Portugal empata com RD Congo na estreia marcada por Jota e história
Portugal tropeça na largada da Copa do Mundo de 2026. A seleção empata por 1 a 1 com a RD Congo nesta quarta-feira (17), na Cidade do México, em um jogo carregado de simbolismo e pressão. O resultado deixa o Grupo K totalmente aberto e coloca em xeque o peso de Cristiano Ronaldo no desenho da campanha.
Gol cedo, resposta nos acréscimos e um jogo amarrado
O time de Roberto Martínez começa a partida como favorito e confirma essa condição logo no primeiro lance de perigo. Aos 5 minutos, Pedro Neto acha espaço pela esquerda e cruza na medida. João Neves, volante de 19 anos do PSG, entra na área sem marcação, cabeceia firme e abre o placar. É o primeiro gol de Portugal em Copas do Mundo sob o comando do técnico espanhol.
A vantagem precoce muda o desenho do jogo. A RD Congo, que se arma em um 5-3-2 compacto, com todos atrás da linha da bola, se solta alguns metros. Portugal recua meio passo e passa a rodar a bola com paciência, mas sem profundidade. Ronaldo se movimenta, sai da área, tenta tabelas, porém encontra sempre dois zagueiros à frente.
O time africano não acelera de qualquer jeito. Escolhe bem os momentos de sair, aposta na velocidade de Wissa e Bakambu e, sempre que cruza o meio de campo, leva a sensação de perigo. Portugal continua com mais posse e menos ideias. Falta uma jogada surpresa, um passe vertical, algo que quebre as três linhas congolensas bem alinhadas.
O castigo vem nos acréscimos do primeiro tempo. A RD Congo cobra escanteio curto pela esquerda, trabalha a bola com calma e arrasta a marcação portuguesa. Masuaku recebe livre para cruzar. Wissa entra na pequena área sem oposição, cabeceia forte e empata. Diogo Costa nem se mexe. O gol vale mais que o 1 a 1 no placar: é o primeiro da RD Congo em toda a história das Copas, 52 anos depois da única participação, ainda sob o nome de Zaire, em 1974.
Pressão portuguesa, sustos congoleses e Ronaldo em branco
O intervalo não muda o roteiro esperado. Portugal volta com Francisco Conceição no lugar de Bernardo Silva e tenta acelerar pelos lados. A RD Congo mantém o bloco baixo, fecha a área com cinco defensores e aceita passar longos minutos sem a bola. Cada recuperação vira convite ao contra-ataque.
O roteiro quase fica perfeito para os europeus aos 9 minutos do segundo tempo. Bruno Fernandes levanta da direita, João Neves domina de peito e ajeita para trás. João Cancelo pega de primeira, de voleio, e acerta o canto. A comemoração dura poucos segundos. O bandeirinha aponta impedimento do lateral no momento da ajeitada, decisão confirmada em campo.
Ronaldo participa mais da área depois do lance anulado, mas vive uma tarde rara de desperdícios. Aos 22 minutos, Francisco Conceição encontra o camisa 7 livre na marca do pênalti. O capitão tenta bater de primeira, chuta o chão e manda para fora. Seis minutos depois, a jogada se repete quase no mesmo ponto do campo. Desta vez, o chute sai torto, longe do gol, enquanto o estádio inteiro prende a respiração.
A RD Congo não se contenta em apenas se defender. Aos 11, Bakambu recebe quase na pequena área, gira e acerta a trave de Diogo Costa. A arbitragem já marcava falta no começo da jogada, mas o susto fica. Aos 31, o atacante volta a aparecer livre na entrada da área, em novo contra-ataque, e finaliza por cima. Cada ataque africano reforça o recado: com poucos toques, a linha alta portuguesa é vulnerável.
Os minutos finais expõem o dilema de Martínez. Portugal se lança ainda mais, enche a área, arrisca cruzamentos em série. A RD Congo ganha campo, cresce na confiança e passa a acreditar na virada. O jogo fica aberto, imprevisível, com erros técnicos de lado a lado, até o apito final cristalizar o empate que parecia improvável para muitos antes da bola rolar.
Jogo marcado por luto, memória e um retorno ao Mundial
A partida carrega um peso emocional que não aparece só no placar. É a primeira vez que Portugal entra em campo em uma Copa desde a morte de Diogo Jota, em um acidente de carro no ano anterior, ao lado do irmão André Silva. Jota estaria entre os titulares do Mundial. O vazio aparece nas entrelinhas de cada entrevista e no cuidado com a homenagem.
Os jogadores portugueses usam pulseiras com o nome do atacante, presente enviando pelo primeiro-ministro Luís Montenegro. Roberto Martínez decide incluir Jota como “membro honorário” do grupo na convocação oficial. O gesto vira símbolo da tentativa de transformar luto em força. “A gente sente isso e quer ganhar, não só porque é uma Copa do Mundo e é o sonho de todo mundo, mas por ele também”, diz o meia Vitinha antes da bola rolar.
Do outro lado, a RD Congo trata o empate como confirmação de um caminho que parecia improvável há poucos anos. A seleção volta ao Mundial depois de 52 anos fora, período em que o futebol local convive com crises políticas, falta de estrutura e sucessivas frustrações. Em 1974, ainda como Zaire, o time disputa a Copa sob ameaça direta do ditador que controlava o país. A lembrança atravessa gerações e aproxima o elenco atual da torcida.
A classificação para 2026 chega na base da solidez defensiva e da resistência mental. A equipe, comandada por um técnico francês, elimina Camarões e Nigéria nas eliminatórias africanas e sofre para passar pela Jamaica na repescagem intercontinental. O gol decisivo sai dos pés do zagueiro Axel Tuanzebe, formado no Manchester United, já nos acréscimos da prorrogação. O caminho até a Cidade do México ajuda a explicar a serenidade do time ao segurar Portugal.
Grupo K em aberto e pressão imediata sobre Portugal
O empate de 1 a 1 deixa Portugal e RD Congo com um ponto cada e uma liderança provisória compartilhada no Grupo K. Uzbequistão e Colômbia ainda estreiam nesta noite, às 23h (de Brasília), também no Estádio da Cidade do México. A tabela começa comprimida desde o primeiro dia, sem favorito isolado.
Para Portugal, o resultado pesa mais pelo conjunto do contexto do que pela matemática. Um time que se vê candidato ao título perde a chance de largar com três pontos, vê o principal astro desperdiçar duas chances claras e sente a pressão crescer antes mesmo da segunda rodada. Martínez precisa ajustar a criação contra defesas fechadas e decidir até que ponto a equipe joga para Ronaldo ou com Ronaldo.
Para a RD Congo, o empate vale capital político e esportivo. A seleção prova que consegue competir em alto nível, segura um ataque recheado de nomes de grandes ligas europeias e quebra um jejum simbólico de gols que dura desde 1974. A atuação fortalece a narrativa de um time que avança passo a passo, sem cometer o erro de se encantar com o próprio feito.
O Mundial de 2026 registra neste 17 de junho um dia de maior público desde 1994, com estádios cheios em várias sedes e atenção concentrada nos novos formatos de grupos. O Grupo K embarca nessa lógica, com quatro seleções e três rodadas para definir os dois classificados. Cada tropeço tende a custar caro.
Portugal volta a campo pressionado para transformar luto, talento e favoritismo em desempenho concreto. A RD Congo entra na segunda rodada com algo mais raro em estreias de Mundial: a sensação de que já está à altura do palco. A resposta sobre quem aproveita melhor esse início equilibrado começa a ser escrita nos próximos 90 minutos.
