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Calendário de ‘padres sexy’ usa modelos e acende debate em Roma

O calendário de “padres sexy” que circula entre turistas em Roma não traz sacerdotes de verdade. Uma investigação jornalística, revelada neste sábado, 23 de maio de 2026, mostra que os homens são modelos contratados para posar como clérigos.

Sucesso turístico sob suspeita

O produto vira febre nas bancas próximas ao Vaticano desde o fim dos anos 2000, com tiragens anuais que chegam a dezenas de milhares de exemplares. As imagens mostram homens jovens, de batina bem ajustada, olhar direto para a câmera, em cenários que misturam ruas históricas de Roma, interiores de igrejas e estúdios iluminados como editoriais de moda.

A nova reportagem, assinada por um grupo de jornalistas investigativos italianos, desmonta a principal promessa de autenticidade do calendário. O material promocional sugere, de forma ambígua, que os retratados seriam padres reais que circulam pela capital italiana. A apuração identifica contratos de agências de modelos, escalas de ensaios em estúdio e pagamentos que variam de 500 a 1.500 euros por sessão, valores incompatíveis com qualquer atividade ligada ao clero regular.

Os repórteres checam ao menos 12 edições do calendário, de 2014 a 2025, e cruzam os rostos ali exibidos com portfólios online de agências de Milão, Roma e Nápoles. Em mais de 80% dos casos, encontram os mesmos homens em campanhas de moda, fragrâncias e roupas íntimas. Nenhum deles aparece em registros oficiais de dioceses italianas consultadas pela reportagem.

Em uma das passagens da investigação, um modelo é identificado por seu primeiro nome artístico, Marco, ligado a campanhas de verão de uma grande grife italiana. Procurado pelos jornalistas, ele confirma que nunca estudou em seminário e descreve a sessão de fotos como “apenas mais um trabalho”. Segundo o relato, o ensaio dura cerca de oito horas, em um convento desativado na região do Lazio, com troca de figurinos que vão de batinas tradicionais a camisas abertas sob o colarinho clerical.

Marketing, fé e limites éticos

O calendário nasce como souvenir curioso, vendido por cerca de 10 a 15 euros nas lojas que cercam a Praça de São Pedro e ao longo da Via della Conciliazione. Com o tempo, ganha status de objeto de colecionador. Em alguns sites, exemplares esgotados de edições anteriores aparecem por 60 euros ou mais. O apelo se apoia em dois elementos: o erotismo leve das poses e a sugestão de que aqueles seriam religiosos reais, captados em momentos de descontração.

A revelação da farsa atinge um setor específico do turismo romano, que aposta há anos na combinação entre imaginário religioso e entretenimento. Agências estimam que, em 2025, mais de 20 milhões de visitantes passem por Roma, e uma parcela significativa transita exatamente pelas áreas onde o calendário é exibido em vitrines coloridas. O produto se torna, em muitos casos, um presente “engraçado” levado para casa após poucos dias de viagem.

O principal organizador da iniciativa, identificado pela investigação apenas como responsável por uma pequena editora local, defende a campanha. Em resposta escrita aos repórteres, afirma que “o calendário nunca declara explicitamente que os homens são padres ordenados” e argumenta que o projeto “é uma celebração da beleza masculina italiana em cenário romano”. Segundo ele, “o público entende que se trata de uma representação artística, não de documentação religiosa”.

Especialistas em comunicação veem o caso de outra forma. A professora de ética em publicidade da Universidade La Sapienza, Giulia Ferri, diz que a fronteira entre ficção e engano fica borrada. “Quando a campanha constrói toda a narrativa em torno da ideia de padres reais, mas recorre a modelos profissionais sem qualquer aviso claro, a transparência se perde”, afirma. Para ela, o uso de símbolos religiosos, como a batina e o colarinho, exige “responsabilidade acrescida” em um contexto de comércio.

Setores ligados à Igreja Católica reagem com cautela. Um padre ouvido pela reportagem, que pede para não ser identificado por não falar em nome da cúria, considera o calendário “mais um sinal de banalização da figura sacerdotal”. “Não é só questão de mau gosto. É vender uma fantasia que se apoia na confiança que as pessoas têm na Igreja, mesmo quando compram um simples souvenir”, diz.

Transparência, reação do público e futuro do calendário

Tour operadores que atuam na região do Vaticano calculam que a polêmica possa afetar as vendas futuras. Em alta temporada, donos de loja relatam que um único ponto de venda chega a escoar mais de 100 unidades por semana do calendário, somando receitas próximas de 1.500 euros mensais apenas com esse item. Uma queda de 30% nessas vendas, cenário considerado provável por agentes consultados após a revelação, teria impacto direto sobre pequenos comércios que dependem de souvenirs temáticos.

Entre turistas, a reação é ambivalente. Alguns se dizem enganados e falam em “propaganda enganosa”. Outros encaram a descoberta com naturalidade, como se modelos profissionais fossem pressuposto em qualquer produto de imagem. Uma visitante brasileira de 29 anos, citada na apuração, resume essa divisão: “Eu achei que fossem padres mesmo, mas não me surpreende descobrir que são atores. O que incomoda é a sugestão de autenticidade só para vender mais”.

Em Roma, especialistas em turismo religioso avaliam que o caso pode acelerar uma revisão de práticas de marketing que exploram símbolos de fé. Organizações civis já discutem propor regras mais claras de rotulagem para produtos que usem imagens de figuras religiosas, incluindo avisos sobre a natureza encenada das fotos. Uma proposta preliminar fala em prazos de até 12 meses para adaptação de materiais gráficos e sites.

O episódio reforça uma discussão mais ampla sobre o limite entre entretenimento e respeito a quem enxerga nos símbolos católicos algo mais do que um cenário fotogênico. A partir de agora, a continuidade do calendário de “padres sexy” dependerá não apenas do apetite comercial de editores e lojistas, mas também da resposta de consumidores e da pressão de entidades religiosas. A dúvida que permanece em Roma é se a próxima edição virá com a mesma fantasia de autenticidade ou com a transparência que a polêmica de 2026 tornou impossível ignorar.

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