Guerra no Irã corrói vantagem militar dos EUA diante da China
A guerra no Irã reduz a vantagem militar dos Estados Unidos em relação à China e pressiona o sistema de alianças de Washington. A avaliação, baseada em dados do Departamento de Defesa e do Congresso americano, ganha força neste 25 de abril de 2026, em meio ao desgaste financeiro e político do conflito.
Custos recordes e arsenal pensado para a China se esgota no Golfo
O conflito no Golfo Pérsico consome quase US$ 1 bilhão por dia, segundo números apresentados ao Congresso em Washington. O ritmo de gasto lembra uma guerra total, mas ocorre sem ganhos claros de posição estratégica. O Exército, a Marinha e a Força Aérea drenam munições concebidas para um cenário muito diferente: um confronto de alta intensidade com a China no Indo-Pacífico.
Os EUA já dispararam cerca de 1.100 mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance, metade do estoque disponível. São armas caras, com grande alcance e baixa chance de detecção, desenvolvidas para penetrar as defesas aéreas chinesas em uma guerra que o Pentágono sempre tratou como a ameaça central deste século. No lugar disso, boa parte desse arsenal se perde em alvos iranianos, em uma escalada que se mostra difícil de encerrar.
As Forças Armadas lançam mais de mil mísseis Tomahawk, munição clássica dos ataques americanos desde a Guerra do Golfo, mas cuja reposição não acompanha o ritmo do conflito. O Departamento de Defesa compra, em média, cem Tomahawks por ano. A conta não fecha. Entre 1.500 e 2 mil mísseis de defesa antiaérea de alta complexidade, como Thaad, Patriot e Atacms, também já foram utilizados. Técnicos do próprio Pentágono estimam que a recomposição desses estoques pode levar até seis anos, dependendo da capacidade da indústria e das prioridades políticas em Washington.
O colunista Lourival Sant’Anna, que acompanha o tema de perto, resume a equação estratégica: o arsenal pensado para conter Pequim se esvai em uma guerra de desgaste com Teerã. A frase do chanceler indiano Subrahmanyam Jaishankar, dita na Conferência de Segurança de Munique em 2024, ecoa com força renovada: “Há duas décadas, a China ganha sem lutar, enquanto os EUA lutam sem ganhar”.
Alianças em fratura e avanço silencioso do dinheiro chinês
O problema não se limita a depósitos de munição ou planilhas de orçamento. A estrutura de alianças construída pelos Estados Unidos ao longo de décadas, pensada para conter China e Rússia em três continentes, começa a mostrar rachaduras expostas. O Quad, grupo que reúne EUA, Índia, Japão e Austrália, deixa de realizar suas reuniões anuais de cúpula desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025. O presidente demonstra pouco interesse em manter o fórum ativo.
A próxima cúpula, prevista para maio deste ano, simboliza essa inversão de prioridades. Trump decide viajar à China, justamente o país que o Quad pretendia conter, e ignora Nova Délhi, que seria a anfitriã. O gesto irrita discretamente a diplomacia indiana e alimenta a percepção, em capitais asiáticas, de que os Estados Unidos já não oferecem a mesma previsibilidade de antes.
Na Europa, a Otan, criada para frear a União Soviética e hoje voltada para conter a Rússia, vira alvo constante de ataques verbais do presidente americano. A aliança, que depende do compromisso explícito de defesa mútua, precisa lidar com declarações presidenciais que relativizam esse compromisso. O desgaste político se soma ao desgaste militar no Golfo, alimentando dúvidas sobre a disposição dos EUA em assumir riscos para proteger aliados.
Pequim explora cada fresta. A antiga ambição chinesa de reduzir a dominância do dólar nas transações globais ganha impulso direto com o conflito. Países que continuam comprando petróleo iraniano buscam caminhos para escapar das sanções americanas e encontram abrigo na rede financeira da China. Dados do Atlantic Council indicam que pagamentos processados pelo sistema chinês saltam quase 50% em um mês, de US$ 86 bilhões para mais de US$ 131 bilhões por dia.
O renminbi ainda responde por apenas 3% das transações globais, mas a lógica não é substituir a moeda americana e sim driblar seu poder. Basta um canal alternativo que funcione em emergências para reduzir a capacidade de Washington de estrangular rivais pelo sistema financeiro. Ao menos dois navios pagam um “pedágio” ao Irã em renminbi, segundo a Lloyd’s List Intelligence, num sinal de que a prática deixa de ser exceção e começa a entrar no cálculo de empresas e governos.
No Oriente Médio, o saldo político da presença americana também se inverte. A derrubada de Saddam Hussein, em 2003, abre espaço para o Irã projetar poder sobre o Iraque, de maioria xiita. Duas décadas depois, as monarquias árabes do Golfo encaram o custo dessa escolha. A aliança estreita com Washington as transforma em alvo direto dos bombardeios iranianos. As decisões de Trump, ao ampliar a guerra no Irã, aprofundam essa sensação de vulnerabilidade e estendem o mal-estar para a Ásia e a Europa.
Equilíbrio global em transição e disputa que se desloca para o amanhã
A soma de munição escassa, alianças em dúvida e avanço financeiro chinês produz um quadro de transição acelerada de poder. A vantagem comparativa americana, antes clara no terreno militar e na capacidade de sancionar adversários, deixa de ser incontestável. A China acumula ganhos sem disparar um tiro, enquanto observa o rival se envolver em mais um conflito caro e politicamente divisivo.
Na prática, quem depende da proteção americana começa a fazer contas. Governos na Ásia, na Europa e no Oriente Médio avaliam se é prudente amarrar seu futuro de segurança a um aliado que gasta US$ 1 bilhão por dia em uma guerra distante de seus próprios territórios. A demora de até seis anos para recompor estoques críticos de mísseis pesa em simulações de guerra e reposiciona a China como um competidor menos intimidado pelo poderio de Washington.
O tabuleiro econômico se move na mesma direção. A ampliação do uso do renminbi e da infraestrutura financeira chinesa nas vendas de petróleo iraniano cria um precedente incômodo para o Tesouro americano. Se mais países seguirem o atalho, a ameaça de cortar o acesso ao dólar perde parte da força. Empresas e bancos que hoje se curvam às sanções podem, no futuro, contar com redes alternativas mais robustas, reduzindo a capacidade dos EUA de impor sua vontade sem usar força militar.
No curto prazo, a Casa Branca precisa decidir até onde levará a guerra no Irã e quanto está disposta a sacrificar de seu preparo para um eventual confronto com a China. No médio prazo, o desafio é reconstruir estoques, credibilidade diplomática e confiança na liderança americana. A pergunta que se impõe nas capitais ocidentais é direta: quando essa guerra acabar, os Estados Unidos ainda serão o mesmo fiador de segurança global que foram nas últimas sete décadas?
