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Novo fechamento em Ormuz reacende temor de crise prolongada do petróleo

O Estreito de Ormuz volta a ser fechado e controlado pelo Irã após uma breve reabertura neste fim de semana, em meio à guerra que entra na oitava semana. O recuo paralisa novamente uma rota por onde passam 20% das exportações globais de petróleo e expõe a fragilidade das negociações entre Estados Unidos e Teerã no Paquistão.

Tráfego interrompido após novos ataques e bloqueio naval

O vai e vem em Ormuz fica evidente no comportamento do tráfego marítimo. Depois de uma curta suspensão dos ataques americanos e israelenses, alguns navios voltam a se arriscar na passagem entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã. A trégua dura pouco. Dois cargueiros registrados na Índia relatam ter sido atacados no sábado, 18 de abril, ao tentar cruzar o estreito. Horas depois, os dados de rastreamento indicam um silêncio incomum nas telas de monitoramento.

Na madrugada de domingo, um petroleiro de bandeira chinesa e um navio de gás de propriedade indiana aparecem navegando rumo ao leste. As duas embarcações acabam dando meia-volta. Desde a meia-noite de domingo, no horário GMT, nenhum outro navio entra ou sai do Golfo, segundo registros da plataforma MarineTraffic. O estreito, artéria por onde passa um quinto do petróleo comercializado no mundo antes da guerra, volta a se comportar como uma via fechada.

Os Estados Unidos respondem com um bloqueio naval, direcionado principalmente a embarcações ligadas ao Irã. A medida tem discurso de combate ao financiamento de Teerã, mas reforça, na prática, a percepção de que qualquer navio que se aproxime da região se torna parte de um jogo de pressão militar e econômica. De um lado, o Irã reforça o controle físico do estreito. De outro, a frota americana tenta modular quem pode circular e em quais condições.

Energia mais cara e cadeias globais sob pressão

A escalada em Ormuz já provoca o choque mais severo nos suprimentos de energia em décadas. Em oito semanas de conflito aberto, iniciado em 28 de fevereiro com ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e alvos no Líbano, o mercado de petróleo assiste a saltos diários de preços. Traders trabalham com cenários de oferta incerta para os próximos meses, enquanto importadores e refinarias correm para garantir contratos alternativos.

Alexis Ellender, analista sênior da empresa de dados marítimos Kpler, resume o clima de cautela. “Estamos muito longe de retornar ao comércio normal”, afirma. Segundo ele, a reabertura parcial, seguida pelo novo fechamento do estreito, só amplia a sensação de risco. “Em termos de navios voltando à região, potencialmente para carregar uma carga de petróleo bruto ou fertilizante, as pessoas serão muito, muito cautelosas.”

O impacto vai além do combustível que abastece carros e aviões. Fertilizantes nitrogenados e fosfatados também dependem das rotas do Golfo. Ellender lembra que as safras de 2026 e de 2027 entram na conta. “Estamos falando de safras que as pessoas estão apenas começando a plantar ou até mesmo das posições das safras para o próximo ano”, diz. Nos Estados Unidos, produtores já sinalizam aumento do plantio de soja, que exige menos fertilizante do que o milho. No Sul da Ásia, a perspectiva é de queda na produtividade por falta de insumos.

As seguradoras marítimas reprecificam rapidamente o risco. Apólices para a região de Ormuz sobem várias casas decimais, encarecendo o frete e, por consequência, o preço final do barril. Ellender prevê que os prêmios de risco não voltam ao patamar anterior mesmo se o estreito for reaberto de forma sustentada. “As coisas não retornarão às condições anteriores à guerra”, diz. O efeito se espalha por toda a cadeia de transporte, de graneleiros a porta-contêineres, que passam a considerar rotas mais longas para evitar o gargalo.

Diplomacia frágil e horizonte de recuperação lento

Enquanto navios manobram para longe de Ormuz, a diplomacia tenta se aproximar em Islamabad. O Paquistão abriga a primeira rodada de conversas diretas entre Estados Unidos e Irã em décadas. As reuniões, porém, terminam sem acordo na semana passada. A capital paquistanesa se prepara para uma nova tentativa neste sábado, 25 de abril, sob um clima de segurança menos rígido que o da estreia, quando o vice-presidente americano JD Vance lidera a delegação de Washington.

Nos arredores do Hotel Serena, sede das conversas, rolos de arame farpado continuam estendidos, mas o movimento interno muda de tom. O hotel avisa hóspedes que precisam deixar os quartos por causa de um evento de governo e suspende reservas por tempo indeterminado. A substituição do time americano também chama atenção. Em vez de Vance, a Casa Branca envia o empresário Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Donald Trump e figura-chave em negociações no Oriente Médio no passado recente.

Do lado iraniano, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, tenta baixar as expectativas. Ele desembarca em Islamabad na sexta-feira, 24 de abril, mas nega que vá se reunir com autoridades americanas. Segundo sua versão, a visita se limita a encontros com representantes do governo paquistanês. Publicamente, Teerã repete que não aceita “exigências maximalistas” e insiste em um cessar-fogo que inclua o fim dos ataques contra seu território.

No mercado, a pergunta central não é mais se o estreito volta a operar, e sim como e por quanto tempo. Ellender estima que, mesmo em um cenário benigno, a normalização é lenta. No primeiro mês após uma eventual reabertura estável, apenas cerca de 25% do fluxo normal retorna. Depois disso, começa o que ele chama de fase de “observação e espera”, com recuperação para algo entre 30% e 50% do volume pré-guerra. Só após mais seis semanas, sem novos ataques ou incidentes, teria início uma etapa de normalização mais robusta.

Mesmo nesse cenário otimista, a região sai diferente. Países do Golfo aceleram projetos para reduzir a dependência de Ormuz, com oleodutos atravessando o deserto e portos alternativos fora do estreito. Governos discutem ampliar terminais em águas mais seguras para contêineres e derivados, numa tentativa de redesenhar o mapa da logística de energia. “Tendo visto os eventos das últimas semanas, eles definitivamente investirão nisso”, afirma Ellender.

O estreito volta a ser o centro de uma crise que mistura tanques, navios e mesas de negociação. Cada dia de bloqueio alimenta a percepção de que a normalidade de antes não retorna tão cedo. Consumidores, produtores e governos olham para Ormuz não apenas como um ponto de tensão atual, mas como um teste de estresse para o sistema energético global. O desfecho das conversas em Islamabad indica o próximo capítulo, mas a pergunta que fica, no mercado e nas capitais, é se ainda é possível falar em “normal” quando uma artéria tão estratégica permanece sob ameaça constante.

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