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Nobel da Paz Narges Mohammadi sofre infarto e é internada após 140 dias sem cuidados

A ativista iraniana Narges Mohammadi, ganhadora do Nobel da Paz de 2023, é internada às pressas em Zanjan após sofrer um infarto e perder a consciência duas vezes na prisão. A transferência ocorre nesta sexta-feira (1º), depois de cerca de 140 dias de negligência médica denunciada por sua família e por sua fundação.

Deterioração “catastrófica” em menos de cinco meses

Narges Mohammadi está presa desde 12 de dezembro de 2025 na penitenciária de Zanjan, no noroeste do Irã. Em menos de cinco meses, sua saúde entra em colapso. A Fundação Narges Mohammadi fala em “deterioração catastrófica” e afirma que a ativista perde 20 kg nesse período, desmaia duas vezes e sofre um grave ataque cardíaco no fim de abril, ainda atrás das grades.

A entidade responsabiliza as autoridades iranianas pela situação. Segundo comunicado divulgado nesta sexta, a transferência para um hospital em Zanjan só acontece “após 140 dias de negligência médica sistemática” e sucessivas recusas de tratamento adequado. A fundação afirma que o caso se agrava apesar de recomendações formais de que ela fosse acompanhada por sua equipe de especialistas em Teerã.

Pressão da família e alerta internacional sobre direitos humanos

A família tenta, sem sucesso, reverter esse quadro desde o início do ano. Em fevereiro de 2026, já debilitada, Narges inicia uma greve de fome para denunciar as condições na prisão e a recusa de atendimento médico especializado. No mesmo período, a Justiça iraniana a condena a mais sete anos de prisão, ampliando um histórico de sentenças ligadas à sua atuação em defesa de presos políticos e de mulheres iranianas.

Do exílio em Oslo, na Noruega, o irmão de Narges acompanha as notícias em tempo real. “Estamos lutando por sua vida”, afirma Hamidreza Mohammadi, em mensagem de áudio compartilhada com a agência Associated Press pela fundação. Familiares descrevem a transferência como “uma ação desesperada de última hora, que pode ser tardia demais para suprir suas necessidades críticas”.

A prisão de uma laureada com o Nobel da Paz e o colapso de sua saúde acendem um novo foco de pressão sobre o regime iraniano. Organizações internacionais de direitos humanos veem o caso como símbolo de um padrão mais amplo de maus-tratos, negação de cuidados médicos e uso da saúde de presos políticos como forma de pressão e punição. A situação de Mohammadi passa a ser citada em relatórios recentes sobre a repressão a vozes críticas no país.

Impacto político e imagem do regime iraniano em xeque

A internação de emergência expõe um dilema para Teerã. De um lado, o governo tenta manter a linha dura contra uma das vozes mais conhecidas do movimento pelos direitos das mulheres e contra a pena de morte. De outro, a deterioração de uma vencedora do Nobel da Paz dentro de uma prisão iraniana alimenta campanhas globais de boicote, sanções seletivas e isolamento diplomático.

Desde outubro de 2023, quando recebe o Nobel, Narges Mohammadi se torna um dos rostos mais visíveis da resistência civil iraniana. O prêmio reforça a atenção de governos europeus e de entidades da ONU para sua segurança. Cada novo boletim sobre sua saúde repercute em parlamentos, redes sociais e campanhas de solidariedade em várias capitais. A demora de 140 dias para uma transferência hospitalar é lida por ativistas como prova de que mudanças estruturais no sistema prisional iraniano seguem distantes.

Na prática, o caso coloca pressão adicional sobre chancelerias que mantêm diálogo com Teerã. Organizações de direitos humanos defendem que futuras negociações comerciais e energéticas incluam a situação de presos políticos como condição explícita. Grupos iranianos no exterior convocam protestos em cidades como Paris, Londres e Berlim, usando o quadro clínico de Mohammadi como alerta sobre o custo humano da repressão.

Hospital, incertezas e próximos capítulos

O quadro clínico mais recente de Narges ainda é cercado de dúvidas. A fundação informa que ela está internada em um hospital local em Zanjan, após médicos da prisão concluírem que já não é possível tratá-la dentro da unidade. Familiares temem que o acesso a especialistas independentes continue restrito e cobram transferência imediata para Teerã, onde sua equipe acompanha o caso há anos.

Diplomatas e entidades de direitos humanos acompanham agora dois movimentos paralelos: a evolução da saúde da ativista e a reação do regime iraniano à nova onda de críticas. A forma como Teerã lida com uma presa que carrega o título de Nobel da Paz em 2023 tende a pesar na avaliação internacional do país. Resta saber se a internação de emergência marca apenas uma correção tardia de rota ou o início de uma mudança real na forma como o Irã trata seus presos políticos.

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