Pentágono libera 209 relatos de óvnis em base ultrassecreta no Novo México
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos divulga nesta sexta-feira (22) um novo lote de arquivos secretos sobre objetos voadores não identificados, com foco em 209 relatos registrados na base militar de Sandia, no Novo México, entre 1948 e 1950. A liberação ocorre por ordem do presidente Donald Trump e reacende o debate sobre transparência e mistério em torno dos chamados óvnis.
Documentos saem da sombra e detalham série de orbes verdes
O segundo conjunto de arquivos oficializa, em papel timbrado do Pentágono, o que por décadas circula em relatos fragmentados. Entre 1948 e 1950, militares e técnicos de Sandia registram 209 avistamentos de “orbes verdes”, “discos” e “bolas de fogo” no entorno da instalação ultrassecreta, no deserto do Novo México. Um único arquivo, agora liberado, reúne 116 páginas de memorandos, depoimentos e esquemas desenhados à mão.
Os documentos integram um lote de 222 arquivos tornados públicos nesta sexta-feira, parte de um esforço mais amplo de abertura sobre o que o governo americano já chama oficialmente de “fenômenos anômalos não identificados”. A expressão substitui a sigla óvni, mas a curiosidade permanece a mesma. “É hora de o povo americano ver isso por si mesmo”, afirma o secretário de Defesa, Pete Hegseth, em comunicado divulgado junto com o material.
A Casa Branca pressiona o Pentágono desde o início de maio. No dia 8, Trump determina a publicação do primeiro lote de relatórios, fotos e vídeos antes classificados. O presidente se insere em uma linha de governantes que, desde o fim dos anos 1970, abrem gradualmente os arquivos sobre avistamentos aéreos incomuns. A divulgação desta sexta-feira leva esse processo a um terreno sensível: uma base ultrassecreta associada ao desenvolvimento de armas e testes nucleares.
Os relatos de Sandia, segundo o Departamento de Defesa, descrevem luzes que surgem sobre as montanhas, cruzam o céu em trajetórias “não convencionais” e desparecem sem deixar rastros no radar. Alguns observadores falam em esferas esverdeadas que parecem acompanhar aeronaves militares em voo noturno. Outros descrevem discos luminosos pairando em silêncio, por segundos, antes de acelerar em ângulo improvável para a tecnologia da época.
Mistério permanece, mas transparência muda a discussão
Os documentos não oferecem respostas conclusivas. O Pentágono reconhece que boa parte dos registros se apoia em testemunhos visuais, muitas vezes sem comprovação instrumental robusta. Especialistas que analisam o primeiro lote, liberado em 8 de maio, destacam a existência de novos vídeos sobre casos conhecidos, mas reforçam a ausência de “evidências conclusivas de tecnologia alienígena ou vida extraterrestre”. O segundo pacote, com o dossiê de Sandia, segue a mesma linha.
A divulgação, no entanto, muda o patamar do debate. Ao admitir 209 registros em uma única instalação militar, compilados em um intervalo de apenas dois anos, o Departamento de Defesa fornece densidade estatística a um fenômeno antes tratado à margem. Para uma parte da comunidade científica, o material oferece matéria-prima para pesquisas sobre física atmosférica, erros de percepção humana e possíveis efeitos de testes militares secretos na década pós-guerra.
O gesto também responde a uma demanda política interna. Ao longo dos últimos anos, parlamentares republicanos e democratas pressionam por mais transparência em relação aos programas de monitoramento de fenômenos aéreos não identificados. Trump aposta nesse movimento. Ao ordenar, em sequência, a liberação de dois lotes em menos de três semanas, o presidente se apresenta como patrocinador de uma abertura que seus antecessores conduzem de forma mais gradual.
Pete Hegseth explora esse discurso. “Estes documentos, fotos e vídeos alimentam especulações há muito tempo”, diz o secretário. A fala mira não apenas entusiastas de ufologia, mas também um público mais amplo, desconfiado do segredo estatal em um período de polarização política. Ao expor o conteúdo, o Pentágono tenta reforçar a ideia de que não esconde provas de visitas extraterrestres, ao mesmo tempo em que mantém portas abertas para interpretações científicas mais austeras.
Pressão por novas liberações e efeitos além dos EUA
O impacto imediato se espalha por três frentes. No meio acadêmico, universidades e centros de pesquisa dos EUA e da Europa já montam grupos para examinar os 222 arquivos em busca de padrões de comportamento, coerência de testemunhos e possíveis correlações com testes de mísseis, balões de alta altitude ou fenômenos atmosféricos raros. Nos fóruns de ufologia, o dossiê de Sandia rapidamente ganha status de peça central, pela concentração de 209 casos em área estratégica ligada ao programa nuclear americano.
Entre a população, a liberação reforça o fascínio por um tema que mistura ciência, cultura pop e desconfiança do governo. A divulgação de imagens, relatórios e depoimentos alimenta plataformas de vídeo, podcasts e redes sociais, com análises amadoras competindo com a leitura cautelosa de físicos, meteorologistas e ex-militares. Para o público americano, a transparência promete reduzir teorias conspiratórias ligadas a acobertamentos, mas também abre espaço para novas narrativas sobre a incapacidade da ciência atual em explicar tudo o que aparece no céu.
No plano internacional, a decisão de Washington pressiona outros governos a reverem seus próprios arquivos. Países como França, Reino Unido e Brasil mantêm acervos históricos de relatos de óvnis, muitos deles parcialmente abertos nas últimas décadas. A liberação concentrada de 222 arquivos de uma única vez, somada ao lote do dia 8, pode estimular demandas por iniciativas semelhantes em parlamentos estrangeiros, sobretudo onde o tema já circula em comissões de Defesa e Relações Exteriores.
O movimento também tem efeito interno no aparato militar. Ao admitir falhas em explicar parte dos fenômenos, o Pentágono reforça argumentos por mais investimento em sensores, satélites e sistemas de rastreamento aéreo. A área de defesa antimíssil, por exemplo, depende de diferenciações cada vez mais precisas entre aeronaves, detritos espaciais, drones e objetos ainda não identificados. Nesse cenário, até um relato de “orbe verde” de 1949 se torna um dado histórico útil para calibrar modelos de detecção.
Próximos arquivos, mais perguntas e poucos sinais de consenso
O Departamento de Defesa indica que este é apenas o segundo de uma série de pacotes planejados para 2026. Técnicos trabalham na revisão de outros arquivos que cobrem períodos posteriores, inclusive décadas em que a tecnologia de radar, satélite e imagem digital se torna mais sofisticada. A expectativa de pesquisadores é que os próximos lotes tragam dados instrumentais mais robustos, capazes de confirmar ou descartar hipóteses levantadas a partir de relatos de pilotos e sentinelas de base.
No campo político, parlamentares já falam em audiências públicas para discutir o material de Sandia, eventuais falhas de comunicação com a população e os limites da transparência em temas de segurança nacional. O governo Trump, por sua vez, tenta capitalizar a iniciativa como marca de gestão, associando a liberação de óvnis a uma postura de abertura mais ampla. A cada novo documento, porém, cresce também a percepção de que a maior parte desses fenômenos permanece sem explicação clara. A série de orbes, discos e bolas de fogo de Sandia volta ao debate público não como prova de visitas extraterrestres, mas como um lembrete incômodo de quanto ainda falta entender sobre o próprio céu.
