Petro denuncia fraude e afronta missões internacionais em eleição na Colômbia
O presidente colombiano Gustavo Petro contesta, nesta terça-feira (2), os resultados preliminares das eleições e fala em fraude, mesmo após missões internacionais avaliarem o pleito como transparente. A ofensiva do Palácio de Nariño aumenta a tensão política em Bogotá e pressiona as instituições eleitorais às vésperas do segundo turno.
Acusações públicas contra o sistema eleitoral
Petro escolhe a rede social X para lançar a denúncia mais dura de seu governo contra o sistema eleitoral colombiano. Em uma sequência de postagens, ele afirma ter “provas comprovadas de possível fraude” e diz que está disposto a entregá-las às autoridades competentes. O alvo são mudanças no cadastro eleitoral e no número de seções de votação, que, segundo ele, distorcem a contagem de votos no primeiro turno.
O presidente rejeita os dados da apuração preliminar do software usado pelo Registro Nacional, controlado pelos chamados irmãos Bautista. Segundo o órgão, o candidato da direita, De la Espriella, aparece na dianteira com 43,74% dos votos, uma vantagem de mais de 673 mil votos sobre o governista Iván Cepeda, que soma 40,90%. Petro não aceita o quadro. “Já disse que não reconheço os dados da apuração preliminar do software dos irmãos Bautista porque tenho os dados”, escreve.
Ele sustenta que houve modificações “no cadastro eleitoral e no número de seções eleitorais” pouco antes da votação, sem transparência suficiente. Na avaliação do presidente, essas mudanças alteram o mapa de votação em regiões-chave, sobretudo nas periferias urbanas e em zonas rurais historicamente favoráveis à esquerda. “Meu compromisso com meu povo e meu amor pelo meu país, pelo qual lutei a vida inteira, me obrigam a arriscar tudo ao compartilhar isso, e o farei agora”, afirma.
A contestação do chefe de Estado ocorre menos de 48 horas depois da divulgação oficial dos resultados preliminares pelo Registro Nacional, no domingo. A mesma postura é adotada por Cepeda, que também questiona o desempenho de seu adversário e o funcionamento do sistema de transmissão de dados. O governo, porém, não apresenta até o momento a documentação detalhada prometida nas redes sociais, o que amplia o vácuo de informações e alimenta interpretações opostas sobre o que está em jogo.
Observadores veem processo transparente e sem fraude
Enquanto Petro fala em fraude, missões internacionais de observação eleitoral reforçam a mensagem oposta. O chefe da Missão Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o ex-presidente da República Dominicana Leonel Fernández, divulga na segunda-feira (1º) um comunicado em que descreve o dia da eleição como “cívico, pacífico e participativo”. Segundo ele, 96 observadores acompanham as diversas etapas do processo, da abertura das urnas à transmissão dos boletins.
Fernández afirma que a contagem dos votos ocorre “de acordo com os procedimentos estabelecidos” e que o material eleitoral permanece “protegido em todos os momentos”. O relato mira justamente o ponto sensível levantado por Petro: a integridade da cadeia de custódia dos votos, do local de votação ao sistema de totalização. Até agora, a missão não identifica irregularidades que indiquem manipulação organizada do resultado.
A União Europeia segue a mesma linha. Em coletiva de imprensa em Bogotá, nesta terça-feira, a Missão de Observação Eleitoral do bloco divulga um comunicado preliminar e classifica o processo como “transparente e confiável”. O chefe da delegação, Esteban González Pons, ressalta que as eleições avançam para o segundo turno “apesar da presença de grupos armados em algumas partes do país, dos questionamentos ao sistema eleitoral e da crescente polarização”.
Diante da imprensa, González é taxativo: na opinião da missão europeia, “não houve fraude”. Ele elogia o peso das instituições democráticas colombianas e afirma que o país “tem instituições democráticas muito fortes e bem estabelecidas, profundamente enraizadas no povo, e o povo colombiano não se deixa interferir”. O recado é dirigido tanto aos críticos internos quanto à comunidade internacional, preocupada com a estabilidade institucional da quarta maior economia da América Latina.
O relatório preliminar da União Europeia destaca ainda que “todos os candidatos puderam verificar a regularidade do processamento dos resultados e não levantaram nenhuma objeção que os coloque em dúvida” durante a noite da eleição. A missão mobiliza 143 observadores de 24 países do bloco, além de representantes da Noruega, Suíça e Canadá, que cobrem 591 seções eleitorais em diferentes regiões. O grupo promete seguir no país até o segundo turno e divulgar um relatório final dois meses após o encerramento do processo.
Tensão política, pressão por auditoria e incerteza à frente
O choque entre o discurso de Petro e os relatos das missões estrangeiras abre uma disputa direta pela narrativa sobre a legitimidade da eleição. Ao questionar os dados oficiais antes da conclusão da apuração definitiva, o presidente mexe na base de confiança do sistema que o elegeu em 2022. A acusação não atinge apenas o Registro Nacional, mas respinga no Judiciário, nos partidos e nas próprias missões internacionais, que passam a ser alvo de desconfiança de setores do governo e de sua base social.
Na prática, a crise aprofunda a polarização e pode redesenhar a campanha para o segundo turno. A esquerda tenta mobilizar eleitores desiludidos com a política tradicional e mira os votos da terceira via, que se dispersam no primeiro turno. A direita, impulsionada pela vantagem numérica de De la Espriella, usa o endosso internacional para se apresentar como guardiã da institucionalidade e da estabilidade econômica. Entre os dois blocos, milhões de eleitores assistem a uma batalha de versões que testa a confiança no voto eletrônico e no sistema de apuração.
Autoridades eleitorais colombianas reafirmam, em notas e entrevistas, que não há evidências de fraude até o momento e prometem transparência nas próximas etapas. Técnicos do Registro Nacional indicam que os partidos e campanhas podem solicitar recontagens parciais, auditorias de software e cruzamento de atas de mesa com os registros digitais. O procedimento é previsto em lei e costuma envolver prazos de dias ou semanas, dependendo do volume de recursos apresentados.
Organizações da sociedade civil, movimentos estudantis e grupos ligados tanto ao governo quanto à oposição já discutem atos de rua em Bogotá e em outras grandes cidades. O risco é que manifestações pacíficas se transformem em confrontos, num país ainda marcado pela memória recente do conflito armado interno e por protestos violentos em 2019 e 2021. Qualquer sinal de repressão excessiva ou de tentativa de interferência política na autoridade eleitoral tende a acender alertas adicionais em Washington, Bruxelas e na região andina.
Nas próximas semanas, a tensão se concentra em três frentes: a apresentação efetiva das provas prometidas por Petro, a resposta institucional do Registro Nacional e dos tribunais, e o comportamento das ruas. Se as autoridades comprovarem a lisura do processo, o presidente terá de administrar o desgaste de ter colocado em dúvida um sistema validado por OEA e União Europeia. Se surgirem falhas graves, a Colômbia entra em um território ainda mais instável, em que a disputa pelo próximo governo se mistura a uma batalha mais profunda pela definição de quem, afinal, tem a última palavra sobre a vontade das urnas.
