Ultimas

Generais assumem comando estratégico do Irã sob líder ferido

Mojtaba Khamenei, 56, líder supremo do Irã desde abril de 2026, transfere na prática o comando de guerra, segurança e diplomacia a um conselho de generais da Guarda Revolucionária. A mudança ocorre após os ferimentos graves que o deixaram recluso desde o bombardeio que matou Ali Khamenei em 28 de fevereiro. O arranjo consolida o poder dos militares linha-dura e enfraquece a influência dos clérigos em Teerã.

Líder recluso, conselho militar em ascensão

O novo centro de poder iraniano funciona longe das câmeras e das praças oficiais. Mojtaba se esconde em um local mantido em sigilo absoluto, cercado por médicos, cirurgiões e poucos auxiliares civis. Com o rosto queimado, dificuldades para falar e uma perna à espera de prótese, ele governa por bilhetes manuscritos, assinados e enviados por mensageiros em carros e motos que cruzam rodovias e estradas secundárias.

Nesse vácuo físico de poder, generais experientes da Guarda Revolucionária ocupam a frente das decisões. São eles que definem a estratégia de guerra contra Estados Unidos e Israel, as ofensivas de mísseis na região, o fechamento do estreito de Hormuz e até os limites de qualquer negociação nuclear. Mojtaba acompanha, opina por escrito, mas raramente confronta o grupo que o ajudou a chegar ao posto máximo da República Islâmica.

“Mojtaba está administrando o país como se fosse o diretor de um conselho”, diz Abdolreza Davari, ex-assessor sênior do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, que conhece o líder. “Ele depende fortemente dos conselhos e orientações dos membros do conselho, e eles tomam todas as decisões coletivamente. Os generais são os membros do conselho.”

O desenho desse poder coletivo, descrito por ao menos 20 fontes internas ao regime, marca uma ruptura silenciosa em relação à era de Ali Khamenei. Durante mais de três décadas, o aiatolá morto no primeiro dia da guerra atua como árbitro único de temas vitais, da paz ao programa nuclear. Agora, um líder menos carismático, debilitado fisicamente e com influência religiosa limitada compartilha autoridade com um aparato militar que já controla inteligência, economia e política.

Da guerra Irã-Iraque ao comando dos bastidores

Mojtaba não chega ao topo do sistema por acaso. Aos 17 anos, ele se voluntaria para lutar na guerra Irã-Iraque e serve em um batalhão da Guarda chamado Habib. O front cria laços profundos com oficiais que hoje ocupam postos-chave no Estado, da chefia do Exército paralelo à direção do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Mais tarde, ao atuar no gabinete do pai, ele coordena operações militares e de inteligência, sempre em sintonia com o mesmo círculo de generais.

Quando um ataque aéreo dos EUA e de Israel atinge o complexo residencial de Ali Khamenei em 28 de fevereiro, matando o líder, a nora e um neto, esse grupo reage de forma coesa. A guerra aberta acelera a sucessão, e a Guarda se une em torno de Mojtaba. O conselho de clérigos que formaliza a escolha apenas chancela um movimento já articulado pelos militares, que veem no filho do aiatolá um aliado orgânico e dependente de sua proteção.

Ali Vaez, analista especializado em Irã, resume a assimetria: “Mojtaba não é supremo. Pode ser líder no nome, mas não é supremo como seu pai era. Mojtaba é subordinado à Guarda Revolucionária porque deve sua posição e a sobrevivência do sistema a eles.” O cálculo no topo do regime é simples: diante de uma guerra que já causa perdas estimadas em US$ 300 bilhões, os militares acreditam que só um comando duro e centralizado evita o colapso interno.

A prática confirma esse raciocínio. O general Ahmad Vahidi, comandante-chefe da Guarda, e o general Mohammad Bagher Zolghadr, recém-nomeado chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, lideram a formulação das ofensivas e do calendário de negociações. Outro veterano, o general Yahya Rahim Safavi, aconselha Mojtaba como fazia com o pai, mas agora num arranjo em que a caserna dita o ritmo.

Poder militar define guerra, economia e diplomacia

O efeito mais visível dessa reconfiguração ocorre nas frentes de guerra e diplomacia. A Guarda planeja o fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, e usa o impacto imediato nos mercados como ferramenta de pressão política. São também os generais que coordenam ataques a Israel e a Estados do Golfo, calibrando a intensidade dos bombardeios para testar limites de Washington e das capitais árabes.

Dentro do Irã, a hierarquia civil perde espaço. O presidente Masoud Pezeshkian, cirurgião cardíaco e defensor de algum diálogo com o Ocidente, é instruído a concentrar-se em tarefas domésticas: garantir comida, combustível e funcionamento básico do país. O chanceler Abbas Araghchi, que negociava com os EUA antes da guerra, é afastado das conversas mais sensíveis. O presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, ex-general da Guarda, assume a mediação direta com Washington, inclusive nas tratativas em Islamabad com J. D. Vance.

Essa militarização chega ao coração do dossiê nuclear. A mesma cúpula que fecha o estreito também decide se o Irã aceita congelar o enriquecimento de urânio e renunciar a um estoque de 440 quilos de material altamente enriquecido, ponto central das exigências americanas. A ala mais radical dentro do regime rejeita qualquer concessão e aposta que a resistência prolongada enfraquece Israel e os EUA. Seus apoiadores lotam ruas em manifestações noturnas, prometendo “dar o sangue” pela República Islâmica e acusando negociadores de traição sempre que falam em aliviar o cerco.

As divergências explodem na véspera de uma segunda rodada de conversas em Islamabad. Com 27 navios iranianos barrados por um bloqueio marítimo americano e duas embarcações apreendidas, Vahidi e outros generais concluem que Donald Trump não busca acordo, mas rendição. Pezeshkian e Araghchi defendem continuar negociando para conter o dano econômico, mas perdem a queda de braço. Os generais apertam o freio, suspendem o voo da delegação e deixam o presidente dos EUA falar sozinho nas redes sociais sobre uma suposta “liderança fragmentada” em Teerã.

Irã entra em era de comando coletivo armado

A nova arquitetura de poder não elimina as velhas disputas entre facções, mas redefine quem arbitra o conflito interno. Reformistas, conservadores e linha-dura continuam presentes em conselhos e cargos, porém o desfecho das principais decisões passa pelo núcleo militar. O sistema, concebido para equilibrar clérigos, presidente e forças de segurança, passa a gravitar em torno da Guarda, enquanto Mojtaba atua como fiador religioso e símbolo de continuidade da Revolução de 1979.

Diplomatas e analistas em capitais ocidentais veem três riscos imediatos. O primeiro é a rigidez em qualquer negociação de paz com os EUA, inclusive sobre o programa nuclear, num momento em que Trump mantém o bloqueio naval e estende um cessar-fogo frágil. O segundo é a possibilidade de novos choques no estreito de Hormuz, com impacto direto sobre preços de energia e inflação global. O terceiro é a escalada das tensões internas no Irã, onde uma população exausta da crise econômica observa um governo cada vez mais armado e menos transparente.

No curto prazo, pouco indica que Mojtaba retomará o controle pessoal que o pai exercia sobre a máquina do Estado. A recuperação física se arrasta, cercada de sigilo, e o medo de um novo ataque impede visitas frequentes de autoridades ao seu refúgio. Enquanto isso, os generais testam limites, consolidam espaço e calibram a intensidade das operações militares e diplomáticas.

O futuro imediato do Irã, e em alguma medida da estabilidade do Oriente Médio, passa por esse conselho de farda que ganhou voz decisiva em Teerã. Resta saber até quando o país aceitará um líder que governa por bilhetes e um regime em que a palavra final sobre guerra e paz sai, cada vez mais, do quartel.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *