Trump cancela ida de delegação ao Paquistão e negociação com Irã patina
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancela neste sábado (25) a viagem de sua delegação a Islamabad, no Paquistão, para encontros com representantes do Irã. A decisão ocorre horas depois de o chanceler iraniano Abbas Araghchi deixar a capital paquistanesa, após uma rodada de reuniões mediadas pelo governo local. O gesto dos dois lados expõe o impasse nas tentativas de reaproximação entre Washington e Teerã.
Rede social antecipa recado duro à liderança iraniana
Trump escolhe novamente as redes sociais para anunciar uma mudança de curso em política externa. Em mensagem publicada na Truth Social, ele afirma ter desistido da missão por insatisfação com o ritmo das tratativas e por falta de clareza sobre quem manda em Teerã. O presidente sustenta que não vê motivo para enviar assessores a uma viagem de 18 horas até o Paquistão sem garantia de avanço concreto.
“Acabei de cancelar a viagem dos meus representantes a Islamabad, no Paquistão, para se encontrarem com os iranianos. Muito tempo perdido em viagens, muito trabalho!”, escreve. No mesmo texto, ele acusa o regime iraniano de viver uma disputa intensa de poder. “Há uma enorme disputa interna e confusão dentro da ‘liderança’ deles. Ninguém sabe quem está no comando, nem mesmo eles. E nós temos todas as cartas na manga, eles não têm nenhuma! Se quiserem conversar, basta ligar!!!”, completa.
Pouco antes da publicação, Trump já havia sinalizado a mudança em entrevista à emissora americana Fox News. Ele relata ter interrompido os preparativos da equipe diplomática às vésperas do embarque. “Eu disse à minha equipe agora há pouco – eles estavam se preparando para partir –, e eu disse: ‘Não, vocês não vão fazer um voo de 18 horas para ir até lá. Nós temos todas as cartas. Eles podem nos ligar quando quiserem, mas vocês não vão mais fazer voos de 18 horas para ficarem sentados conversando sobre nada’”, afirma.
A decisão interrompe o esforço do Paquistão para sediar uma segunda rodada de conversas indiretas entre Estados Unidos e Irã, após encontros de início de abril não terem destravado os pontos mais sensíveis. Islamabad tenta se firmar como ponte entre os dois rivais, em meio a uma região pressionada por conflitos e pelo risco de novos ataques.
Saída de chanceler iraniano reforça clima de impasse
No lado iraniano, o recado também vem na forma de movimento calculado. Fontes em Teerã informam à CNN que Abbas Araghchi deixa Islamabad no mesmo dia, após as reuniões com mediadores paquistaneses. Uma autoridade do Paquistão que acompanha as negociações relata que o chanceler apresenta a lista de exigências de Teerã para um eventual acordo e detalha as reservas do país em relação às demandas americanas.
Em comunicado divulgado em seu canal oficial no Telegram, Araghchi afirma ter “explicado as posições de princípio do nosso país em relação aos últimos desenvolvimentos relacionados ao cessar-fogo e ao fim completo da guerra imposta contra o Irã”. A mensagem mantém o tom duro adotado por Teerã desde o início das conversas. Questionada pela agência Reuters sobre o grau de flexibilidade iraniana, uma fonte diplomática em Islamabad é direta: “Em princípio, o lado iraniano não aceitará exigências maximalistas”.
Araghchi desembarca na capital paquistanesa na noite de sexta-feira para uma série de encontros com a cúpula local. Ele se reúne com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e com o comandante do Exército, marechal Asim Munir, figura central na mediação entre Teerã e Washington. O giro dura pouco mais de 24 horas e termina sem anúncio de calendário para um novo contato com os americanos.
A presença simultânea de enviados dos dois países no Paquistão alimenta a expectativa de um encontro indireto mais produtivo. O histórico, porém, pesa contra. Desde que os Estados Unidos se retiram do acordo nuclear em 2018 e voltam a impor sanções econômicas, as tentativas de diálogo vivem ciclos de aproximação cautelosa seguidos por recuos bruscos. O cancelamento de hoje se soma a essa sequência de avanços limitados.
Pressão sobre o Paquistão e riscos para a estabilidade regional
Para Islamabad, o impasse representa um desgaste político em um momento em que o país tenta reforçar sua imagem de mediador responsável. Ministros paquistaneses trabalham há semanas para viabilizar a segunda rodada de negociações, vista internamente como oportunidade de projetar influência além da fronteira com o Afeganistão e equilibrar a relação com Washington e Teerã. A súbita saída de cena de Araghchi e o recuo americano, anunciados no espaço de poucas horas, colocam essa estratégia em xeque.
Especialistas em política externa alertam que a paralisia nas conversas aumenta o risco de escalada militar indireta na região. Sem um canal de diálogo funcional, cresce a chance de mal-entendidos, ataques por procuradores e incidentes em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. A continuidade das sanções americanas também prolonga a pressão sobre a economia iraniana, já afetada por inflação alta de dois dígitos e queda na receita com exportações.
Dentro dos Estados Unidos, a decisão de Trump fala ao público doméstico cansado de guerras longas e operações externas sem resultado visível. Ao enfatizar que não aceitará mais “voos de 18 horas” para conversas infrutíferas, o presidente tenta se afastar da imagem de negociações abertas que se arrastam por meses, como ocorreu em outros conflitos recentes. O discurso reforça a ideia de que Washington, nas palavras dele, “tem todas as cartas na manga” e pode aguardar uma iniciativa do outro lado.
No Irã, a mensagem é lida como novo sinal de desconfiança e pode fortalecer correntes internas mais resistentes a concessões. As referências de Trump a uma “liderança fragmentada” e a incertezas sobre quem comanda o país tocam em um ponto sensível da política iraniana, marcada por disputas entre facções conservadoras, moderadas e militares. Ao expor publicamente essa percepção, o presidente americano pode dificultar que autoridades iranianas justifiquem, perante sua base, qualquer gesto de aproximação.
Negociações suspensas, expectativa em aberto
Sem data para uma nova rodada entre americanos e iranianos, o Paquistão tenta salvar o papel de intermediário. Assessores do primeiro-ministro Sharif mantêm linhas abertas com os dois lados na tentativa de reconstruir algum grau de confiança. A tarefa, segundo negociadores que acompanham o processo desde o início de abril, é convencer Washington de que ainda há ganhos possíveis na mesa e mostrar a Teerã que recuos táticos não significam rendição.
Trump, por ora, indica que só volta a agir se enxergar disposição clara de compromisso no Irã. “Se quiserem conversar, basta ligar!!!”, escreve. A frase resume a aposta americana em uma posição de força, que cobra um preço imediato: negociações paradas, incerteza prolongada e uma região estratégica à espera de sinais concretos de distensão. A dúvida que permanece em Islamabad, Teerã e Washington é se essa pausa abre espaço para um recomeço mais pragmático ou se marca apenas mais um capítulo em uma disputa que se arrasta há décadas.
