça.

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