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Palestinos voltam às urnas em Gaza em meio à guerra e sem Hamas

Palestinos na Faixa de Gaza e em territórios sob administração palestina voltam às urnas neste sábado (25), em plena guerra. Pela primeira vez desde o início da ofensiva em Gaza, cerca de 2,2 milhões de eleitores podem escolher seus representantes num pleito sem a participação do Hamas.

Voto em meio a escombros e sirenes

As filas começam cedo diante de escolas danificadas, prédios públicos improvisados e tendas montadas entre destroços. Moradores atravessam ruas com marcas de bombardeio para chegar às seções eleitorais, sob o ruído distante de drones e a incerteza de novos ataques. A votação é tratada por muitos como um gesto de afirmação política em um território onde a rotina é ditada por sirenes, toques de recolher e deslocamentos forçados.

Desde o início da guerra em Gaza, no fim de 2023, estruturas administrativas básicas se desorganizam ou são destruídas. A realização das eleições em 25 de abril de 2026 exige acordos delicados entre a Autoridade Palestina, governos estrangeiros e organizações humanitárias para garantir segurança mínima, transporte de urnas e observadores. Autoridades locais descrevem o dia como um “teste de sobrevivência institucional” para um povo que tenta manter um sistema político funcional enquanto continua sob fogo.

Nos centros urbanos mais atingidos, como Gaza City e Khan Younis, muitos eleitores chegam com documentos protegidos em sacos plásticos, ao lado de sacolas de comida ou mantimentos. Alguns caminham quilômetros porque não há combustível para o transporte público. “Se eu puder votar hoje, sinto que ainda existo como cidadã, não apenas como refugiada”, diz uma professora de 34 anos, deslocada pela terceira vez desde o início da ofensiva.

Disputa sem Hamas expõe reconfiguração política

O pleito ocorre sem candidaturas vinculadas ao Hamas, organização que governa Gaza desde 2007 e é classificada como grupo terrorista por Estados Unidos e União Europeia. A exclusão, resultado de pressões externas e de arranjos internos com a Autoridade Palestina, reordena o mapa político local e aprofunda divisões já evidentes entre facções palestinas. A disputa concentra-se em listas ligadas a Fatah, grupos independentes e movimentos menores, que tentam atrair um eleitorado cansado de lideranças fragmentadas e de promessas não cumpridas.

A última grande votação com participação ampla na região acontece em 2006, quando o Hamas vence as eleições legislativas e passa a desafiar a Autoridade Palestina, sediada em Ramallah. Desde então, o impasse entre as duas principais forças impede renovação institucional consistente. A decisão de prosseguir agora com eleições sem a presença formal do grupo não encerra o conflito político, mas sinaliza uma tentativa de criar novas referências de poder e representação para uma população traumatizada por anos de bloqueio e sucessivas escaladas militares.

Analistas ouvidos por organizações internacionais veem o processo como um marco, ainda que imperfeito. “É um voto sob ocupação, sob bombardeio e com atores centrais fora da disputa”, resume um pesquisador de direitos humanos com atuação na região. “Mas, para muitos palestinos, é a única forma concreta de dizer que ainda há sociedade, não apenas ruínas.” A presença de observadores estrangeiros, limitada pelas condições de segurança, busca dar algum peso aos resultados e conter acusações de fraude.

Nas cédulas e telas das urnas eletrônicas improvisadas aparecem propostas que vão da reconstrução de bairros inteiros à reorganização das forças de segurança locais. A maioria das plataformas cita números dramáticos: centenas de milhares de deslocados internos, infraestrutura hospitalar reduzida a menos da metade da capacidade pré-guerra e serviços básicos intermitentes. A mensagem é clara para os eleitores: quem vencer terá de administrar não apenas um território em disputa, mas uma crise humanitária prolongada.

Legitimidade, reconstrução e a batalha pela narrativa

A realização das eleições em plena ofensiva militar tem impacto direto na forma como o mundo enxerga a causa palestina. Governos europeus e agências da ONU acompanham o processo como um indicativo de que ainda há espaço para estruturas civis e para algum tipo de autogoverno, mesmo sob forte pressão militar e política. O índice de participação é visto como termômetro crucial: se a adesão superar 60%, diplomatas avaliam que a liderança eleita ganha fôlego para reivindicar voz em negociações sobre cessar-fogo, reconstrução e segurança.

O resultado também redefine quem fala em nome dos 2,2 milhões de habitantes de Gaza e de outros territórios sob administração palestina. Grupos próximos à Autoridade Palestina tentam capitalizar o momento para reforçar sua legitimidade internacional, enquanto simpatizantes do Hamas acusam o processo de excluir uma parte significativa da sociedade. “Sem todas as forças na disputa, qualquer parlamento nasce com um vazio”, afirma um analista político em Ramallah. “Mas, para a população sitiada, um parlamento incompleto pode parecer melhor do que nenhum.”

Na prática, a nova configuração política influencia o ritmo e o desenho de eventuais acordos de reconstrução, estimados por agências internacionais em bilhões de dólares ao longo de pelo menos dez anos. Projetos de reabertura de escolas, hospitais e sistemas de água dependem de autoridades reconhecidas como interlocutoras confiáveis por doadores e países vizinhos. A votação desta semana oferece esse ponto de apoio, ainda que frágil. Ela também pressiona Israel, Egito e outros atores regionais a definir com quem negociar pontos sensíveis como controle de fronteiras, circulação de bens e segurança.

Organizações de direitos civis apontam ainda o simbolismo de um ato eleitoral realizado sob bombardeio contínuo. Em relatórios prévios, grupos locais registram que mais da metade dos eleitores aptos em Gaza tem menos de 30 anos e nunca participou de um processo político amplo. “Para essa geração, a palavra ‘eleição’ sempre veio acompanhada de adiamentos, divisões internas e vetos externos”, escreve uma ONG palestina em nota. A presença deles nas filas, mesmo sob risco constante, funciona como mensagem direta de que a sociedade não aceita ficar reduzida a estatística de guerra.

Pressão por resultados rápidos e dúvidas no horizonte

Os próximos dias são decisivos. A contagem de votos precisa ocorrer em ritmo acelerado, sob risco de novos deslocamentos forçados interromperem o processo. Autoridades eleitorais trabalham com a meta de anunciar resultados preliminares em até 72 horas, para reduzir o espaço para contestações e boatos. Qualquer atraso alimenta desconfiança em uma sociedade marcada por disputas internas e por interferências externas constantes.

Uma vez definidos os vencedores, a pressão se desloca para a formação de um governo capaz de operar em cenário de destruição, bloqueio parcial e dependência pesada de ajuda internacional. Deputados e conselheiros eleitos terão de negociar entre si, com a Autoridade Palestina e com governos estrangeiros, muitas vezes em mesas separadas e sob agendas conflitantes. No horizonte imediato, surgem perguntas sem resposta clara: a nova liderança conseguirá falar em nome de uma população fragmentada, sob bombardeio, e ainda assim influenciar negociações de cessar-fogo e reconstrução? Ou o voto de 25 de abril de 2026 ficará registrado sobretudo como um gesto de resistência democrática em meio aos escombros?

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