Petro contesta apuração e coloca em dúvida primeiro turno na Colômbia
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirma neste domingo 31 que não reconhece o resultado preliminar do primeiro turno presidencial. A contagem indica liderança do advogado ultraconservador Abelardo de la Espriella sobre o senador de esquerda Iván Cepeda, aliado do governo. O segundo turno está marcado para 21 de junho.
Presidente mira software e censo extra de 800 mil eleitores
O confronto começa poucas horas após o fechamento das urnas. A autoridade eleitoral divulga, ainda na noite de domingo, uma apuração preliminar que coloca De la Espriella na frente, com 43,7% dos votos, contra 40,9% de Cepeda. Petro reage pelas redes e desacredita o sistema responsável por esse boletim parcial.
“Os resultados vinculantes que o presidente aceitará são os das comissões dirigidas pelos juízes da República”, escreve, em mensagem que transforma um rito técnico em embate político direto. Na mesma publicação, ele afirma que a contagem preliminar não tem efeito legal e acusa o software contratado pela empresa Thomas Greg & Sons de operar sobre um cadastro inflado.
Segundo Petro, há “dois censos” em funcionamento: o oficial, usado historicamente pelo sistema eleitoral colombiano, e o que roda no programa desenvolvido pelos irmãos Bautista, associado à logística da Thomas Greg. Nesse segundo cadastro, diz o presidente, aparecem 800 mil pessoas a mais. A diferença basta para embaralhar qualquer disputa decidida em margem estreita.
A crítica atinge o coração de um processo que, nas últimas décadas, tenta se blindar de suspeitas por meio da digitalização e da presença de missões de observação internacionais. A contagem preliminar, que serve como termômetro na noite da eleição, nasce da soma das atas preenchidas nas mesas de votação, na presença de fiscais e observadores. Esses números são então digitados no sistema da Thomas Greg, que gera os boletins provisórios contestados por Petro.
Polarização à flor da pele em disputa direita x esquerda
A recusa de Petro ocorre em um país que vive uma década de eleições apertadas e promessas de renovação frustradas. O atual presidente chega ao poder em 2022 como o primeiro líder de esquerda eleito na Colômbia, com um discurso centrado em justiça social, paz com as guerrilhas e mudança no modelo econômico. Enfrenta, desde o início, resistência de setores empresariais, militares e da velha classe política.
De la Espriella se firma como nome da extrema-direita nesse cenário polarizado. Advogado midiático, defensor de posturas duras em segurança pública e alinhado a pautas conservadoras nos costumes, ele se apresenta como alternativa ao que chama de “experimento fracassado” do governo Petro. Cepeda, por sua vez, carrega a bandeira da continuidade e da defesa dos acordos de paz, e constrói sua campanha como referendo sobre o projeto eleito em 2022.
A diferença de 2,8 pontos percentuais entre os dois no primeiro turno, segundo o boletim preliminar, reforça a sensação de país dividido em metades quase equivalentes. Ao colocar em xeque o instrumento que produz esse número, Petro abre uma frente de disputa não apenas entre candidatos, mas entre narrativas sobre a integridade do sistema democrático colombiano.
Analistas políticos em Bogotá veem risco de contágio imediato sobre a confiança do eleitorado nas instituições. Histórias recentes na região, do Brasil aos Estados Unidos de Donald Trump, mostram como ataques à contagem de votos podem se transformar em combustível para mobilizações de rua, denúncias cruzadas e tentativas de deslegitimar governos ainda em gestação.
Entidades de observação eleitoral acompanham o processo colombiano há anos e, até o momento, não divulgam relatório que confirme as suspeitas específicas apontadas por Petro sobre o censo adicional de 800 mil pessoas. A sinalização de que o presidente só aceita o resultado chancelado por juízes, porém, antecipa uma disputa jurídica intensa nas próximas semanas.
Pressão interna, olhos externos e incerteza até 21 de junho
A contestação do primeiro turno projeta incerteza sobre o segundo. A lei prevê que as comissões escrutadoras, formadas por juízes e responsáveis por revisar ata por ata, consolidem o resultado oficial nos dias seguintes à votação. Esse é o número que define, em última instância, quem permanece na corrida e com que vantagem chega ao segundo turno de 21 de junho.
O embate afeta a economia e a imagem externa do país. Investidores medem o grau de estabilidade institucional em meio a uma eleição em que a extrema-direita aparece na frente e o presidente em exercício questiona a ferramenta usada para contar votos. A Colômbia, importante produtora de petróleo e café e peça-chave na política de segurança dos Estados Unidos na região andina, volta ao radar como foco potencial de turbulência democrática.
Organismos internacionais podem intensificar a presença de observadores e pressionar por auditorias independentes no sistema de apuração. Movimentos sociais e organizações pró-transparência avaliam convocar vigílias nas zonas de apuração e campanhas por acesso público mais amplo aos dados, das atas físicas ao código usado no software.
O governo tenta equilibrar o gesto de desconfiança com a necessidade de manter a máquina institucional em funcionamento até o fim do mandato. A oposição de direita, fortalecida pela performance de De la Espriella, explora o episódio para acusar Petro de preparar uma narrativa de fraude preventiva, enquanto evita criticar frontalmente a empresa responsável pelo sistema de apuração.
O calendário eleitoral segue, ao menos no papel. Caberá às comissões judiciais, à autoridade eleitoral e às instâncias internacionais demonstrar, nas próximas três semanas, se a disputa colombiana permanece dentro dos limites de uma democracia em tensão ou se a dúvida sobre 800 mil eleitores se torna o estopim de uma nova crise regional.
