Brasileira vive medo em Belfast após onda de ataques a imigrantes
A caminhoneira brasileira Marcela Porto, conhecida como Mulher Abacaxi, relata nesta quarta-feira (10/6/2026) viver escondida em Belfast, na Irlanda do Norte. Protestos violentos após o esfaqueamento de um irlandês por um imigrante sudanês transformam bairros com grande presença de estrangeiros em zonas de tensão permanente.
Medo atrás das portas fechadas
Marcela não volta para casa desde o início da semana. Ela se abriga no imóvel de uma amiga, em um bairro mais afastado do foco dos confrontos, e evita qualquer deslocamento desnecessário. O medo não é abstrato: manifestantes atacam residências de imigrantes, invadem imóveis e incendeiam carros em diferentes pontos da capital norte-irlandesa desde a noite de segunda-feira, 8 de junho.
Nas redes sociais, a rainha da escola de samba Acadêmicos de Niterói descreve o clima nas ruas. “Teve muito protesto aqui ontem. As pessoas foram para as ruas, estão entrando em casas e ateando fogo contra imigrantes. Eu, como imigrante aqui, estou morrendo de medo”, afirma em vídeos publicados nos Stories do Instagram. O ataque a faca, que deixa a vítima irlandesa entre a vida e a morte no hospital, funciona como gatilho para uma onda de ódio que atinge diretamente quem tem passaporte estrangeiro.
Em Belfast, onde vivem pouco mais de 350 mil pessoas, comunidades de origem africana, leste-europeia e latino-americana se concentram em bairros residenciais ao redor do centro. É nessas áreas que os protestos se tornam mais agressivos. Marcela conta que amigos recebem mensagens de alerta em grupos de WhatsApp recomendando que imigrantes não saiam de casa após o anoitecer. “Todo mundo está falando para os imigrantes não irem para a rua, especialmente os brasileiros”, diz.
Escalada de violência e alvo definido
A sequência dos fatos é rápida. Na noite de 8 de junho, um imigrante sudanês esfaqueia um cidadão irlandês em uma rua residencial. Em poucas horas, vídeos e relatos circulam em redes sociais locais, quase sempre sem contexto, e alimentam narrativas de que estrangeiros estariam “ameaçando” a segurança nacional. Grupos se organizam para protestos nas duas noites seguintes. Em vez de manifestações pacíficas, surgem bloqueios de rua, incêndios e ataques coordenados contra casas onde vivem famílias imigrantes.
Marcela percebe a virada de ambiente em questão de horas. Caminhoneira de longa distância, acostumada a cruzar estradas do Reino Unido, ela interrompe a rotina de viagens e busca abrigo imediato. “A minha sorte é que estou na casa de uma amiga. E nem pretendo voltar para a minha casa, que fica em Belfast. Está muito perigoso”, relata. Do lado de fora, relatos de janelas quebradas, portas forçadas e fachadas pichadas com mensagens xenófobas se multiplicam.
A situação atinge em cheio a comunidade brasileira, que cresce de forma constante no Reino Unido desde os anos 2000. Muitos trabalham em serviços de entrega, construção civil, limpeza e setores essenciais da economia local. Agora, motoristas evitam rodar à noite, trabalhadores pedem folga ou mudam trajetos para não cruzar bairros em conflito. Em um cenário em que basta falar português na rua para ser identificado como estrangeiro, a estratégia de sobrevivência passa a ser silêncio e invisibilidade.
Impacto na vida cotidiana e na imagem da região
Os ataques alteram a rotina de centenas de famílias em questão de dias. Escolas recebem pedidos para que crianças imigrantes sejam liberadas mais cedo. Comerciantes que atendem principalmente estrangeiros fecham as portas antes do horário habitual. Grupos comunitários montam redes de apoio improvisadas, oferecendo quartos extras, caronas e orientações de segurança. O medo de sair para trabalhar pesa especialmente sobre quem depende do ganho diário, como entregadores e diaristas.
Marcela, que concilia a vida de caminhoneira com a agenda de rainha de bateria da Acadêmicos de Niterói, sente o impacto psicológico da tensão constante. “Estamos eu e minha amiga quietinhas em casa, porque eles estão entrando nas casas e ateando fogo”, relata. A simples decisão de atravessar o quarteirão vira um cálculo de risco. Cada sirene ao longe reacende a sensação de que a próxima casa atacada pode ser a de um conhecido.
A escalada de violência também afeta a imagem da Irlanda do Norte como destino de trabalho e estudo para estrangeiros. Nos últimos dez anos, o país tenta se consolidar como lugar mais aberto, em contraste com o histórico de conflito sectário que marcou as décadas de 1970 e 1980. As cenas de protestos violentos contra imigrantes, em 2026, reativam memórias de confronto e levantam dúvidas sobre a capacidade das autoridades de conter movimentos xenófobos em formação.
O que pode acontecer a partir de agora
Organizações de defesa de direitos humanos pressionam por medidas rápidas de proteção a comunidades estrangeiras. A expectativa é que autoridades locais reforcem o policiamento em bairros com maior concentração de imigrantes, ampliem canais de denúncia e ofereçam abrigos temporários para quem não se sente seguro em casa. Em paralelo, consulados de países com grande número de cidadãos na região acompanham o quadro e avaliam orientações de viagem e permanência.
Para Marcela e tantos outros, o horizonte imediato é permanecer em locais considerados seguros e reduzir ao mínimo a circulação nas ruas. Ela adia planos, evita falar sobre trabalho e pensa, pela primeira vez, na possibilidade de deixar Belfast caso a situação não se estabilize nas próximas semanas. A forma como autoridades e comunidade local reagem a essa onda de violência definirá se o episódio ficará restrito a alguns dias de terror ou se marcará uma virada duradoura na relação entre irlandeses e imigrantes na Irlanda do Norte.
