Colapso econômico no Irã em 2026 amplia risco de choque no petróleo
O Irã entra em 2026 à beira de um colapso econômico, pressionado por sanções, danos à infraestrutura e queda nas exportações de petróleo. O quadro acende alertas em capitais ocidentais e vizinhas, que temem um novo foco de instabilidade no Oriente Médio.
Rede elétrica frágil, indústria paralisada e contas no vermelho
Em Teerã, filas crescem diante de bancos e postos de gasolina enquanto o governo admite, pela primeira vez em anos, “pressão sem precedentes” sobre a economia. Estimativas de consultorias regionais apontam para uma contração de até 8% do PIB em 2026, após dois anos de crescimento abaixo de 1%. A queda vem acompanhada de apagões recorrentes, paralisações em refinarias e fábricas operando bem abaixo da capacidade.
Parte da infraestrutura de energia e transporte sofre danos acumulados há mais de uma década, agravados por ataques a instalações industriais e oleodutos desde 2023, segundo relatórios de seguradoras internacionais. Técnicos iranianos calculam que mais de 30% da capacidade de refino está fora de operação ou passa por manutenção de emergência. Rodovias estratégicas e trechos ferroviários que ligam zonas industriais ao Golfo Pérsico registram colapsos estruturais, encarecendo o escoamento de mercadorias.
No coração da crise está o petróleo. Em 2017, o Irã exporta cerca de 2,5 milhões de barris por dia. Em 2025, o volume cai para perto de 900 mil barris, concentrados em vendas para poucos aliados asiáticos e alguns países fronteiriços. Analistas calculam que, a cada 100 mil barris cortados, o Tesouro iraniano perde aproximadamente US$ 3 milhões por dia, na média de preços atuais. O resultado é um rombo fiscal estimado em mais de 10% do PIB.
Apesar da escassez de dólares, o país ainda mantém suprimentos básicos relativamente estáveis, graças ao comércio com vizinhos como Iraque, Turquia e países da Ásia Central. Esses parceiros aceitam acordos em moeda local ou em trocas diretas de bens, o que reduz o impacto imediato nas prateleiras dos mercados. A inflação anual, porém, já ultrapassa 60%, segundo economistas ouvidos por agências internacionais, e corrói salários em ritmo diário.
Pressão nas ruas e cálculo geopolítico de Teerã e Washington
Nas grandes cidades, o descontentamento se espalha. Professores, enfermeiros e servidores públicos organizam greves parciais desde o fim de 2025 para reclamar de atrasos salariais que chegam a três meses. Pequenos comerciantes relatam queda de até 40% no movimento desde julho do ano passado. “As contas sobem todo mês, mas os clientes somem”, diz um lojista de Isfahan, em depoimento por aplicativo de mensagem. “Nunca vi tanta incerteza desde a guerra com o Iraque.”
O governo tenta conter a insatisfação com pacotes de subsídios e controle de preços. Em dezembro, anuncia um fundo emergencial de US$ 5 bilhões para importar alimentos e remédios, apoiado por linhas de crédito discretas da Rússia e da China. Em paralelo, reforça o aparato de segurança interna e limita ainda mais o acesso à internet, numa tentativa de impedir que protestos se organizem em larga escala.
Especialistas em Teerã veem o momento como um ponto de inflexão. “O regime enfrenta a combinação mais perigosa em 20 anos: economia estrangulada, juventude frustrada e elite dividida sobre como reagir”, avalia um pesquisador iraniano, sob anonimato, em entrevista a um centro de estudos europeu. Para ele, a erosão do padrão de vida em um país de 88 milhões de habitantes tem potencial de reconfigurar o equilíbrio de poder interno.
A crise também altera o xadrez regional e chega à Casa Branca. Com Donald Trump novamente no comando em Washington, a pressão para endurecer contra Teerã cresce no Congresso e entre aliados de Israel e da Arábia Saudita. Assessores de segurança nacional temem que um Irã fragilizado aposte em ações de força, como o aumento do apoio a milícias na Síria, no Líbano e no Iêmen, para manter relevância política. “Um país encurralado economicamente tende a correr mais riscos militares”, resume um ex-diplomata americano ouvido por telefone.
No mercado internacional, operadores de energia acompanham cada comunicado de Teerã em busca de sinais sobre a capacidade de exportação do país. Um corte adicional de 300 mil barris diários em 2026, somado a conflitos em outras áreas produtoras, pode empurrar o barril de Brent para além de US$ 110, calculam bancos de investimento. Em 2025, a cotação média gira em torno de US$ 87. Países importadores líquidos, como Índia e vários europeus, já simulam cenários de racionamento e aumento de subsídios à gasolina.
Mercado de petróleo em alerta e futuros dilemas para Trump
A Casa Branca encara um dilema. A manutenção de sanções rígidas sustenta o discurso de contenção ao programa nuclear iraniano, mas amplia o risco de um choque de oferta global de petróleo. Parte da equipe econômica defende algum tipo de flexibilização técnica, como licenças limitadas para compras de petróleo iraniano, a fim de aliviar preços domésticos de combustíveis antes das eleições legislativas de novembro. O núcleo mais próximo de Trump, porém, teme que qualquer gesto seja lido como recuo estratégico.
Em discursos recentes, o presidente insiste que não vai “financiar o regime iraniano nem com um centavo”. Bastidores relatados pela imprensa americana, porém, indicam que emissários de Washington sondam governos da região em busca de canais de comunicação indireta com Teerã. A preocupação central é evitar que a crise econômica se transforme em colapso social, capaz de desencadear nova onda de refugiados rumo à Turquia e à Europa e criar espaços para grupos extremistas.
Em paralelo, países do Golfo avaliam como reposicionar sua própria produção. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm capacidade ociosa estimada em cerca de 2 milhões de barris por dia, mas sinalizam que não pretendem compensar integralmente qualquer perda iraniana. “Não é papel de Riad estabilizar sozinho um mercado afetado por decisões políticas de Washington e Teerã”, afirma um consultor ligado à Opep, sob condição de anonimato.
Para o Irã, resta a tentativa de aprofundar laços com vizinhos e potências não ocidentais. Diplomatas iranianos aceleram negociações de acordos de gás com o Iraque, a construção de um novo oleoduto rumo ao Paquistão e o uso de moedas locais no comércio com a Rússia. As iniciativas podem garantir algum fôlego, mas não compensam o peso das sanções financeiras americanas e europeias, que afastam bancos e seguradoras globais.
O desfecho dessa crise ainda parece distante. Se a economia iraniana não encontrar alívio em um horizonte de 12 a 18 meses, o país corre o risco de entrar em um ciclo de instabilidade difícil de controlar. A forma como Washington, sob Trump, equilibra pressão e contenção pode definir não só o futuro do regime em Teerã, mas também o preço que o mundo pagará para abastecer seus tanques e usinas.
