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Petroleiros estatais apagam rastreadores para furar bloqueio em Ormuz

Petroleiros controlados por estatais do Golfo Pérsico cruzam o Estreito de Ormuz com rastreadores desligados entre maio e o início de junho de 2026. As travessias às escondidas, sem luzes e sem uso de rádio, driblam o bloqueio ligado à guerra com o Irã e liberam milhões de barris de petróleo retidos na região.

Como o fluxo escondido ganha corpo

Na costa de Omã, no primeiro fim de semana de junho, 16 petroleiros se agrupam em silêncio e transferem milhões de barris de petróleo que estavam presos no Golfo Pérsico. Há um mês, aquela faixa do mar aparece vazia nas imagens de satélite. Agora concentra uma operação de guerra logística, conduzida por navios que surgem e desaparecem dos radares comerciais.

Esses petroleiros fazem parte de uma frota crescente de embarcações que desligam os transponders, equipamentos que identificam e localizam navios em tempo real. Ao “apagarem” seus sinais, cruzam Ormuz praticamente invisíveis para sistemas públicos de rastreamento e reduzem a percepção de risco de um dos gargalos mais sensíveis do mercado global de energia.

Dados convencionais indicam pouca mudança nos embarques da região desde o início da guerra com o Irã. Imagens do sistema europeu Copernicus e relatos de executivos do setor, porém, contam outra história. Travessias ficam mais constantes, o estreito aparenta menos congestionado e os volumes em direção à Ásia crescem, mesmo sob ameaça de novos ataques.

As manobras ocorrem ao mesmo tempo em que os Estados Unidos intensificam a escolta e a orientação a navios-tanque na hidrovia. Em público, o presidente Donald Trump afirma, em Washington, que “milhões de barris” deixam a região e que os EUA auxiliam a retirada de cargas durante a noite. “Retiramos, na outra noite, 22 navios — tarde da noite, sem luzes, porque eles não têm radar. Temos retirado milhões de barris de petróleo. Todas as noites, retiramos petróleo”, diz ele na Casa Branca.

Operadores descrevem uma rotina que mistura tecnologia e improviso. Alguns petroleiros cruzam Ormuz com as luzes de bordo apagadas, navegando apenas com instrumentos internos e sem usar rádio para evitar escutas. As ordens são diretas: atravessar no escuro, seguir rotas combinadas previamente e só voltar a emitir sinais ao se aproximar de pontos seguros de transferência, sobretudo na costa de Omã e em terminais dos Emirados Árabes Unidos.

Quem ganha com o risco em alto-mar

O fluxo clandestino reduz a pressão imediata sobre o preço do petróleo. Hoje, cerca de 2 milhões de barris por dia de petróleo e derivados saem do Golfo, segundo a consultoria Rapidan Energy Group. O número ainda fica abaixo do normal, mas já supera com folga os volumes registrados no auge dos ataques, quando a região sofre a maior interrupção de fornecimento da história do mercado.

A combinação de travessias discretas, queda das compras chinesas, aumento das exportações dos Estados Unidos e uso intensivo de oleodutos terrestres derruba as cotações em quase 30% em relação ao pico da guerra. O prêmio de risco embutido no petróleo do Oriente Médio encolhe, mas continua remunerando países exportadores que conseguem entregar carga. “Estamos observando um aumento dessa tendência”, afirma Larry Johnson, chefe de fretes da Mercuria Energy Group. “São principalmente, ou exclusivamente, embarcações estatais que estão conseguindo passar”, diz, atribuindo a esses navios “canais de comunicação e meios para garantir passagem segura de alguma forma”.

Empresas como a Abu Dhabi National Oil Co. (ADNOC) mantêm embarques em “ritmo saudável”, segundo pessoas próximas às operações. A estatal vende pelo menos 14 milhões de barris em uma licitação encerrada no fim da primeira semana de junho, com carregamentos previstos ainda para este mês. Imagens de satélite mostram um navio carregando na Ilha de Zirku em seis de oito dias com registros disponíveis em maio, em um terminal que antes da guerra tinha capacidade superior a 1 milhão de barris diários.

O Kuwait segue trilha parecida. Dois superpetroleiros administrados pela Kuwait Oil Tanker Co., com capacidade individual de 2 milhões de barris, cruzam Ormuz no fim de maio e reaparecem transmitindo sinais já na costa kuwaitiana. Depois, somem dos sistemas de rastreamento. Um armador relata ter sido contratado para transportar petróleo transferido desses navios. Outras fontes no mercado acreditam que o país assegura passagem a mais de dois grandes petroleiros no mesmo período.

A TankerTrackers.com identifica, só em 6 de junho, 12 navios carregando petróleo de países árabes não iranianos fazendo transferências fora de Ormuz. “Esse é petróleo vindo dos vizinhos árabes do Irã”, afirma a empresa. “Mais uma razão pela qual o petróleo não está custando US$ 200 por barril neste momento.” Compradores asiáticos, sobretudo em economias dependentes de importação, relatam aumento claro de ofertas para entrega nas próximas semanas.

O movimento também altera o equilíbrio de poder entre armadores. Produtores que controlam frotas próprias evitam pagar fretes considerados proibitivos aos poucos donos de navios dispostos a cruzar a zona de conflito com transponders ligados. Ao assumir o risco operacional, usam a logística como arma econômica e reduzem custos em um momento de forte incerteza.

O estreito como barômetro de uma guerra prolongada

Antes do bloqueio, o Estreito de Ormuz responde por cerca de um quinto de toda a oferta mundial de petróleo em um mercado acima de 100 milhões de barris por dia. Hoje, ainda abriga cerca de 90 grandes petroleiros não iranianos retidos, ante 160 no início de abril, segundo a Signal Maritime. “O fluxo de travessias sem rastreamento aumentou”, diz o analista Georgios Sakellariou. “Isso fica visível na redução do volume de petróleo retido dentro do Golfo, embora ainda não seja suficiente para retornar aos níveis observados antes da guerra.”

As manobras em curso não apagam o risco de uma nova escalada militar. Trump promete novos ataques ao Irã após a derrubada de um helicóptero Apache perto de Ormuz e acusa Teerã de atrasar um acordo de paz provisório. Cada ofensiva reacende o temor de que o estreito volte a se fechar e interrompa de vez o fluxo que hoje sustenta uma frágil estabilidade de preços.

Países do Golfo testam, na prática, até onde conseguem empurrar a logística no limite da legalidade internacional sem provocar reação aberta de rivais. A cooperação informal com os EUA cria um corredor cinzento de segurança, baseado menos em tratados e mais na necessidade de manter combustível circulando.

O mercado, por enquanto, aposta em normalização gradual da oferta. O comportamento dos petroleiros estatais sugere outra leitura. A guerra estende a linha de frente para o tráfego marítimo e transforma o ato de cruzar um estreito em operação militar de alta complexidade. A pergunta que pesa sobre investidores, governos e consumidores é se esse frágil arranjo consegue sobreviver ao próximo choque.

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