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Pizzaria ligada a investigação do PCC movimenta R$ 566 mil com origem indefinida

A Pizzaria Chatubão, em São Paulo, entra no centro de uma investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao PCC e à prisão preventiva da advogada Deolane Bezerra, decretada em 21 de maio de 2026. Relatórios apontam movimentações financeiras atípicas entre 2018 e 2022, com quase 95% dos recursos sem origem identificada.

Negócio de bairro sob suspeita de lavagem

Aberta em 3 de julho de 2014, a pizzaria funciona como qualquer casa de bairro da zona urbana de São Paulo, mas passa a ser tratada pela polícia como possível engrenagem financeira do crime organizado. O inquérito mira movimentações consideradas incompatíveis com a rotina de um pequeno estabelecimento, em um período que vai de janeiro de 2018 a julho de 2022.

De acordo com os relatórios, a Chatubão movimenta R$ 566.559,27 nesses quatro anos e meio. Desse total, R$ 537.517,72, ou 94,87% das transações, têm origem não identificada no sistema bancário. Os investigadores veem no rastro do dinheiro o desenho típico de uma empresa usada para dar aparência legal a recursos de origem criminosa.

A pizzaria nasce com dois sócios, cada um com 50% das cotas. Um deles morre em abril de 2020 e tinha antecedentes ligados à Lei de Drogas. Mesmo com atividade formal, a empresa não registra nenhum funcionário no período analisado, o que reforça, para a polícia, a hipótese de operação enxuta, voltada menos ao atendimento ao público e mais à circulação de dinheiro.

Os dados bancários chamam atenção pelo contraste entre a imagem de um comércio de porta aberta e a forma como o dinheiro entra na conta. Em 2018, o uso de cartões de débito e crédito soma apenas R$ 0,04 durante todo o ano. Até julho de 2019, a movimentação em cartão chega a R$ 58,35. Para os investigadores, esse padrão destoa do comportamento típico de uma pizzaria, que costuma depender de pagamentos eletrônicos e de aplicativos de entrega.

As entradas em espécie também são classificadas como atípicas. Extratos analisados no inquérito mostram apenas R$ 2.120,00 em depósitos em dinheiro vivo no período, todos sem identificação de CPF ou CNPJ. A baixa quantidade de numerário declarado, diante de um faturamento total superior a meio milhão de reais, reforça a suspeita de que a conta seja usada sobretudo para receber valores fracionados de origem opaca.

Da cadeia de Presidente Venceslau ao caixa da pizzaria

A investigação que leva a Chatubão ao foco da polícia nasce longe dos fornos e balcões do comércio paulistano. Em 2019, agentes apreendem bilhetes e manuscritos dentro da Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, unidade que abriga lideranças do PCC. O material descreve a dinâmica interna da facção, lista contatos e menciona possíveis planos contra agentes públicos.

A partir desses documentos, a polícia abre uma série de inquéritos. A primeira fase concentra-se nos presos encontrados com os papéis, que acabam transferidos para o sistema penitenciário federal. A análise dos manuscritos identifica referências a lideranças da organização e cita uma personagem apresentada como “mulher da transportadora”, apontada como responsável por levantar informações sobre servidores públicos e facilitar a circulação de ordens e valores.

Ao seguir o fio do dinheiro, a apuração alcança empresas que, segundo os relatórios, funcionam como pontos de dispersão de recursos. A Pizzaria Chatubão aparece nesse mapa como parte de uma rede de estabelecimentos usados para fragmentar valores e mascarar a verdadeira origem das quantias. A estratégia, conhecida no jargão policial como “esquartejamento” de depósitos, busca driblar mecanismos de controle bancário e reduzir a chance de comunicação automática ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Os investigadores afirmam que a falta de vínculo formal de empregados, a desproporção entre a movimentação total e o uso de cartões e a origem desconhecida da maior parte dos créditos compõem um quadro compatível com lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. A suspeita é de que a pizzaria sirva de fachada para receitas ligadas ao PCC, embora os relatórios ressaltem que a conclusão final caberá à Justiça.

Em meio ao avanço da operação, o caso ganha outra dimensão quando atinge uma figura conhecida do público. A prisão preventiva da advogada e influenciadora Deolane Bezerra, determinada em 21 de maio de 2026, conecta a investigação de bastidor ao noticiário de grande repercussão. Ela é alvo do mesmo conjunto de apurações que mira a Pizzaria Chatubão e outras empresas tidas como instrumentos financeiros do grupo criminoso.

Prisão de figura pública amplia alcance do caso

A detenção de Deolane provoca reação imediata de sua defesa e alimenta debates sobre o uso de prisões preventivas em crimes financeiros. Em nota divulgada na noite de quinta-feira (21), seus advogados afirmam a “mais absoluta inocência” da cliente e classificam as medidas adotadas como “desproporcionais”. O texto diz que a banca “seguirá cooperando tecnicamente com a Justiça para demonstrar a licitude de suas atividades na condição de advogada” e expressa confiança na “imparcialidade do Poder Judiciário”.

O caso reacende discussões sobre a infiltração de facções criminosas na economia formal. Ao usar empresas com fachada regular, organizações como o PCC interferem na concorrência, pressionam pequenos comerciantes e distorcem preços em bairros inteiros. A suspeita sobre uma pizzaria de rua, com clientela comum, expõe como estruturas aparentemente triviais podem sustentar esquemas milionários de lavagem.

Para o sistema financeiro, operações com origem desconhecida e baixo uso de meios eletrônicos fragilizam a segurança jurídica e exigem respostas de bancos, órgãos de controle e reguladores. A experiência de Venceslau mostra também a importância de rastrear registros manuscritos e bilhetes carcerários, que seguem orientando investigações anos depois da apreensão do material.

Na esfera social, a prisão de uma advogada e influenciadora digital com grande presença nas redes amplia a visibilidade do tema. A associação de figuras públicas a investigações sobre o PCC mobiliza fãs, críticos e especialistas em direito penal, e pressiona o sistema de Justiça a justificar, de forma transparente, a adoção de medidas cautelares mais duras.

Apuração em curso e dúvidas em aberto

A Pizzaria Chatubão segue em funcionamento formal, enquanto a polícia aprofunda a análise de extratos, contratos e vínculos societários. A CNN Brasil tenta contato com os responsáveis pelo estabelecimento desde o avanço da operação; até a última atualização desta reportagem, não havia resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.

Os inquéritos continuam em andamento e ainda dependem de novas diligências, que incluem quebras de sigilo, oitivas e cruzamento de dados fiscais. Caberá ao Ministério Público decidir se apresenta denúncias formais e ao Judiciário examinar se os indícios reunidos sustentam a acusação de lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.

Enquanto isso, a defesa de Deolane prepara recursos contra a prisão preventiva e insiste no direito à ampla defesa e à presunção de inocência. A forma como o caso será conduzido tende a influenciar outras investigações sobre uso de comércios de bairro para turbinar o caixa do crime organizado, em São Paulo e em outros estados.

As próximas decisões judiciais vão indicar até que ponto o material produzido desde 2019, a partir de bilhetes apreendidos em Presidente Venceslau, é suficiente para sustentar acusações contra empresários, intermediários e uma figura pública com alto grau de exposição. A resposta da Justiça definirá não apenas o destino da pizzaria e de seus sócios, mas também os limites da reação institucional à presença do PCC na economia formal.

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