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Mulher de 37 anos se passa por menina de 12 e é adotada em Joinville

Uma mulher de 37 anos é presa em Joinville (SC) após viver 14 meses como se fosse uma adolescente de 12 anos adotada por uma família da cidade. A farsa, sustentada com chupeta, mamadeira e documentos falsos, vem à tona em 2026 e expõe falhas graves na rede de proteção à infância. As autoridades catarinenses anunciam revisão urgente dos protocolos de adoção.

Fraude choca família e expõe brechas na adoção

A investigação aponta que a mulher se apresenta como vítima de abuso e, sob essa narrativa, busca abrigo em órgãos de assistência social de Joinville no fim de 2024. Ela afirma ter 12 anos, diz não ter documentos e alega ter fugido de casa para escapar de agressões constantes. Técnicos relatam comportamento infantilizado e, sem histórico anterior registrado, o caso entra no fluxo de proteção.

Ao longo de algumas semanas, a suposta adolescente conquista a confiança de servidores e de famílias cadastradas no sistema de acolhimento. Ela fala com voz aguda, anda curvada para parecer menor e aceita, sem resistência, o uso de chupeta e mamadeira oferecidas em ambientes de acolhimento. O contraste entre a aparência física e o papel de menina levanta desconfianças pontuais, mas nada impede o avanço do processo.

Em 2025, uma família de Joinville, já habilitada à adoção há mais de dois anos, se encanta com a história da menina que teria sobrevivido a abusos. O interesse se transforma em guarda provisória, conforme previsão do Estatuto da Criança e do Adolescente. A mulher se muda para a casa, ganha um quarto infantil, roupas de pré-adolescente e rotina escolar adaptada, embora frequente apenas atividades pontuais por alegadas dificuldades emocionais.

Dentro de casa, a encenação é constante. A família relata que ela dorme com bichos de pelúcia, assiste a desenhos animados e pede para ser alimentada em alguns momentos. O uso de chupeta e mamadeira, descrito pelos investigadores, é parte da estratégia para reforçar a imagem de fragilidade. A suposta filha chama os pais adotivos de “pai” e “mãe” desde o primeiro mês.

Investigação revela identidade real e pressiona sistema

A farsa começa a ruir depois de cerca de 14 meses, quando um profissional de saúde estranha a estrutura corporal e o desenvolvimento físico da paciente. O médico registra em prontuário a suspeita de idade incompatível e encaminha relatório ao Conselho Tutelar. A partir daí, Ministério Público, Polícia Civil e Vara da Infância cruzam dados, buscam registros em outros estados e solicitam perícias.

As diligências confirmam que a suposta adolescente é, na verdade, uma mulher de 37 anos, com histórico de passagens por serviços públicos em outra região do país. Investigadores afirmam que ela admite ter mentido sobre a idade, mas insiste que foge de uma situação de abuso, sem apresentar provas concretas. “Ela constrói um enredo de vítima para justificar a fraude, mas engana o Estado e uma família inteira”, afirma um delegado ouvido pela reportagem.

A prisão ocorre em 2026, sob acusação de estelionato e falsa identidade. A família adotiva, que convive com a mulher por mais de um ano acreditando cuidar de uma menina de 12 anos, entra em acompanhamento psicológico. O impacto emocional é descrito por profissionais como comparável a um luto. “É como perder um filho que nunca existiu”, resume uma fonte ligada ao caso.

O caso acende um alerta nas instituições que atuam com infância e juventude em Santa Catarina. A adoção, que já é um processo longo e burocrático, mostra brechas em etapas críticas, como checagem documental e acompanhamento presencial. Em Joinville, técnicos admitem, em caráter reservado, que a sobrecarga de demandas e a falta de equipes completas ajudam a explicar a falha coletiva na identificação da fraude.

Protocolos em revisão e alerta para todo o país

Com a prisão decretada, a Justiça encaminha o caso à Corregedoria e determina a revisão dos procedimentos adotados na comarca. A Secretaria de Estado da Assistência Social de Santa Catarina anuncia, nos bastidores, a criação de um grupo de trabalho para revisar fluxos de acolhimento e adoção até o fim de 2026. Entre as medidas discutidas estão exames médicos mais detalhados em situações de dúvida sobre idade, ampliação de cruzamento de dados com outros estados e aumento do acompanhamento presencial das famílias.

Especialistas em direito de família ouvidos pela reportagem defendem que a resposta não pode ser apenas punitiva. Eles cobram investimento em equipes multidisciplinares e sistemas integrados que permitam identificar inconsistências ainda na fase inicial. “O sistema existe para proteger crianças reais, não personagens inventados. Quando uma fraude assim passa, a confiança de todas as partes fica abalada”, afirma uma defensora pública da área de infância.

O episódio de Joinville tende a repercutir em outras regiões, que podem rever seus próprios manuais de atendimento. Estados com filas de adoção superiores a 1.000 pretendentes, como São Paulo e Rio de Janeiro, acompanham o caso com atenção, temendo que episódios semelhantes retardem ainda mais processos já lentos. Organizações ligadas à causa da infância avaliam sugerir mudanças nacionais ao Conselho Nacional de Justiça.

Enquanto a investigação criminal avança, a família que acreditou adotar uma menina tenta reconstruir a rotina. O caso deixa uma pergunta em aberto para o país: quantas outras histórias de adoção dependem hoje de uma confiança cega em documentos frágeis e estruturas sobrecarregadas?

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