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Morre Angelita Habr-Gama, pioneira da coloproctologia, aos 93

Morre em São Paulo, neste 31 de maio de 2026, a médica Angelita Habr-Gama, aos 93 anos. Referência mundial em coloproctologia, ela transforma o tratamento do câncer de intestino e abre espaço para gerações de mulheres na cirurgia.

Da sala de aula ao centro cirúrgico

Angelita Habr-Gama constrói uma trajetória que redefine a medicina brasileira. Professora titular emérita da Faculdade de Medicina da USP, ela ocupa um lugar raro: une pesquisa rigorosa, prática cirúrgica intensa e formação de gerações de médicos. Ao criar, ainda na universidade, a disciplina de Coloproctologia, ela consolida no Brasil um campo que até então avançava de forma dispersa.

No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde atua como cirurgiã do Centro Especializado em Aparelho Digestivo, Angelita segue operando, orientando e discutindo casos complexos mesmo já consagrada internacionalmente. Colegas relatam que a professora costuma chegar cedo, revisar exames, confrontar protocolos e cobrar precisão de cada equipe. O foco é sempre o mesmo: preservar o paciente, evitar mutilações desnecessárias, antecipar a doença antes que ela avance.

Pioneirismo feminino e influência global

Angelita rompe a barreira de gênero em um território historicamente masculino. Ao tornar-se a primeira mulher professora titular em uma especialidade cirúrgica da USP, ela muda a paisagem dos corredores, das salas de aula e dos centros cirúrgicos. A conquista, formalizada décadas atrás, continua simbólica em 2026, em um país onde as mulheres são maioria nas faculdades de medicina, mas ainda são minoria nas cúpulas da cirurgia.

A carreira desperta reconhecimento fora do Brasil. Angelita é a primeira mulher a integrar, como membro honorário, a American Surgical Association, uma das sociedades cirúrgicas mais tradicionais do mundo. Em 2023, recebe a Medalha Bigelow, da Boston Surgical Society, prêmio reservado a nomes que marcam época na cirurgia. Antes disso, ainda em 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso entrega a ela o “Mérito Santos-Dumont” e a “Medalha do Pacificador”, distinções raras para uma médica que não atua na área militar, mas cuja contribuição à saúde pública se impõe.

Pesquisas colocam Angelita entre os 2% de cientistas mais influentes do planeta, segundo ranking organizado pela Universidade de Stanford. A lista, baseada em impacto de citações e produção científica, traduz em números o que muitos colegas já percebem no cotidiano: técnicas, protocolos e estudos liderados por Angelita passam a orientar decisões de médicos em hospitais públicos e privados, no Brasil e no exterior.

O reconhecimento extrapola o ambiente acadêmico. A Revista Forbes a inclui entre as mulheres mais influentes do Brasil, destacando a combinação de liderança científica e capacidade de formar quadros. A imagem da cirurgiã de jaleco branco, comandando equipes em cirurgias longas, ganha também um papel simbólico: a de mulher que abre uma porta e se recusa a fechá-la para quem vem depois.

Institutos, prevenção e legado em movimento

A atuação de Angelita não se limita ao centro cirúrgico. Ela funda a Associação de Prevenção do Câncer de Intestino em um momento em que o tema ainda recebe pouca atenção do público. A entidade ajuda a difundir a importância de exames como a colonoscopia, fundamentais para detectar lesões precoces e evitar tumores avançados. Em um país onde o câncer colorretal figura entre os mais incidentes, a mensagem tem impacto direto na vida de milhares de pessoas.

Com o Instituto Angelita & Joaquim Gama de Coloproctologia e Cirurgia Digestiva, criado ao lado do também cirurgião Joaquim Gama, ela organiza uma frente de ensino, pesquisa e assistência. Jovens residentes e médicos em subespecialização passam pelo serviço e levam, para outros estados e países, condutas mais conservadoras em alguns tumores de reto, acompanhamentos rigorosos e protocolos de prevenção mais agressivos. O instituto funciona como uma ponte entre a universidade, hospitais de referência e o sistema de saúde suplementar.

O impacto dessa trajetória aparece hoje na prática diária. Cirurgias menos invasivas, decisões mais individualizadas e um olhar atento à qualidade de vida depois do tratamento entram no vocabulário de equipes formadas ou influenciadas por Angelita. O câncer de intestino, que por décadas é associado a diagnósticos tardios e cirurgias mutiladoras, começa a ser enfrentado com outra lógica: prevenir, detectar cedo, tratar com precisão e preservar ao máximo a função do órgão.

No meio médico, a morte de Angelita gera uma onda imediata de homenagens em hospitais, sociedades científicas e universidades. Disciplinas criadas por ela permanecem ativas na USP. Linhas de pesquisa seguem em andamento em temas como resposta completa ao tratamento clínico em tumores de reto, vigilância intensiva e desfechos de longo prazo. O apagão deixado por sua ausência convive com uma produção científica que continua a ser citada, atualizada e debatida.

Desafios após uma trajetória de exceção

O falecimento de Angelita recoloca em debate a necessidade de manter e ampliar políticas de prevenção do câncer de intestino no Brasil. A cobertura de exames de rastreamento ainda é desigual entre regiões e entre pacientes do SUS e da saúde suplementar. A agenda que ela ajuda a construir, ao fundar associações e pressionar por diagnóstico precoce, exige continuidade em meio a orçamentos apertados e disputas de prioridades.

O exemplo da primeira mulher titular em uma especialidade cirúrgica da USP também pressiona instituições a enfrentar, com dados, a ausência de mulheres em cargos de comando. Salas de conselho, diretorias de hospitais e cátedras ainda refletem um desequilíbrio que contrasta com as estatísticas de formandos. A trajetória de Angelita, celebrada hoje em notas oficiais, deixa como recado a ideia de que representatividade não é um gesto simbólico, mas um motor de inovação científica.

Hospitais e universidades onde atua já organizam cerimônias e sessões em homenagem à cirurgiã. A expectativa de colegas e alunos é que o instituto que leva seu nome ganhe fôlego renovado, com novas bolsas, projetos e parcerias internacionais. Linhas de pesquisa em coloproctologia e medicina preventiva devem se apoiar em sua obra para avançar em temas como personalização de tratamentos, uso de inteligência artificial na detecção precoce de lesões e ampliação do acesso a exames de rastreio.

A morte de Angelita fecha uma trajetória iniciada há mais de meio século, mas não encerra as perguntas que ela deixa à medicina brasileira. Quem assume a liderança na defesa da prevenção em um país desigual? Como garantir que descobertas científicas cheguem, de fato, à rede pública? O legado que hoje é lembrado em discursos e notas de pesar será medido, nos próximos anos, pela capacidade de o sistema de saúde transformar conhecimento em cuidado concreto.

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