Pesquisa CNT/MDA mostra Lula com avaliação negativa maior que a positiva
A menos de seis meses da eleição presidencial, o governo Lula chega a abril de 2026 com avaliação negativa superior à positiva, segundo pesquisa CNT/MDA divulgada nesta terça-feira (14). O levantamento nacional indica um cenário apertado e confirma a divisão do eleitorado em torno do presidente.
Governo em queda leve e país dividido
O instituto MDA, contratado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), ouve 2.002 eleitores entre 8 e 12 de abril em entrevistas presenciais em todo o país. A pesquisa mostra que 32,1% consideram o governo Lula bom ou ótimo, enquanto 37,2% o avaliam como ruim ou péssimo. Outros 29,4% classificam a gestão como regular, e 1,2% não sabem ou não respondem.
Os números indicam uma oscilação negativa em relação ao levantamento de novembro de 2025, quando a avaliação positiva era de 34% e a negativa, de 36%. A diferença não rompe a margem de erro de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, mas reforça a tendência de desgaste do governo em um ambiente político já polarizado. O registro da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral é BR-02847/2026, com nível de confiança declarado de 85%.
Quando o foco se desloca do governo para a figura do presidente, os índices melhoram um pouco, mas seguem pressionados. A aprovação pessoal de Lula atinge 44,9%, enquanto 49,6% desaprovam seu desempenho. Outros 5,5% dizem não saber ou preferem não responder. A distância entre a percepção sobre o líder e sobre a gestão, embora não seja inédita, ganha relevância em um momento em que o Planalto tenta converter a imagem do presidente em capital eleitoral para a sucessão.
Pressão eleitoral e disputa por narrativas
Os dados chegam ao debate público em um país que entra na reta final do calendário eleitoral de 2026 ainda marcado pelo confronto entre lulismo e bolsonarismo. A pesquisa sugere que uma parcela expressiva do eleitorado não se sente plenamente representada por nenhum dos polos, mas continua ancorada neles na hora de julgar o governo. A avaliação “regular”, na casa de 29,4%, funciona como espelho dessa ambivalência.
Em conversas reservadas, aliados do presidente reconhecem o desgaste, mas apostam no peso da comparação com o governo anterior e na melhora gradual de indicadores econômicos para tentar virar o jogo. Essencialmente, o governo tenta transformar o discurso sobre emprego, salário mínimo, programas sociais e obras em entregas palpáveis até o início oficial da campanha. A pesquisa CNT/MDA funciona como um alerta sobre o tempo escasso para essa estratégia.
O campo conservador, por sua vez, lê os números como sinal de que a rejeição a Lula continua sendo um trunfo mobilizador. Lideranças ligadas à direita e à extrema-direita tendem a explorar o dado de que a avaliação negativa do governo supera a positiva e que a desaprovação pessoal do presidente está na casa de 49,6%. O discurso deve reforçar a narrativa de fadiga do projeto petista, mesmo sem apresentar ainda um nome único e consolidado para a disputa.
Pesquisas como a CNT/MDA não definem o resultado de outubro, mas ajudam a organizar as campanhas. Em ciclos recentes, levantamentos desse tipo servem como bússola para calibrar o tom dos programas de TV, o foco dos anúncios e a agenda de viagens. Em 2022, tanto Lula quanto Jair Bolsonaro ajustam discursos após sucessivas sondagens indicarem a centralidade da economia e da segurança pública. A tendência é que se repita agora, com a inflação sob controle relativo, mas com renda, emprego e sensação de segurança ainda desiguais pelo território.
Impacto na campanha e disputa pelo centro
O ponto mais sensível para o governo é a combinação entre uma base fiel, mas limitada, e um contingente volumoso de eleitores indecisos ou críticos, porém não alinhados automaticamente à oposição. Os 29,4% que veem o governo como regular e os 44,9% que aprovam Lula pessoalmente formam o campo onde se trava a batalha pela narrativa do “Brasil em disputa”. Nesse universo, slogans partidários pesam menos do que a experiência concreta com renda, serviços públicos e segurança.
No Congresso, a leitura dos números tende a endurecer o já complexo jogo de forças. Uma gestão com avaliação negativa maior que a positiva enfrenta mais resistência para aprovar medidas impopulares ou reformas estruturais. Deputados e senadores em busca da reeleição evitam associar a própria imagem a um governo em queda de aprovação. A consequência prática é um Executivo mais pressionado a negociar emendas, cargos e prioridades orçamentárias, o que encarece politicamente cada votação relevante.
O avanço da extrema-direita em vários países, somado aos conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia, também entra no cálculo doméstico. O Palácio do Planalto tenta se apresentar como fiador da estabilidade democrática em meio à turbulência global, enquanto o bolsonarismo insiste na agenda de confronto institucional. A nova pesquisa reforça a ideia de que a ameaça autoritária não desaparece, apenas recua, à espera de brechas para voltar ao centro da cena.
Para o eleitor comum, a disputa se traduz em questões imediatas: o preço do supermercado, a chance de conseguir emprego formal, a qualidade do posto de saúde do bairro. A avaliação de governo, embora expressa em percentuais, nasce dessas experiências cotidianas. Nesse sentido, qualquer recuperação de popularidade depende menos de peças de propaganda e mais da percepção de melhora concreta, sobretudo entre os mais pobres e nas periferias urbanas.
Retas finais e perguntas em aberto
Com o relógio eleitoral correndo, o governo Lula intensifica viagens, inaugurações e anúncios de programas sociais. A meta é converter a aprovação pessoal ainda relativamente alta em votos para seu projeto em 2026 e reduzir o peso da rejeição. A equipe política monitora outras pesquisas, públicas e internas, para medir se a mensagem chega a quem precisa ser convencido.
A oposição, especialmente o campo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, explora cada indicador de desgaste e tenta cristalizar a ideia de que o país está pior. Pré-candidatos de direita usam os dados da CNT/MDA como munição em entrevistas, redes sociais e eventos, procurando associar Lula a promessas não cumpridas e a um governo que perde fôlego. A soma de ataques e contra-ataques alimenta um ambiente de campanha antecipada, mesmo antes do início oficial da corrida.
As próximas sondagens vão mostrar se a pesquisa divulgada agora marca um ponto de inflexão ou apenas uma oscilação dentro da margem de erro. O que se sabe é que a eleição de 2026 volta a colocar em disputa o rumo da democracia brasileira, sob a sombra persistente da extrema-direita. A dúvida que permanece é se o governo conseguirá transformar os próximos meses em uma vitrine de resultados ou se entrará no período eleitoral à defensiva, pressionado por um eleitorado cansado e dividido.
