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Zelensky admite que drones podem atingir desfile do Dia da Vitória

Volodymyr Zelensky admite, nesta segunda-feira (…), que drones ucranianos podem atingir o desfile do Dia da Vitória em Moscou, marcado para 9 de maio. A declaração, feita diante de líderes europeus na Armênia, expõe fragilidades na segurança russa e amplia a tensão em torno da principal data simbólica do Kremlin.

Zelensky confronta o simbolismo do 9 de maio

O presidente ucraniano fala na abertura da 8ª Cimeira da Comunidade Política Europeia, em Erevan, capital da Armênia. Diante de dezenas de chefes de Estado e de governo, ele descreve um cenário em que a Rússia já não consegue garantir, com segurança plena, o desfile que celebra a vitória soviética sobre a Alemanha nazista em 1945.

“A Rússia anunciou um desfile a 9 de maio, mas não haverá equipamento militar nesse desfile. Será a primeira vez, em muitos, muitos anos, que não terão a presença de armamento”, afirma Zelensky. Em seguida, ele lança a frase que ecoa entre as delegações europeias: “E os drones ucranianos podem atingir este desfile. Isto mostra que a Rússia já não é tão forte como antes.”

O recado atinge o centro da narrativa construída por Vladimir Putin em mais de duas décadas de poder. O 9 de maio, transformado em ritual anual de afirmação militar, deixa de ser apenas palco de tanques e mísseis. Torna-se, agora, um alvo declarado na disputa tecnológica e psicológica entre Moscou e Kiev, travada cada vez mais no ar, com enxames de drones e mísseis de longo alcance.

No Kremlin, a preocupação é antiga, mas ganha novo peso. Putin reforça a própria segurança e revisa, ano após ano, o formato das comemorações, reduzindo a presença de blindados e sobrevoos em 2022 e 2023, sob o impacto da invasão fracassada de Kiev e da guerra prolongada. A fala de Zelensky joga luz sobre essa mudança, ao sugerir que a ausência de armamento no desfile não é apenas gesto político, mas reflexo de vulnerabilidade concreta.

Drones, sanções e o cálculo do verão

A ameaça não é feita no vazio. A Ucrânia intensifica, há semanas, ataques contra infraestruturas militares e energéticas russas, incluindo refinarias de petróleo e depósitos de combustível a centenas de quilômetros da linha de frente. Esses ataques, quase sempre com drones de fabricação nacional, ampliam a pressão sobre a economia de guerra de Moscou e obrigam o país a dispersar sistemas de defesa aérea.

Zelensky afirma que Kyiv já domina toda a cadeia necessária para produzir sistemas de defesa e veículos aéreos não tripulados, sem depender de linhas externas de abastecimento. “A Ucrânia pode produzir tudo o que precisa para se defender de forma independente, contra ataques balísticos e de mísseis. Oferecemos à Europa as nossas tecnologias de drones para unir todos os países”, diz, num recado direto aos parceiros que ainda hesitam em assumir riscos maiores diante da Rússia.

O presidente ucraniano mira, ao mesmo tempo, Moscou e Washington. Ele lembra que a ajuda militar americana vive ciclos de incerteza, disputada por agendas internas e pelo envolvimento dos EUA em outros focos de crise, como a guerra com o Irã. Ao prometer compartilhar tecnologia com aliados europeus, Zelensky tenta ancorar o esforço de guerra num eixo continental menos sujeito a mudanças bruscas de humor político em Capitólio e Casa Branca.

Na avaliação do líder ucraniano, os próximos meses podem definir o rumo do conflito iniciado em fevereiro de 2022. “Este verão será o momento em que [Vladimir] Putin decide o que fazer a seguir: expandir esta guerra ou avançar para a diplomacia. E temos de o pressionar para a diplomacia”, afirma. Ele insiste que qualquer relaxamento nas sanções é, nas palavras dele, “inaceitável”.

As medidas em vigor atingem petróleo, indústria pesada e bancos russos. Mesmo assim, o fluxo de receitas energéticas encontra novos atalhos, em especial após a eclosão da guerra no Irã, que redesenha rotas de exportação e abre espaço para o petróleo russo em mercados dispostos a pagar menos e enfrentar risco reputacional maior. É nesse ambiente que ataques a refinarias dentro da Rússia ganham significado estratégico: reduzem a capacidade de Moscou de aproveitar janelas de preço alto e testam, simultaneamente, o alcance tecnológico de Kiev.

Impacto político e o que vem depois do 9 de maio

O anúncio público de que drones ucranianos podem atingir o desfile em Moscou tem efeito imediato sobre a percepção de segurança russa. O Kremlin precisa escolher entre manter a liturgia do 9 de maio, com o risco de ser desafiado em rede global, ou esvaziar ainda mais o evento, reforçando a narrativa de fragilidade que Zelensky tenta cristalizar. Em ambos os cenários, a imagem de poder incontestável construída por Putin desde o início dos anos 2000 sofre desgaste.

Para a Ucrânia, o ganho é sobretudo político. Ao colocar a capital russa sob ameaça declarada, Zelensky envia à população ucraniana o sinal de que a guerra não está confinada ao Donbass ou à Crimeia. Moscou também é vulnerável. Esse discurso pode fortalecer o moral interno num momento em que o país enfrenta cansaço social, destruição de infraestrutura e incerteza sobre o ritmo de reposição de armamentos ocidentais.

Entre aliados europeus, a fala em Erevan reforça a ideia de que a guerra não é apenas um conflito territorial, mas um teste de resiliência tecnológica e industrial. Governos que debatem cortes em despesas militares veem na oferta de cooperação em drones um convite a integrar cadeias de produção e de inteligência que podem redefinir a defesa do bloco nos próximos cinco a dez anos. O custo político de recuar, após uma declaração tão pública, também aumenta.

Zelensky, porém, admite que uma saída rápida não é garantida. “Temos de nos concentrar no que faremos se a Rússia não terminar esta guerra. Precisamos de continuar a pressão e precisamos de paz”, afirma. Ele defende um “formato diplomático funcional” em que a Europa esteja à mesa de qualquer negociação, não apenas como fiadora financeira, mas como ator central na definição de garantias de segurança.

A ameaça ao desfile de 9 de maio funciona, assim, como teste para essa estratégia. Se Moscou atravessar a data sem incidentes, Putin tende a usar o fato como prova de controle e capacidade dissuasória. Se houver ataques, mesmo que pontuais, o impacto simbólico pode ser desproporcional ao dano material, reabrindo o debate sobre até onde a Ucrânia está disposta a ir para modificar o equilíbrio de poder.

Entre o cálculo militar e o peso da memória, a guerra entra em nova fase de incerteza. A resposta russa ao 9 de maio e às semanas que o antecedem indica não apenas o estado real das defesas do Kremlin, mas também o quanto Putin ainda confia no poder das datas, dos rituais e das imagens para sustentar uma guerra que já passa de dois anos e não tem, à vista, um armistício claro.

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