Resultado do 2º turno no Peru segue indefinido e acirra tensão
O Peru amanhece em suspense nesta terça-feira (9), sem saber quem comandará o país pelos próximos cinco anos. Pedro Castillo e Keiko Fujimori seguem empatados dentro da margem de erro, em uma apuração voto a voto que expõe a divisão profunda da sociedade peruana.
País dividido e contagem milimétrica
Aos poucos, a autoridade eleitoral divulga os percentuais que podem redefinir a rota política do país andino. A diferença entre Castillo, professor rural e sindicalista de esquerda, e Keiko, herdeira do fujimorismo e nome da direita liberal, oscila em casas decimais a cada novo boletim. Ambas as campanhas falam em “defesa do voto” e acionam seus exércitos de fiscais.
Nas ruas de Lima e em cidades do interior, bares, praças e casas acompanham a apuração em tempo real pela televisão e pelo celular. O clima é de vigília permanente desde o fechamento das urnas no domingo, em um pleito que mobiliza cerca de 25 milhões de eleitores. A cada atualização da contagem, as redes sociais se enchem de gráficos, suspeitas e versões contraditórias sobre supostas irregularidades.
A indefinição não surpreende analistas que acompanham a política peruana há pelo menos duas décadas. O país realiza seu quarto segundo turno presidencial consecutivo com forte rejeição a ambos os finalistas e fragmentação partidária no Congresso. Em 2021, a diferença final entre Castillo e a própria Keiko foi de apenas 44 mil votos, menos de 0,3% do total válido, após dias de contestação.
O histórico recente pesa sobre o ambiente atual. Desde 2016, o Peru vê a queda de presidentes, prisões por corrupção e choques constantes entre Executivo e Legislativo. A memória desse ciclo alimenta o medo de nova instabilidade, qualquer que seja o vencedor. “Não escolhemos um projeto, escolhemos o que parece menos arriscado”, resume um economista de Lima, que prefere não se identificar.
Economia, direitos sociais e diplomacia em jogo
O resultado apertado não se limita a uma disputa de biografias. Em jogo estão modelos distintos de condução da economia, da política social e da relação com vizinhos latino-americanos. Castillo acena com maior presença do Estado em setores estratégicos, como mineração e gás, e promete ampliar programas sociais mantidos com recursos públicos. Keiko promete estabilidade para investidores, respeito estrito a contratos e redução de impostos para impulsionar o crescimento.
Empresários e trabalhadores acompanham a apuração com interesses distintos. A Confederação Nacional de Instituições Empresariais, que reúne grandes grupos econômicos, já alertou para o risco de fuga de capitais se o desfecho for lido como hostil ao mercado. Sindicatos rurais e urbanos veem em Castillo uma oportunidade de rever regras trabalhistas e ampliar o salário mínimo, hoje em torno de 1.025 soles, o equivalente a cerca de R$ 1.400.
Os efeitos transcendem as fronteiras do Peru. Em meio a mudanças políticas recentes em países como Chile, Colômbia e Brasil, o desfecho peruano é lido como mais um capítulo da redefinição do mapa ideológico da região. Embaixadas estrangeiras em Lima acompanham a apuração minuto a minuto, calculando cenários para acordos comerciais, integração energética e alinhamento em fóruns como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Comunidade Andina.
Organismos internacionais reforçam o discurso de cautela. “É essencial que todas as partes respeitem o resultado oficial e utilizem apenas os canais legais para qualquer contestação”, afirma, em nota, uma missão de observadores vinculada à OEA. A presença de missões externas busca conter denúncias prematuras de fraude, que já circulam em grupos de apoiadores de ambos os lados.
A tensão se soma a um quadro social frágil. O país ainda lida com os efeitos econômicos da pandemia, com crescimento desigual e informalidade que atinge mais de 70% da força de trabalho em algumas regiões. A escolha do próximo governo terá impacto direto em políticas de transferência de renda, investimentos em saúde pública e estratégias para reduzir a pobreza, que voltou a avançar nos últimos anos.
Pressão nas ruas e próximos passos
O prolongamento da apuração deixa o Peru em compasso de espera. Grupos mobilizados de Castillo e Keiko convocam concentrações pacíficas “em defesa da democracia” em Lima e nas principais cidades do interior. Autoridades de segurança temem que manifestações pontuais descambem para confrontos, principalmente em regiões onde a votação foi mais desequilibrada.
No Congresso, partidos já começam a desenhar alianças para o dia seguinte à proclamação do resultado, que pode ocorrer nas próximas 24 a 48 horas, a depender do ritmo da contagem e da análise de atas questionadas. Nenhum dos dois candidatos deve conquistar maioria sólida no Parlamento, o que abre caminho para negociações permanentes e possíveis bloqueios legislativos.
Especialistas em direito constitucional lembram que o sistema peruano permite a destituição presidencial por “incapacidade moral” com maioria simples dos deputados, dispositivo interpretado de forma ampla nos últimos anos. A combinação de vitória apertada, base parlamentar fragmentada e sociedade polarizada aumenta o risco de novos choques institucionais ao longo do mandato que se estende até 2031.
A cada boletim, cresce a pressão por um desfecho rápido e incontestável, algo raro em um cenário tão dividido. A batalha pelo último voto se mistura à disputa pela narrativa, em que cada campo tenta se apresentar como guardião da legalidade e do respeito às regras do jogo. Cabe agora às instituições eleitorais, sob observação interna e externa, entregar um resultado reconhecido pela maioria.
O país segue em vigília, à espera de números finais que ainda podem alterar o quadro nas margens. O que for anunciado nas próximas horas tende a definir não só o próximo ocupante do Palácio de Governo em Lima, mas também o grau de governabilidade, o humor dos mercados e o tom do debate democrático na América Latina nos próximos anos.
